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Opinião: O protocolo de concussão da NFL ainda é seletivo e uma enorme bagunça

Em julho passado, com toda a pompa que lhe é característica quando divulga notícias que melhoram sua reputação, a NFL anunciou mudanças no seu “Protocolo de Concussões”, que o tornariam mais rígido e aumentariam a segurança dos jogadores. Não foi necessário irmos além da primeira partida da temporada para percebermos que a liga não está tão interessada assim em seguir suas próprias regras de segurança.

No jogo de abertura da temporada regular de 2016, entre Carolina Panthers e Denver Broncos, o quarterback Cam Newton recebeu ao menos quatro big hits  – aquelas pancadas que nos fazem contrair o corpo e fazer cara de dor em nossos sofás – na região da cabeça, não sendo examinado por suspeita de concussão em nenhum deles.

A mais assustadora destas pancadas veio na campanha final do jogo, quando Newton deixou Graham Gano em condições de chutar o field goal que daria a vitória a Carolina – se tivesse sido convertido. Com 36 segundos restando no cronômetro, o quarterback dos Panthers foi atingido violentamente na cabeça pelo capacete do safety Darian Stewart. Newton permaneceu no chão por alguns segundos e se levantou lentamente, com dificuldade. A falta sofrida pelo jogador foi anulada pelo intentional grounding cometido por ele mesmo na jogada, e o tempo gasto pelos árbitros para anunciar esta decisão foi todo o tempo que Newton teve para se recuperar e continuar jogando. O famoso “Protocolo de Concussão” da NFL foi sumariamente ignorado.

A liga defendeu o acontecido, dizendo que “enquanto a jogada estava parada para que os árbitros aplicassem as penalidades, o consultor independente de neurotrauma e o médico da equipe solicitaram o vídeo dos observadores e reviram a jogada. Eles concluiram que não haviam indícios de concussão que tornassem necessários mais exames e a retirada do jogador da partida”

Os “observadores” a que o porta voz da NFL, Brian McCarty, se referiu nesta declaração, são dois atlhetic trainers – profissionais de saúde especializados em esportes – que ficam em uma cabine no estádio e têm acesso a vídeos de todas as jogadas. Eles têm o poder de interromper a partida para exigir que um jogador seja examinado. Além deles, cada time é representado por um médico especializado em neurotrauma, sem nenhuma afiliação com a equipe, que também pode fazer esta exigência.

Nenhum destes profissionais, bem como os médicos de Carolina, os jogadores da equipe e o próprio Cam Newton solicitaram uma avaliação do quarterback, então o protocolo foi respeitado, de acordo com a NFL. Mas basta lermos as regras que regem o tal “Protocolo de Concussão” para nos depararmos com o seguinte parágrafo:

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“No evento da ocorrência de uma concussão não estar clara, ou um jogador apresente um mecanismo de lesão (big hit) que possa ter causado uma concussão (…) o jogador deverá ser removido imediatamente do campo de jogo por um membro da equipe médica de seu time. O médico mais bem qualificado para avaliar concussões da equipe deverá examinar o jogador, fazendo, no mínimo, um exame neurológico focado…”

Existe alguma dúvida de que Cam Newton sofreu big hits que poderiam ter causado uma concussão?

E ainda assim ele continuou em campo. É claro que continuou. Ele mesmo não iria querer sair, tendo a chance de conduzir seu time a uma vitória com sabor de vingança, tão sonhada por ele e seus companheiros de equipe. Não, não estamos supondo: isso é mais do que óbvio. Na noite de ontem, no Thursday Night Football entre Jets e Bills, Tyrod Taylor foi tirado de campo pelo árbitro, Ed Hochuli, para ser avaliado no que tange a concussões. Ele ficou revoltado e queria voltar logo à partida.

Os médicos dos Panthers não queriam ser responsáveis por comprometer suas chances de vitória tirando o seu quarterback titular do jogo em um momento chave. E a NFL e seus “observadores independentes” já nos demonstraram que se preocupam mais com o lucro trazido por seus jogadores – inclusive seu MVP – do que com os efeitos que o jogo pode ter em sua saúde a longo prazo.

Em novembro do ano passado, Case Keenum, quarterback dos Rams, sofreu uma pancada violenta na cabeça, ficando visivelmente atordoado e confuso. Mesmo assim, ele continuou na partida. A repercussão negativa causada por este fato foi o que motivou a decisão da NFL – citada no primeiro parágrafo – de aplicar multas e até perda de escolhas no Draft para times que falharem em aplicar corretamente o “Protocolo de Concussão”.

Embasados por esta nova regra, a NFLPA – associação dos jogadores da NFL – e a própria liga anunciaram que começarão cada uma sua própria investigação a respeito da omissão do Carolina Panthers. Caso as investigações discordem em suas conclusões, o caso será decidido por um mediador independente. Mas, mesmo que tal mediador decida que os Panthers erraram, a decisão sobre a aplicação de qualquer  punição cabe  exclusivamente a Roger Goodell.

Joe Person, repórter que cobre de perto os Panthers, divulgou em sua conta do Twitter que Cam Newton foi submetido a quatro exames para identificar concussões nas 24 horas seguintes à partida, e passou em todos eles. O técnico Ron Rivera confirmou esta afirmação depois, em entrevista coletiva. Isto, sem dúvida alguma, é uma ótima notícia. Mas os médicos do time e os observadores independentes contratados pela NFL não sabiam disto na hora da partida, e permitiram que um jogador continuasse em campo após sofrer um forte golpe na cabeça e ter dificuldades para se levantar. O futebol americano não é o único esporte que expõe seus praticantes ao risco de concussões, mas nos últimos tempos sua imagem tem se tornado quase indissociável destas lesões cerebrais. E enquanto para a NFL, principal representante do esporte, o resultado de uma partida for mais importante que a saúde de seus praticantes isto não vai mudar.

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