Primeira Leitura

A temporada não está nivelada por baixo – é que não estamos acostumados com as novas potências

“RODAPE"

A semana passada foi completamente caótica. Tanto para mim – tive 5 transmissões de quinta a domingo – quanto para os outros redatores por conta do Thanksgiving. Devido a isso, uma das pautas escolhidas pelos sócios do ProFootball acabou passando. Felizmente, ela ainda está atual. A NFL está nivelada por baixo neste ano?

Bom, este artigo é meio que uma continuação de outro que escrevi mais cedo nesta temporada: sobre se a temporada 2016 estava “chata” ou não. Minha conclusão naquela época é que o calendário não ajudava – sobretudo o horário nobre, com partidas sonolentas e dominadas apenas por um lado. Mas, de maneira direta, a conclusão era de que a temporada não estava chata não. Ela só estava diferente.

A impressão da maior parte dos fãs de NFL é que a liga está nivelada por baixo porque times outrora fortes e com muita torcida estão com temporada minguada. As coisas estão mudando e a sólida base de fãs de algumas franquias tomaram um susto com isso. Explico, antes;

A popularidade do futebol americano no Brasil começou realmente a crescer a partir de 2006. Naquele ano, começaram as transmissões de jogos a tarde pelo BandSports, bem como dos Super Bowls de direitos da FOX nos EUA e dos playoffs da Conferência Nacional. Os Bears, time de mercado consumidor grande (Chicago, o que naturalmente puxa quem conhecia os Bulls pela NBA) eram bons. Os Saints tinham história de Cinderella por conta da superação pós Katrina. Na Conferência Americana, Patriots e Colts faziam jogos épicos ano após ano com Tom Brady vs Peyton Manning. E as transmissões da ESPN começaram a ser realizadas daqui do Brasil, com o Everaldo e o Paulo.

Tudo isso fez com que a “área de cobertura” da NFL acabasse por crescer. E o status quo da liga nesses 10 anos não havia mudado tanto quanto nos últimos dois anos. A começar pela AFC North. Até antes da temporada passada (2002-2014), a divisão tinha média de 8,3 vitórias por time em cada temporada. Contando com os Browns. Foi a divisão com mais títulos de Super Bowl (3, empatada com a AFC Patriots East) e mais participações na pós-temporada (19). De 2002 até ano passado, a divisão levou times aos playoffs via Wild Card em 9 anos. Em alguns, mandou dois, ocupando as duas vagas de repescagem – 2011 e 2014. Resumindo, nesta década, a AFC North levou três times aos playoffs em duas ocasiões – nenhum time levou mais.

E, aí, em 2016, a AFC North é a pior divisão da NFL. Antes que torcedores de Steelers, Browns, Ravens e Bengals me xinguem, o dado é objetivo. A divisão tem 34% (14-29) de aproveitamento neste ano, pior marca somada da liga. De 2002 a 2015, tinha 51,3% de aproveitamento. Ou seja: uma divisão com bastante torcida vai mal. E isso influencia na percepção geral do público de que “a liga está nivelada por baixo”.

Somado a isso, três times com bastante torcida brasileira na Conferência Nacional – Green Bay Packers, New Orleans Saints e San Francisco 49ers – estão com campanhas negativas, tendo mais derrotas do que vitórias. Novamente: a percepção acaba sendo puxada para baixo porque você deve ter amigos que torcem para um desses três times e que estão chateados com a temporada 2016. Chicago, o terceiro maior mercado consumidor da liga, teve uma cacetada de jogos no horário nobre – por tabela, com transmissão para o Brasil. E os jogos foram horripilantes. But wait, there’s more!

Outrora candidatos a pós-temporada, Bengals e Cardinals muy provavelmente não irão aos playoffs. E, neste momento, Broncos e Panthers – dois times que estiveram no Super Bowl há nem 10 meses – estariam fora da pós-temporada neste instante que vos escrevo. Os vencedores de cada conferência não poderiam defender seu título em janeiro pela primeira vez desde 2003, temporada na qual Buccaneers e Raiders não foram para os playoffs depois de se enfrentarem no Super Bowl referente à temporada 2002.

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E aí, nesse cenário de mudanças, nosso cérebro, costumeiramente mais focado em erros do que em acertos, tem dificuldade de lidar com o status quo. No ano passado, neste mesmo 1º de dezembro, havia 13 equipes que tinham mais vitórias do que derrotas. No 1º de dezembro de 2016, são 17. A temporada, em alguns aspectos, está mais polarizada e desigual. Você tem uma cacetada de times que estão muito mal, como 49ers, Bears, Jaguars, Jets e os sem-vitórias-Browns. Este é outro aspecto que “puxa pra baixo” a percepção, também.

De toda forma, por conta de alguns aspectos negativos – que existem em todo ano – mais as mudanças no status quo, achamos que o campeonato está nivelado por baixo. Não está. O que dizer da AFC West? A divisão só não tem todos seus times com campanha positiva porque os Chargers perderam alguns jogos de forma absurdamente azarada. Os Chiefs são um time divertido de se assistir porque não desistem e surgem como fênix no último quarto. Os Raiders têm um ataque muito divertido de se ver. Os Broncos, por mais que não estejam jogando como ano passado, ainda possuem uma defesa acima da média. Os Cowboys têm um dos melhores times da NFL nos últimos anos. Os Dolphins são uma das histórias mais bacanas da reta final da temporada. Os Giants do midiático Odell Beckham Jr devem se classificar para os playoffs e são os únicos a terem vencido os Cowboys neste ano.

Em resumo, a temporada não está nivelada por baixo. Apenas estamos passando por mudanças – como falei no texto anterior sobre este assunto. É natural que isso aconteça. A questão é que o torcedor brasileiro está acostumado com o futebol onde, com o perdão de quem não vai concordar, o Campeonato Brasileiro é, sim, nivelado por baixo. Onde os mesmos de sempre ganham o Campeonato Espanhol a menos que um cometa a cada dez anos passe. Onde a Premier League, por mais que o Leicester tenha vencido, só teve dois campeões diferentes de Manchester United, Manchester City, Chelsea e Arsenal desde 1992. Só Blackburn e Leicester somam a esses 4, totalizando 6 campeões diferentes desde 92-93. A NFL teve 13, com apenas dois bicampeonatos (Broncos 98-99 e Patriots 03-04).


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Então é isso. Acostumem-se: a NFL é cíclica por conta de Draft, Salary Cap, Free Agency e todo o mais. São 32 franquias que, de verdade, podem ter chance de título ao início de uma dada temporada. É o que eu sempre falo: ninguém acreditava nos Rams em 1999, nos Patriots em 2001. Foram campeões. Ninguém acreditava nos Cardinals em 2008 e poucos acreditavam nos Panthers ano passado. Eles chegaram ao Super Bowl. Não é porque times com muita torcida no Brasil vão mal que a liga necessariamente está mais fraca ou nivelada por baixo.

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Claro: existem sim alguns fatores que precisam ser corrigidos no futuro e que, pontualmente para algumas posições, estão causando problemas. Mas que são problemas de todos os times, não de dois ou cinco. No acordo coletivo trabalhista de 2012 (CBA) foi determinado que houvesse menos treinamento com contato no período que antecede às temporadas regulares (intertemporada). Por consequência, os times tiveram menos tempo para lapidar seus jogadores de linha ofensiva – o que vem gerando um festival de faltas. Idem quanto aos kickers, que no geral estão tendo menos treino para praticar algo que puramente é mecânico – o chute.

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Ademais, o CBA de 2012 praticamente “tabelou” o contrato de calouros. 4 anos de acordo com onde você foi escolhido no Draft e mais um ano extra. Nos primeiros anos, ainda havia muitos veteranos nos times, dado que eles ainda estavam sob contrato. Hoje um general manager não pensa duas vezes: prefere ter calouros com contrato mais baixo e de nível técnico parecido aos veteranos do que ter estes, bem mais caros. A questão é que estes dominam alguns aspectos que só vem com o tempo. Por tabela, o nível cai.

As questões de CBA serão resolvidas até o final desta década – e já no ano que vem a questão “jogos ruins no horário nobre” decerto será tackleada nos próximos dois anos. O importante é determinar isso: em termos de vitórias/derrotas dos times, a liga está parecida com 2015. Ela apenas mudou quais times estão bem – e isso decorre da própria estrutura cíclica da NFL. Quer gostemos ou não.

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