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Blackboard: A marcação individual – Parte I

Blackboard: A marcação individual – Parte I

Calma, caro leitor, você não está maluco. Nós já falamos sobre coberturas em um Blackboard passado, não é um delírio de sua imaginação. Alguém pode pensar: mas por que o Pro Football está batendo novamente na mesma tecla? O intuito deste texto (e dos próximos que vão falar sobre elementos citados neste Blackboard) não é repetir as mesmas coisas, mas sim aprofundar.

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No último texto sobre coberturas, o panorama foi geral. Tentamos falar sobre marcações individuais e por zona e algumas coberturas, mas tudo de maneira superficial – que mais serve para identificar a jogada no campo do que para entender quem está fazendo besteira e quem não está.

Então este texto é só para aquele cornerback que quer entender melhor a sua função em campo? Mas é claro que não. Sem saber a técnica apropriada, o fã de futebol americano não vai conseguir saber quem falhou em qual jogada. Muitas vezes o passe longo cedido não é culpa do cornerback, que supostamente foi queimado, mas sim do safety que mordeu a jogada errada – porque o linebacker ou o nickelback falharam, por exemplo. Saber mais detalhadamente sobre a técnica e o princípio adotado melhora o seu entendimento para na hora de jogar, assistir e também ir para o Madden.

A marcação individual

Nesta série para aprofundar um pouco mais o conhecimento das coberturas, nada melhor do que começar com as marcações individuais. Para quem não leu o último texto – e não quer mudar de aba – a nossa descrição foi:

O nome da marcação já denuncia o que ela é. Enquanto na mano-a-mano cada marcador é responsável por um recebedor, na zone cada marcador é responsável por uma faixa do campo. Isto torna os dois bem distintos e sendo úteis para aplicar em situações diferentes.

A marcação man proporciona uma pressão maior na linha de scrimmage (o famoso bump-and-run) e garante que todos estão cobertos. Além do mais, ela evita com que os adversários conquistem muitas jardas após a recepção, limitando os ganhos. As grande desvantagens deste tipo de marcação são na geração de interceptações (fica mais difícil agarrar a bola), pouca ajuda (se o recebedor venceu o marcador ele ficará aberto), menor capacidade em evitar grandes scrambles e cansaço defensivo. Combinações de rotas cruzadas também são um ponto fraco da marcação individual, visto que isso causa tráfego entre os marcadores e acaba por deixar livre o recebedor adversário.

[…] Se a intenção é evitar o passe completo, na maioria dos casos marcações individuais são a melhor opção. Lembre-se: assim como no xadrez, no futebol americano é preciso pensar bem antes de tomar qualquer decisão. Não dá para jogar a partida inteira em zona ou em marcação individual: é preciso mesclar para tornar as suas ações imprevisíveis para o adversário.

Vale ressaltar que existe diferença na técnica utilizada pelos jogadores na cobertura se a marcação é individual ou por zona. No caso de uma marcação com robber, por exemplo, o cornerback vai estar dando o lado das hash marks para o recebedor, visto que vai ter ajuda do linebacker ou safety que estiver por lá. O trabalho do footwork também vai mudar tremendamente de uma cobertura para outra: o cornerback vai estar mais interessado em evitar um passe longo na cover 3 e vai recuar mais do que se estivesse em uma marcação individual.

Isto explica o básico da marcação individual, mas a grande questão é: como jogar nela? Afinal, a técnica é a mesma em todos os casos ou existem diversos tipos de técnicas para diferentes situações de jogo? A resposta é óbvia: sim, existem diversos tipos de técnicas.

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Um ponto que não reforçamos no último texto, mas que o leitor mais atento já notou, é uma diferença gigante da zona para a individual: enquanto a primeira requer muito mais disciplina, a segunda requer muito mais técnica. Embora mais eficiente quando bem executada, a marcação individual vai lhe exigir uma técnica muito maior em campo. Para explicar esta técnica de acompanhar o recebedor, vamos citar algo que se vê direto em campo: o bump and run.

Bump and run

Um dos símbolos da marcação individual é a marcação sob pressão (press coverage). O cornerback está na linha de scrimmage e tenta o contato com o recebedor, a fim de desacelerar a sua rota e prejudicar o timing entre quarterback e recebedor.

Revis1Só que é preciso ser bem técnico na marcação sob pressão, caso contrário o cornerback é facilmente queimado. Primeiramente, e o mais importante, é preciso jogar com o nível dos pads baixo. Pode reparar em qualquer partida: um marcador que joga com os pads altos vai ser queimado mais facilmente. Conseguir jogar com os pads baixos (como o Darrelle Revis) faz com que sua reação seja mais rápida e não perca tanto tempo nos cortes perseguindo o adversário.

Quando o snap acontece o primeiro passo é fazer o contato com o peito do recebedor. Se ele vai para fora do campo, o contato é com a mão de dentro – e vice-versa. O mais importante aqui é não “abrir” totalmente o quadril, ou seja, tentar alcançar o recebedor mexendo o quadril e o deixar na perpendicular com a linha de scrimmage. Caso você abra muito o quadril, as chances do recebedor se livrar das mãos e lhe queimar são altas. Quer ver um pouco mais? Veja o próprio Richard Sherman explicando.

Repare que na segunda parte do vídeo ele abre o quadril e acompanha por cima, visto que a sua primeira preocupação vai ser o fundo do campo – já que ele vai ter ajuda por dentro. Na primeira parte, o contato com as mãos é feito com o quadril praticamente paralelo a linha de scrimmage, o permitindo ter mais equilíbrio no início da marcação individual.

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Um outro exemplo de bump and run é o da imagem acima. Repare que o release de Dez Bryant é para fora na jogada e Revis faz o contato primeiro com a mão esquerda (que é a de dentro) e o quadril está praticamente paralelo a linha de scrimmage. O bump faz com que o timing entre Bryant e seu quarterback seja prejudicado e ele vai ter mais dificuldades em executar uma comeback ou out, visto que perdeu espaço do campo. Além disso, o equilíbrio de Revis na jogada é total, visto que seus pads ainda estão baixos, não prejudicando o seu deslocamento – e o quadril está muito bem posicionado. Uma aula de bump and run.

Qual técnica usar?

Novamente, por ser a mais técnica, jogar em marcação individual vai depender muito da qualidade do jogador em questão. Além de jogar em um nível baixo, com os pads alinhados com o quadril, é importante também prestar atenção durante o desenvolvimento da rota.

O primeiro detalhe que deve se prestar atenção é quando a jogada se estende. Se o pass rush não chega lá e o cornerback perde o recebedor, é importante não se desesperar e sair agarrando o adversário. É preciso prestar atenção nas mãos e lembrar que ele vai ter que guardar a bola para ser recepção. Tem que ter frieza na marcação e não querer por tudo a perder com um holding ou pass interference.

Durante o desenvolvimento da rota, o cornerback precisa treinar seus olhos para observar o quadril do recebedor adversário e seus instintos. Tirando as rotas curtas (flat, crossing, slant e outras), qualquer outra rota na NFL vai se desenvolver até 10 ou 15 jardas. Logo, se o recebedor parar tendo percorrido oito jardas, muito provavelmente é uma double move. Ele não parou? Vire e corra, pois será uma rota longa. Além disso, dependendo da marcação a técnica utilizada na marcação é outra (como vamos falar no próximo texto). Não dá para se preocupar em cobrir o lado de dentro se a técnica exige o lado de fora e vice-versa.

Não existe melhor figura para ilustrar a técnica de um cornerback como esta interceptação realizada por Richard Sherman. Os Seahawks estão em cover 1 e Sherman deveria jogar o lado de fora, visto que teria ajuda no meio do campo. Na hora do snap o recebedor dos Giants consegue um belo release para fora, o que evita o bump de Sherman.

Agora repare na atitude dele durante a rota. Mesmo jogando fora de posição, ele sabe que vai ser ou uma fade ou uma comeback. Ele começa atrás, mas em nenhum momento se desespera e agarra o adversário. Sua técnica consiste em manter o quadril sob controle e reparar no quadril do adversário até ultrapassar 10 jardas da linha de scrimmage. Após isso ele olha para Eli Manning, visto que sabe que a rota é no fundo do campo. Como a bola flutua um pouco e vai para dentro, Sherman consegue a interceptação, porém ele teve muito mérito em recuperar a posição perdida e sair com a bola.

Alinhamentos em campo também denunciam quais as possíveis rotas que podem ser percorridas. Se o recebedor está muito aberto, ele não vai correr uma flag. Ele está alinhado em cima dos números? Existe uma chance da rota quebrar para fora do campo, visto que agora ele vai ter o espaço necessário. E aqui entra o estudo: sem se dedicar a entender como o adversário se alinha e suas tendências fica difícil jogar na marcação individual. O videotape é importantíssimo na preparação para uma próxima partida.

Como ele sai da linha de scrimmage também é muito importante. Ele larga mais para a lateral? Se prepare para o fade ou comeback. Se o início é em disparada, muito possivelmente uma rota go ou post pode ser o objetivo. Boa parte da marcação individual reside em identificar a rota antes que aconteça – o que evita ser queimado. A preparação e técnica empregadas evita com a marcação individual torne-se frouxa por causa da confusão sobre o que marcar.

E qual a melhor configuração para a cobertura em pressão? Se a equipe está em cover 1, o melhor é um cornerback pressionando e outro não. Isto faz com que o safety saiba qual lado, mais provavelmente, ele vai ter que ajudar no fundo do campo – e qual não. Em cover man, os dois cornerbacks podem jogar sob pressão, visto que eles vão ter ajuda no fundo – isto será melhor ilustrado quando nos aprofundarmos ainda mais nas coberturas individualmente. Claro que durante situações de jogo isto pode mudar – seja por erro de posicionamento ou preferência do coordenador.

Na próxima semana vamos falar um pouquinho mais sobre a marcação individual, porém agora o foco vai ser quais técnicas se utilizam dependendo da marcação em campo. Jogando mais afastado da linha de scrimmage marca-se como? E se a equipe está em cover 2, o comportamento é o mesmo da cover 1? Fique ligado e aprenda um pouco mais para poder xingar o cornerback da sua franquia quando o adversário marcar um touchdown longo.

Escreve sobre futebol americano desde 2012. Apesar de viciado nos aspectos táticos do jogo, sempre dá palpites sobre tudo na NFL. Atualmente faz doutorado em Física na UNICAMP.

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