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Análise tática: qual o segredo do sucesso ofensivo dos Raiders?

Análise tática: qual o segredo do sucesso ofensivo dos Raiders?

Nenhum quarterback é perfeito – o mais próximo, em atividade, é Tom Brady. Todos possuem falhas que vão desde o braço ser um pouco mais fraco, dificuldade de leitura pré-snap, dificuldade de leitura da defesa após o snap, dificuldade em lidar com a pressão. Isso é óbvio e neste ponto é que o técnico faz a diferença. Como lidar com a estrela do time? Adaptar seu ataque ao seu estilo ou adaptá-lo ao seu ataque?

Como em quase tudo na vida, o equilíbrio é o ideal. Bill Belichick (que é uma mente defensiva, mas sua filosofia está impregnada no ataque dos Patriots) começou com Brady em um ataque adaptado ao seu estilo: West Coast puro, muito jogo terrestre e pouca pressão – foi assim que ganhou o seu primeiro anel, vá assistir o jogo contra os Rams. Ao longo dos anos, foi Brady que se adaptou ao estilo que Belichick queria: como no 18-1 com um ataque muito mais vertical até o No Huddle de hoje em dia.

Você deve estar pensando que é super fácil usar de exemplo um dos melhores de todos os tempos e futuro Hall da Fama, certo? Então veja a situação de Colin Kaepernick e Jim Harbaugh – e sua equipe, principalmente para o trabalho de Greg Roman na época. Quando a dupla herdou Alex Smith, eles utilizavam um esquema muito mais conservador, puramente West Coast e com muitas leituras pré-snap (o forte de Smith). A lesão do agora quarterback do Kansas City Chiefs e a entrada de Kaepernick fez com que eles fizessem adaptações simples que o elevaram a um bom jogador na época.

Esqueça o fato da Read Option estar estourando na época: sem as ideias desses dois caras, os Niners nunca teriam chego ao Super Bowl. Kaepernick é extremamente limitado em suas leituras pré-snap, não sabe lidar bem com a pressão e não pode ser o centro de um ataque. Por outro lado, ele tem uma capacidade atlética fora do normal, um braço enorme e certa acurácia. Aproveitando a linha que estava lá, Harbaugh montou um esquema com muito movimento no backfield, com vários jogadores, confiando em Frank Gore e deixando Kaepernick absurdamente a vontade para fazer o que quisesse correndo. Ele foi ajeitando aos poucos, introduzindo conceitos que ele gostava mais (como passes mais curtos e mais under center), moldando um ataque para ser funcional mesmo com um jogador limitado como signal caller.

O que aconteceu com a sua saída? Jim Tomsula quis implantar o seu estilo: muitas leituras antes do snap, pouco shotgun e algo mais tradicionalista. Já Chip Kelly, cabeça dura que é, quis se distanciar (se aproximando) da figura do Read Option e acabou com um esquema parecido com o dos Eagles – que só atrapalha o sistema defensivo e coloca mais pressão no ataque. O resultado é um produto não finalizado, pouco valorizado e que viu todo o sucesso de outrora ir pelo ralo.

Explorando as qualidades e diminuindo os defeitos

O que San Francisco tem a ver com Oakland? Além da Bay Bridge, muita coisa. Assim como Kaepernick, Derek Carr foi uma escolha de segunda rodada – e não foi a toa. Carr sempre foi um cara que trabalhava absurdos (como falou em uma entrevista para a gente no antigo The Concussion), mas era limitado em suas leituras de campo e senso de pressão. Este problema até hoje é o grande defeito dele, como esta jogada mostra:

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A jogada aqui exemplifica uma das maiores qualidades e os defeitos de Derek Carr. No pré-snap ele identifica o cover 2 de Denver e faz o ajuste para chamar uma jogada em três níveis. A intenção é que o cornerback vá em profundidade e Amari Cooper chame a atenção dele e do safety, liberando o espaço pelo meio para o tight end ou para Michael Crabtree – o carregador de piano.

O que acontece é que o cornerback fica em Crabtree e deixa Cooper totalmente livre, só que Carr não vê. Dois grandes motivos o derrubaram no Draft: a incapacidade de enxergar o campo inteiro e o desespero no mínimo senso de pressão. Note como Von Miller aparece na frente dele, só que não apresenta nenhum perigo:

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O problema é que Derek Carr sente a pressão e sai correndo, perdendo a chance de conquistar alguns pontos nesta jogada.

O papel da comissão técnica

Derek Carr foi selecionado na segunda rodada enquanto Andrew Luck foi a primeira escolha geral. Mesmo assim, Carr está, no momento, jogando mais que Luck. Qual o motivo? Ajustes técnicos. Bill Musgrave nunca foi uma contratação sexy por parte de Oakland. Veteraníssimo, ele tem todos os backgrounds possíveis. Foi desde Joe Gibbs até Chip Kelly. Ele tem uma visão antiga e contemporânea e sempre foi um técnico de quarterbacks – ideal para o ataque que Jack Del Rio queria contar.

Musgrave sabe desses dois defeitos, mas também sabe da capacidade de Carr em soltar a bola rapidamente e ser absurdamente preciso em lançamentos críticos, como nesta jogada:

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Esta na cara que os Broncos vão vir com um blitz para cima, logo a jogada é simples: confiar que Amari Cooper vai ficar totalmente livre em um slanta rota perfeita para wide receivers rápidos nesta situação. Carr coloca uma bola tão perfeita que dá a oportunidade para Cooper cortar para o outro lado, fazer o cornerback perder o tackle e explodir para mais uma big play. Esta é a essência de uma comissão que sabe se adaptar: ele não espera que o seu quarterback tome porrada atrás de porrada. Ele simplesmente espera que ele faça o seu papel em que ele é bom – quase como o ataque dos Patriots de hoje em dia.

Só que não adianta apenas armar um esquema: é preciso talentos. E Musgrave definiu muito bem como queria o seu ataque com o que ele tinha. Aquele ditado de se te derem limões faça uma limonada aplica-se perfeitamente aqui. Contando com um running back extremamente elusivo em Latavius Murray e uma linha que já contava com Donald Penn, Gabe Jackson e Austin Howard, ele montou um esquema inspirado em conceitos antigos e com jogadas bem contemporâneas – seu estilo.

Uma linha ofensiva física

Muita gente só sabe falar da linha ofensiva do Dallas Cowboys e esquece de aproveitar outros esquemas muito bons presentes hoje em dia. Musgrave sabia que para montar um ataque é lógico confiar na linha ofensiva. Não adiantava querer mudar muita coisa, não tem material humano para transformar um esquema que parecia dar certo. A escolha de Musgrave foi perfeita: formar uma linha absurdamente física, que vai atacar a defesa adversária e cansá-la durante a partida.

Tirando Rodney Hudson, todos possuem mais de 136 kg. Os tackles são enormes (acima de 1,95 m) e Hudson é um center forte, inteligente e que aguenta sair para o espaço – por isso a opção por um center mais leve. A intenção aqui não é uma linha atlética que vai permitir corridas pela lateral. Não. A intenção aqui é uma linha ofensiva que pune os adversários, abre espaços pelo meio (Oakland é a equipe que menos correu no ano pelas laterais) e traz de volta o smash mouth football. Por causa disso a contratação de Kelechi Osemele foi a peça que faltava para este ataque tornar-se tão dominante. Além disso, a equipe adora jogar com seis linhas ofensivas direto, como nesta jogada:

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Note como este ataque é perfeito até mesmo para Murray. Ele não precisa ser o tipo Marshawn Lynch e sim um cara que visualiza os espaços abertos e os ataca. Nesta inside zone run, Penn neutraliza completamente o defensive end (em laranja) e abre um espaço enorme para Murray cortar para o outro lado se quiser. Com tantos linhas ofensivas fortes e massivos fazer bloqueios duplos não é o que esta linha procura, logo Hudson sai rapidamente atrás do WILL (que é o que possui mais agilidade) e Howard ganha na força do MIKE – os dois em azul. Tudo neutralizado e um espaço enorme para Murray explorar.

Vendo a jogada acima, algumas pessoas podem achar que este jogo terrestre se baseia em corridas abertas pelo jogo aéreo, ou seja, corridas em que o box esteja vazio porque o jogo aéreo está funcionando. Não é nada disso. Aqui é o jogo terrestre que dá o tom da partida e não importa quantos ou quem esteja no box: Murray vai estourar pelo meio e vai conseguir jardas, como nesta jogada:

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Os Broncos (uma das melhores defesas da liga) possuem absurdos 10 JOGADORES no box – o caps lock foi necessário aqui. Mesmo assim Oakland vai correr pelo meio, para cansar ainda mais a linha defensiva adversária e se impor na partida. Clive Walford (o tight end) mexe-se para reforçar o bloqueio pelo miolo da linha. A jogada aqui é uma lead run, ou seja, Murray vai seguir o fullback e conquistar quantas jardas forem dadas pela defesa. A opção, óbvio, é ir para o lado que possui menos jogadores, facilitando o trabalho da linha – eles vão ter que se preocupar em conter o adversário e não abrir os espaços. Hudson pára o nose tackle (Sylvester Williams) e é Kelechi Osemele quem abre todo o espaço da corrida.

A jogada aqui só dá certo por causa da agilidade de Hudson. Ele solta Williams na hora que chega ajuda e já sela completamente o linebacker, permitindo que Murray saia ileso e estoure no backfield sem grandes problemas. É a jogada que representa o momento desta linha ofensiva.

E o pass protection?

Como já dissemos, Carr é uma máquina em decisões antes do snap e possui um release absurdamente rápido (este não falamos anteriormente). Por causa disso o ataque é baseado em verticalidade, desde o jogo aéreo até o terrestre. Esqueça o conceito Spread, de esticar o campo de lado a lado e no fundo. O flat não é tão atraente assim como as jogadas de corrida pela lateral. O estilo ofensivo contemporâneo mora no conceito de passes longos, sem muita West Coast, e esta jogada exemplifica muito bem todo este conceito:

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Os Broncos estão cansados de tanto apanhar, logo eles vão ficar em marcação por zona e mandar apenas quatro atrás de Carr. A cover 3 aqui possui um sério buraco na intermediária, que ele sabe de antemão no snap. Aqui os linebackers vão jogar mais próximos da linha com medo da rota In do tight end, abrindo todo o espaço para Seth Roberts explorar entre os safeties e os linebackers. Note que o passe sai antes mesmo de ele estar livre, porque é uma decisão fácil que vai dar mais uma primeira descida.

Este ataque vertical só é possível por causa da capacidade desta linha ofensiva no pass protection. Eles são os melhores da liga protegendo contra o passe nas estatísticas (somente 13 sacks cedidos no ano) porque eles formam uma parede praticamente – que aguenta até mesmo os blitzes adversários:

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Note que Buffalo manda seis jogadores atrás de Carr, que precisa se movimentar o mínimo no pocket para não ter perigo de ser sackado. A jogada aqui é baseada em dois double moves pelo meio para explorar o fato do blitz. O safety vai ficar congelado por causa das duas rotas no meio do campo e aqueles em marcação individual vão ser queimados com medo do passe completo. Isso mesmo: com medo de ceder jardas em tackles perdidos por causa da cobertura escassa, a defesa tenta fechar no recebedor quando ele finge terminar a rota. O double move pega todo mundo de surpresa e permite outra big play de Oakland.

É por isso que os Raiders sempre parecem que vão reagir (e foi assim na temporada inteira): a linha ofensiva cansa os adversários, os wide receivers testam a secundária a todo momento e Carr é preciso o tempo todo. O resultado são as viradas no último quarto porque defensivamente o adversário está exausto e não aguenta mais este jogo físico proposto.

E o que deu errado contra os Chiefs?

Com uma linha ofensiva formada por mamutes (jamanta não seria o melhor termo aqui), pass rushers com muita agilidade e envergadura nas laterais vão dar muito trabalho para Penn e Howard – ou quem estiver jogando como right tackle. Este é o matchup em que os Chiefs ganham com Tamba Hali, Justin Houston e Dee Ford: jogadores rápidos que vão passar pelos mamutes da linha ofensiva.

Como já vimos, isto incomoda muito Carr e o mesmo não consegue jogar em tão alto nível nestas situações. Só que o fato isolado da pressão não explica as 117 jardas em 41 tentativas. Uma coisa pequena fez toda a diferença para este ataque marcar apenas 13 pontos: o dedo quebrado (luxado ou qualquer outro termo que não sei) de Carr. Olhe esta jogada:

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A proteção não é ideal, mas mesmo assim Carr se movimenta um pouco e ganha espaço para trabalhar muito bem. Só que como Jon Gruden explicou muito bem no último Monday Night Football, o mindinho vai ser o primeiro dedo a encostar na costura da bola. Ele não está envolvido na estabilidade da bola no ar e nem na força do braço. O que ele vai interferir é na precisão do passe e foi exatamente o que aconteceu aqui. Seth Roberts (que recebeu um holding) tem toda a vantagem para uma rota em direção a lateral, só que o quarterback erra o lançamento umas quatro ou cinco jardas. Aliás, Carr completou apenas 41% dos passes tentados na quinta-feira, sinal de que alguma coisa estava errada.

Este ataque de Oakland foi montado em cima das qualidades e defeitos de Carr com uma boa dose de Free Agency (Michael Crabtree, Kelechi Osemele, Donald Penn, Rodney Hudson e Austin Howard), mostrando que existem várias fórmulas que podem levar ao sucesso. Mesmo assim, apenas reunir jogadores não explica tudo. Bill Musgrave, experiente e que poderia ser um cabeça fechada, mostrou que todo o conhecimento adquirido foi útil para ele evoluir e montar um ataque baseado na antiguidade (smash mouth football) e na contemporaneidade (passes longos, bloqueios por zona, pistol shotgun a vontade).

Enquanto muita gente encanta-se apenas com New England e Dallas, é preciso prestar atenção em outros grandes ataques que estão na NFL no momento. O Oakland Raiders está dando uma aula de como se reconstruir e chegar ao topo fazendo o simples: apostando nas qualidades de suas estrelas.

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