College Football

Entenda de uma vez por todas o que são os Bowls do College Football

Todos que acompanham o college football sabem da importância esportiva e financeira da Bowl Season: times de várias universidades são convidados para inúmeros jogos de pós-temporada por todo o país, jogos estes patrocinados por grandes empresas e que geram muito dinheiro – seja por ingressos ou acordos de transmissão televisiva – para as universidades e para os patrocinadores.

Mas como isso começou é uma incógnita para muitos fãs do esporte. Não só o como, mas o quando e o porquê também são desconhecidos. Vamos fazer uma retrospectiva, começando lá por meados do século XIX, para tentar esclarecer sobre este assunto. O contexto histórico muitas vezes acaba por explicar a essência de uma instituição e aqui não é diferente.

O início de tudo: o Torneio das Rosas

Tudo começou lá por 1870 quando a elite do norte e nordeste dos Estados Unidos adotou uma região do sul da Califórnia como refúgio no inverno, devido ao seu clima ameno. Com o surgimento de uma estação ferroviária, a região acabou virando um resort de inverno, e muitos dos que vieram temporariamente acabaram se estabelecendo lá.

Em 1886 surgiu a cidade Pasadena; dois anos depois o Valley Hunt Club, organização social para a elite da sociedade local. Um dos membros sugeriu a criação de um festival de inverno de modo a mostrar os benefícios do clima da região para visitantes do resto do país e, no dia 1º de Janeiro de 1890, ocorreu a primeira Rose Parade. Nas primeiras edições, o festival cresceu e passou a exibir desafios de vários esportes, como partidas de polo e corridas de bicicleta e de cavalos, no chamado Tournament of Roses.

O primeiro jogo de futebol americano ocorreu em 1902. O esporte estava começando a se tornar popular no oeste do país e a organização pretendia torná-lo a atração principal do torneio. Como a ideia era organizar anualmente um jogo entre dois dos melhores times do Leste e do Oeste, foram convidados Michigan e Stanford. À época, Michigan era uma potência, tendo vencido seus oponentes na temporada regular com um recorde de pontos de 501-0 (isso mesmo, eles não tomaram NENHUM ponto o ano inteiro) e não foi diferente jogando contra Stanford: uma vitória esmagadora por 49-0 (que poderia ter sido maior ainda se o head coach de Stanford não tivesse apelado para uma mercy rule e aceitado a derrota faltando oito minutos para o fim do jogo) em frente a 8.000 espectadores.

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Este jogo foi tão unilateral que a organização resolveu não continuar com o desafio. Nos 14 anos seguintes, a atração esportiva principal foi corrida de charretes (e até mesmo outros esportes exóticos foram exibidos, como corrida de avestruzes, camelos e elefantes).

Neste intervalo, no entanto, o college football passou por mudanças drásticas e fundamentais, dentre elas algumas reformas que acabaram deixando o jogo menos violento e outras estruturais que abriram o jogo, como a legalização do passe para frente. Nos anos seguintes, várias universidades começaram a experimentar este novo recurso e o comitê diminuiu as restrições do mesmo: em 1912, passes de qualquer distância foram permitidos se lançados detrás da linha de scrimmage; uma end zone também foi criada, permitindo que tal jogada pudesse surtir em pontos.

Estas alterações tornaram o jogo mais interessante e emocionante de se assistir e a popularidade do esporte começou a crescer exponencialmente durante esses anos. O Torneio das Rosas, se aproveitando desse boom, resolveu reintegrar o clássico East-West no seu festival anual. No ano novo de 1916, o time da Universidade Brown (que, como as demais universidades da Ivy League, tinha um ótimo programa de futebol americano na época) atravessou o país para enfrentar Washington State em Pasadena. Num dia chuvoso e diante de 7.000 espectadores, o time do oeste derrotou o do leste por 14-0. No ano seguinte, com um clima muito mais agradável, 26.000 pessoas assistiram Oregon derrotar Pennsylvania (não confundir com Penn State, trata-se da Penn da Ivy League) pelo mesmo placar.

E assim o jogo começou a se tornar famoso e o Torneio das Rosas começou a ter um público cada vez maior. Em 1920, ano em que Harvard e Oregon se enfrentariam, a organização teve que quebrar a cabeça arrumando assentos adicionais para um jogo que teve mais 30.000 espectadores (Harvard venceu por 7-6).

A ferradura que virou tigela

Nessa época veio a ideia da construção de um estádio especificamente para a realização do jogo, financiado pelos futuros espectadores (cada um que contribuísse com cem dólares teria direito a um assento de luxo no primeiro jogo lá realizado).

O responsável pelo projeto, Myron Hunt, se inspirou no Yale Bowl (construído em 1914), embora fosse ter formato de ferradura (isto é, com assentos em apenas três lados do campo; veja a imagem abaixo).

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A construção do estádio terminou em 28 de outubro de 1922 e o primeiro jogo que ele sediou foi um clássico da costa oeste: Cal vs. USC (Cal, a Universidade da Califórnia no campus de Berkeley, venceu por 12-0 e reivindicou o título nacional daquela temporada).

Os jornais se referiam ao estádio recém-criado, que ainda não tinha um nome, como “Tournament of Roses Stadium” ou “Tournament of Roses Bowl” por meses antes do mesmo ser inaugurado. Harlan Hall, relações públicas do projeto, o chamou de “The Rose Bowl” e o apelido pegou, apesar do formato de ferradura (lição de inglês: “bowl” é tigela; o Yale Bowl tinha justamente o formato de uma grande tigela, por isso o nome que, na época, não era popular). A capacidade era para 57.000 espectadores.

O jogo anual, dessa maneira, passou a ser chamado “The Rose Bowl Game”. A primeira edição no novo local e sob o novo nome foi entre USC e Penn State, com vitória dos Trojans por 14-3. E é justamente por isso que se diz que o Rose Bowl, que continua acontecendo no primeiro dia de cada ano (no formato atual, entre os vencedores das conferências Pac-12 e Big Ten), é o college bowl mais antigo de todos. Um dos seus apelidos é, justamente, “Grandaddy of Them All” (O Avô de Todos).

Com uma estrutura maior e melhor, o Rose Bowl (jogo) passou a se tornar cada vez mais famoso e ter cada vez mais público e o timing do Torneio das Rosas foi perfeito. O estádio foi pioneiro numa época de ascensão do esporte. Em 1927, por exemplo, mais de 30 milhões de espectadores assistiram jogos de college football, gastando mais de 50 milhões com isso.

O estádio manteve seu formato de ferradura por mais cinco anos: os jogos estavam começando a esgotar e uma expansão se fez necessária. Houve então o fechamento da extremidade sul da estrutura, transformando o Rose Bowl num bowl (tigela!) de fato, formato que permanece até hoje. Em 1928, quando a reforma terminou, a capacidade era de 76.000 lugares.

O estádio foi muito importante e viria, no futuro, a sediar cinco Super Bowls e até mesmo a final da Copa do Mundo da FIFA de 1994 (na qual todos nós brasileiros sabemos o que aconteceu), mas mais importante ainda foi a tendência que ele criou…

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O surgimento de um fenômeno

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Nos anos 30, percebendo a popularidade (e, principalmente, a rentabilidade) do Rose Bowl, outros locais de clima quente começaram a investir na construção de estádios e realização de desafios de ano novo entre times convidados. Estes desafios, por uma questão turística, foram chamados de bowl games (isto é, o nome era para forçar uma relação com o jogo de Pasadena e atrair público). O nome pegou e foi, inclusive, inspiração para o nome do bowl mais famoso da atualidade, apesar de não ser do college football: o Super Bowl.

Em 1933, Manhattan College e a Universidade de Miami se enfrentaram no Festival of Palms Bowl, que foi posteriormente rebatizado de Orange Bowl.  Em 1935, surgiu o Sugar Bowl, em Nova Orleans, no Tulane Stadium com o time da casa recebendo Temple. Além de divulgar a região, esses novos jogos aproveitaram para divulgar uma commodity importante do local. No caso da Flórida, as laranjas (orange). No caso da Louisiana, o açúcar. Em 1936 e 1937, o Texas entrou na onda com o Sun Bowl (em El Paso) e o Cotton Bowl (em Dallas), respectivamente. Em 1937 houve até mesmo um bowl fora do território americano: Auburn e Villanova se encontraram no Bacardi Bowl, em Havana, Cuba. Depois da revolução e décadas depois, o bowl game que repete essa tendência é o Bahamas Bowl, único realizado fora dos EUA (seja continente ou Havaí).

Tendo seis bowl games ocorrendo no dia 1º de Janeiro de 1937, uma das headlines da Associated Press (AP) foi: “Bowl’ Grid Games Are Here To Stay”. E isso ocorria apesar da oposição da NCAA, que havia declarado que os bowls da pós-temporada não tinham lugar no college football por não servir em nada para fins educacionais, sendo apenas uma forma de exploração financeira envolvendo os times e universidades – declaração no mínimo irônica, se olharmos para a maneira que a organização trabalha hoje em dia, reforçando o caráter amador dos atletas e lutando para que eles não sejam remunerados financeiramente.

Só que os bowls, bem, realmente estavam lá para ficar. Após a Segunda Guerra Mundial, especialmente, vários bowls menores começaram a pipocar por todo o país, e não apenas em estádios abertos e locais de clima quente, e muitos desses com nomes esquisitos. Alguns exemplos são o Great Lakes Bowl (Cleveland, OH), Raisin Bowl (Fresno, CA), Salad Bowl (Phoenix, AZ), Cigar Bowl (Tampa, FL) e o Camellia Bowl (Lafayette, LA).

Dessa maneira, os bowls tomaram uma importância grande na temporada, tanto que a AP, a partir de 1965, passou a lançar seu ranking final do college football após os bowls serem jogados e não antes. Os jogos de ano novo se tornaram os locais para coroação dos campeões nacionais.

Com o crescimento do número de jogos e o advento da cobertura televisiva, as organizações dos bowls passaram a oferecer cada vez mais dinheiro para os times participarem de seus jogos (ao invés de outros – nessa época, alguns times recebiam múltiplas propostas) e, com isso, precisaram do patrocínio corporativo de grandes empresas, os famosos naming rights. Nos anos 80, por exemplo, alguns dos principais bowls passaram a se chamar, para fins de divulgação, Sunkist Fiesta Bowl, USF&G Sugar Bowl e FedEx Orange Bowl. Alguns jogos chegaram a adotar o nome inteiro da companhia, como o Blockbuster Bowl e o Outback Bowl.

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Um pouco de organização é sempre bem-vinda

Um fato interessante é que volta e meia a questão dos playoffs vinha à tona, visto que seria uma maneira fácil e prática de decidir o campeão nacional (o que havia gerado muita discussão no passado, tendo havido anos em que várias universidades reivindicaram o título). Além disso, no esporte universitário “vizinho”, o campeonato nacional universitário de basquete era cada vez mais assistido – March Madness – e o fato dele ser um gigante playoff mata-mata era algo que impulsionava o interesse.  Mas os bowls resistiram, tanto pela tradição quanto pelo aspecto financeiro.

No entanto, no final dos anos 90, o “quarteto fantástico” dos bowls (Rose, Fiesta, Orange e Sugar) se “uniram” para formar o Bowl Championship Series (BCS) de modo a colocar frente a frente dois dos melhores times do país em um jogo valendo o título de Campeão Nacional. Isto é: o primeiro e o segundo do ranking, necessariamente, estaria jogando um contra o outro num dos quatro bowls mais importantes. Funcionava como uma final “de fato”.

A disputa pelo título era feita de maneira alternada entre os quatro bowls até que, em 2007, um jogo a parte foi estabelecido (o BCS National Championship Game), no qual os ranqueados em #1 e #2 se enfrentariam a parte dos demais bowls, que voltariam a manter seus aspectos tradicionais, caso houvesse (o Rose Bowl, por exemplo, restaurou o formato “original” de um bom time do leste contra outro do oeste – os campeões de duas conferências distintas, Pac 12/10 e Big Ten).

Um dos pontos negativos do estabelecimento do BCS é que os principais bowls acabaram por se “diluir” nos primeiros dias de janeiro ao invés de ocorrerem todos como celebração do ano novo. Um deles, no entanto, permanece: o Rose Bowl (afinal de contas, os idosos têm prioridade…)

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Uma nova era

Os críticos ao sistema dos bowls continuaram clamando por playoffs no college football e, de tanto clamar, acabaram sendo ouvidos (com uma ajudinha do Obama, claro!).

Desde 2014, para se sagrar campeão nacional, um time agora tem que ter mais de uma vitória na pós-temporada: o novo sistema em vigência, o College Football Playoff (CFP), coloca quatro times para disputar o título no mês de janeiro. O time, todos ranqueados por um comitê de notáveis, #4 enfrenta o #1 e o #2 enfrenta o #3. Os campeões dos dois jogos se enfrentam no grande jogo de modo a determinar o campeão. Para exemplificar, neste ano #4 Washington enfrenta #1 Alabama e #2 Clemson enfrenta #3 Ohio State.

Outra mudança importante em relação ao sistema vigente é que a escolha dos participantes dos bowls e playoffs não mais será determinada por meio de computadores, mas sim, como dissemos, por um comitê especializado contendo de 15 a 20 membros.

O maior receio em relação à adoção de um sistema de playoff era a eventual perda de importância dos bowl games, mas nos dois primeiros anos do novo sistema – 2014 e 2015 – vimos que não houve nenhum impacto negativo. Pelo contrário: com o CFP chancelando também o Peach e o Cotton Bowl além do “quarteto fantástico” ali de cima – grupo que agora recebe o nome de “New Year’s Six” ou, simplesmente, Bowls de Ano Novo -, temos a garantia de jogos de alto nível mesmo entre equipes que não estarão disputando o título.

Mesmo com a “modernização” do esporte e da maneira pela qual os campeões são decidodos, a tradição iniciada lá em 1902 permanece viva – e não irá a lugar nenhum tão cedo. Caso o contexto histórico não tenha deixado tudo isso suficientemente claro para você, preparamos um outro texto no The Fraternity. Trata-se de uma alegoria na qual o College Football vira o futebol brasileiro. Por ser algo mais próximo de nós, com certeza ficará de mais fácil entendimento. Clique aqui par ler. 

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Entenda de uma vez por todas o que são os Bowls do College Football
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