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Como funcionam os Playoffs do College Football e a escolha de quem joga em cada Bowl?

Este é um texto que me pedem faz muito tempo. É algo sobre o que me perguntam quase em todas as transmissões do College Football que acabo fazendo na ESPN. O que são os Bowls? Como funciona o título nacional do College?

Bom, a princípio, vale lembrar uma palavra-chave: é algo pulverizado. Não poderia deixar de ser mais ou menos assim, uma vez que a “primeira divisão” do College Football tem 128 times. E num calendário de tiro curto, é impossível jogar todos contra todos. Ou algo perto disso. Cada time tem 12 partidas por ano, em média – ou seja, enfrenta 10% dos times que participam da primeira divisão.

Imagine que haja um campeonato mata-mata com 12 times, tal qual o ocorre na NFL. 12 de 32 é ok, os outros 20 não tem muito o que reclamar por não fazer nada em janeiro. Mas no College isso é complicado, dado que 116 times ficariam ociosos depois da temporada acabar, ao início de dezembro. Por conta disso e de uma tradição centenária, a pós-temporada do College Football é pulverizada ao final de dezembro e início de janeiro.

Tradição? Sim. Lição de casa para você que nunca leu nada sobre o College e não está familiarizado com o conceito de bowl game é ler este texto que o André Bassi fez aqui como correspondente especial para o ProFootball. Ele explica o que é um bowl game, seu contexto histórico e por que há tantos jogos assim. Também vale a pena ler uma analogia que o Bassi fez com o futebol brasileiro. Se não existisse o campeonato brasileiro com 20 times, como seria decidido o campeão? Depois de ler esses textos você volta aqui para seguirmos.

Caso você se interesse, no meu livro – o Manual do Futebol Americano – há um capítulo sobre College Football e muitos desses conceitos já estão lá (e provavelmente este texto entrará na 2ª edição do Manual).

O COMITÊ

Como você viu no texto do Bassi, decidir o campeão nacional do College Football sempre foi algo complexo, dado que eram muitos times e muitas conferências. Por muito tempo, os jornalistas – por meio de rankings, como o da Associated Press, da UPI e outras agências de notícias – eram os responsáveis por elencar os melhores times e quem terminava a temporada em #1 era declarado o campeão. Lógico que isso dava besteira, porque tinha agência de notícia que dava o título para um e outra dava para outro. Na década de 1990, arrumaram um jeito de haver um tira-teima: uma aliança entre os principais bowls de maneira que o #1 e o #2 do ranking se enfrentassem numa final nacional “de fato”. Se o #2 vencesse o #1, virava #1 e era declarado campeão. Se o #1 vencesse, permaneceria como #1 e seria campeão.

Pois bem, isso obviamente chateou muitos times. Em 2004, com Alex Smith sendo seu quarterback, Utah terminou a temporada de maneira invicta e campeã da Mountain West. De toda forma, seu calendário mais fraco (contra times mais pedestres da MW em oposição aos calendários mais fortes de USC e Oklahoma) fez com que os Utes não fossem nem #1 e nem #2. Mesmo terminando o ano com campanha invicta, Smith e companhia não tiveram uma chance de vencer o campeonato. Não parece certo, né?

Bom, não era certo e embora o sistema de bowls fosse, como dito, centenário, uma hora isso teria que mudar. Não, não haveria um mega playoff com 68 times tal qual acontece no basquete universitário. Até porque isso eliminaria o sistema de bowls e a importância dele. De toda forma, em 2013, foi anunciado o formato do College Football Playoff. De nome, playoff, mas na prática é um final four. Duas semifinais e depois uma final com o vencedor delas.

O meio de escolher quais seriam esses times de #1 a #4 era semelhante ao que acontecia até então. Com a diferença que não haveria mais na conta um ranking de computador; Apenas seres humanos – chupa Matrix – seriam parte do colégio eleitoral. A esse colégio foi dado o nome de Comitê do College Football Playoff. Dele fazem parte notáveis, como ex-técnicos, ex-diretores acadêmicos de programas que constam em conferências fortes e etc. Não vale a pena nos estendermos demais sobre quem está no comitê, apenas vale lembrar que são pessoas com currículo.

COMO O COMITÊ VOTA

Tal qual o ranking dos jornalistas (AP Poll), o Comitê elenca os 25 times mais fortes da primeira divisão (FBS) do College Football. Isso começa a acontecer a partir da segunda metade da temporada. A principal determinante para ranquear os times é a força do calendário e a força de vitória. Isto é: de quem ganhou.

Outras determinantes que entram na conta são confrontos diretos, campanha final dos times (vitórias/derrotas), se o time foi campeão de conferência ou não e assim vai. Os votos dos membros do comitê, vale lembrar, são secretos. Membros do comitê que são empregados ou financeiramente remunerados por dada escola não podem votar naquela escola.

A temporada de 2016 demonstra com cristalina clareza sobre como a força do calendário e força de vitória são mais importantes do que confronto direto e mesmo a participação em final de conferência. Ohio State teve apenas uma derrota na temporada, contra Penn State. Estes, porém, tiveram duas derrotas – uma para Michigan, que perdeu de Ohio State, e outra para Pittsburgh (que não faz parte da Big Ten, então essa partida não conta na classificação da conferência, embora conte para o Comitê).

Contudo, na classificação da Big Ten East, tanto Ohio State quanto Penn State terminaram com campanha de 8-1. O primeiro critério de desempate é o confronto direto e Penn State venceu Ohio State. Assim, os Nittany Lions foram para a final da conferência e Ohio State, mesmo com campanha total (jogos vs conferência + jogos interconferência) melhor… Ficou de fora da final de sua conferência.

Penn State, com uma derrota a mais do que Ohio State, veio a vencer a Big Ten contra Wisconsin. Será que o Comitê consideraria esse título e mais a vitória contra Ohio State? Sim, considerou… De maneira menos importante do que a campanha geral de Ohio State. Assim, mesmo não tendo sequer disputado a final de conferência, os Buckeyes corretamente foram considerados pelo comitê como um time melhor e ficaram em #3 no ranking final. Eles não foram campeões de conferência, sequer disputaram a final da Big Ten, mas estarão nos Playoffs. Porque tem uma derrota a menos no geral e calendário mais forte do que Penn State.

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Resumo da ópera para você que não quis ler tudo: o comitê elenca os 25 melhores times de acordo com a força de calendário, sua campanha geral e subjetivamente quão bom um time é. Eventualmente são usados “critérios de desempate” como confronto direto ou, caso dois times tenham uma derrota, por exemplo, para quem foi essa derrota. Um exemplo de critério de desempate neste ano: Clemson teve a mesma campanha de Ohio State, com apenas uma derrota. Contudo, Clemson foi campeã de conferência, Ohio State não jogou a final da Big Ten. Então Clemson terminou o ano em #2 e Ohio State em #3.

Após o último ranking sair – ele sai após as finais de conferência do College, na primeira quinzena de dezembro – temos decididas quais serão as semifinais. O #1 joga contra o #4 e o #3 contra o #2. Neste ano, fica assim:

  • #1 Alabama vs #4 Washington
  • #2 Clemson vs #3 Ohio State

TÁ, MAS ONDE ELES JOGAM?

O College Football Playoff foi montado de forma a tentar valorizar o sistema de bowls na mesma maneira que cria um mini-playoff. Obviamente isso é tarefa difícil, mas, embora alguns venham criticando o formato (como Nick Saban, técnico de Alabama) e alguns jogadores simplesmente tenham tocado o dane-se para os bowls com objetivo de se preparar para a NFL – Leonard Fournette e Christian McCaffrey, notoriamente, que não jogarão os bowl games de LSU e Stanford para treinar rumo ao Draft 2017 – acredito que venha funcionando bem.

O sistema continua igual: ainda há bowls. De toda forma, seis deles se revezam, ano a ano, como semifinais. Os pares das semis sempre são Rose-Sugar, Orange-Cotton e Fiesta-Peach. Neste ano, por exemplo, o Fiesta Bowl serve como uma das semifinais e o Peach Bowl como outra. Ano que vem, teremos o par Rose-Sugar. Depois das semifinais, uma final é disputada em campo neutro. A desta temporada será jogada no estádio do Tampa Bay Buccaneers, o Raymond James Stadium. Em 2014 e 2015, dois primeiros anos do sistema, as finais foram jogadas no AT&T Stadium e o no University of Phoenix Stadium.

Pois bem, agora como funcionam esses bowls de ano novo quando eles não são semifinais? Vamos lá então, parece difícil, mas não é.

  • Rose Bowl: time melhor ranqueado da Conferência Big Ten vs time melhor ranqueado da conferência Pac-12
  • Sugar Bowl: SEC #1 vs Big 12 #1
  • Orange Bowl: ACC #1 vs SEC #2, Big Ten #2 OU Notre Dame
  • Cotton Bowl: Melhor restante (“at-large”) e/ou time do Group of 5 (5 conferências mais fracas)
  • Fiesta Bowl: Melhor restante (“at-large”) e/ou time do Group of 5 (5 conferências mais fracas)
  • Peach Bowl: Melhor restante (“at-large”) e/ou time do Group of 5 (5 conferências mais fracas)

Agora as observações para o sistema:

  • Como você viu, o Rose Bowl elenca o melhor da Big Ten contra o melhor da Pac 12, desde que ele não seja semifinal. Contudo, e se o melhor dessas conferências estiver numa semifinal? É o caso de 2016, com #3 Ohio State (Big Ten) e #4 Washington. Aí, o que acontece? Pega os melhores ranqueados restantes dessas conferências. #5 Penn State (B10) e #9 USC (Pac-12).
  • E no Sugar Bowl? Alabama é a melhor ranqueada da SEC, mas joga semifinal. Como faz? Bom, você coloca no Sugar o segundo melhor time da SEC nos rankings do College Football Playoff. No caso, #14 Auburn (é, não foi um bom ano pra SEC). E o melhor da Big 12 é #7 Oklahoma.
  • Certo, e o Orange Bowl? Clemson foi a #1 da ACC! E Penn State é a #2 da Big Ten, mas já foi para o Rose Bowl como substituta de Ohio State. Como faz? Aí você pega o que vem a seguir em cada uma. O #2 da ACC é #11 Florida State, o seguinte da Big Ten é #6 Michigan.
  • Hm… E o que é Group of 5? Bom, vamos lá. Existem duas “prateleiras” de conferências. A primeira é chamada de Power 5, são as conferências mais tradicionais. SEC, Pac-12, Big 12, Big Ten e ACC. As Group of 5 são conferências mais fracas. Sun Belt, Mountain West, American, C-USA e MAC. O melhor time dessas conferências nos rankings tem vaga garantida num dos 6 bowls de ano novo caso já não haja um G5 nos Playoffs. No caso de 2016, #15 Western Michigan, com campanha de 13-0, é o melhor das G5. Mesmo com campanha invicta, ele não está mais acima porque joga contra o vento na MAC. Como você viu, força do calendário importa. De toda forma, Western Michigan joga o Cotton Bowl.

Há outras exceções que não colocarei aqui porque se não o texto ficaria ainda mais indigesto para iniciantes. Por exemplo, caso o Sugar seja uma semifinal e o melhor time da SEC não tenha ido para uma semifinal, ele tem que ir para algum lugar. Então colocam eme no Cotton, Fiesta ou Peach. Ao mesmo tempo, Notre Dame (que não está vinculada a nenhuma conferência) pode aparecer no máximo duas vezes a cada 8 anos no Orange Bowl. E assim vai.




BELEZA, E OS OUTROS 42424 BOWLS QUE NÃO SÃO “NEW YEAR´S SIX?”

Bom, essa é mais uma pergunta que aparece bastante. Como são definidos quais times jogam em cada bowl? A princípio, é necessário elencar os times elegíveis para jogar a bowl season. Um time só joga um Bowl caso tenha campanha de 50% ou melhor. Isto é: pelo menos 6 vitórias (é o que chamam de bowl elegible). Às vezes acontece de não haver times o suficiente para jogar a bowl season, então entram alguns times com 5 vitórias – como Minnesota em 2015 – mas no geral é assim que acontece.

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Os demais bowls tem ligações com as conferências tanto quanto o Rose Bowl. De toda forma, eles escolhem depois desses Bowls mais importantes. Vamos usar a Conferência Big Ten para explicar essas ligações (tie-ins);

  • A primeira escolha da Big Ten, caso já não tenha ido para o College Football Playoff, joga o Rose Bowl
  • A segunda escolha da Big Ten joga o Orange Bowl – caso o Orange não queira, esse #2 da Big Ten joga o Citrus Bowl
  • A terceira escolha da Big Ten joga o Outback Bowl contra um time da SEC
  • A quarta escolha da Big Ten joga contra um time da Pac-12 no National Funding Holiday Bowl
  • A quinta escolha da Big Ten joga o TaxSlayer Bowl OU o Music City Bowl contra a SEC.

E assim vai, até a nona escolha (caso haja times elegíveis da Big Ten). Os Bowls tem ordem de escolha dentre os times elegíveis da Conferência e vão escolhendo quem sobra. Vamos ver em 2016 como ficam os exemplos acima, para ilustrar melhor.

  • A primeira escolha da Big Ten joga o College Football Playoff (Ohio State)
  • A segunda escolha a substitui e aqui vai contar como primeira: Penn State joga o Rose Bowl
  • A segunda escolha “de fato” é Michigan, que joga o Orange Bowl
  • A terceira escolha aqui é Iowa, porque Wisconsin (que seria a terceira escolha) foi escolhida como “at large” para o Cotton Bowl, o qual tem prioridade. Então é Iowa joga o Outback Bowl
  • A quarta escolha para o National Funding Holiday Bowl é Minnesota
  • A quinta escolha é Nebraska, para o Music City Bowl. A Big Ten joga o Music City e não o TaxSlayer porque em 2015 já jogou este.

Caso tenha ficado confuso, vamos resumir: a prioridade de escolha é dos 6 bowls de ano novo. Depois vem o resto, que tem uma ordem de escolha – tal qual o Draft – dos times restantes das conferências ligadas a eles. Para dar mais um exemplo aleatório, já que eu bebi muito café e isso tá divertido:

  • O Valero Alamo Bowl tem a segunda escolha da Pac-12, logo depois do Rose Bowl.
  • O Valero Alamo Bowl tem a segunda escolha da Big 12, logo depois do Sugar Bowl.
  • O melhor time restante da Pac-12, depois de USC (Rose) e Washington (Playoff) é #10 Colorado.
  • O melhor time restante da Big 12, depois de Oklahoma (Sugar) é #12 Oklahoma State.
  • Então o Valero Alamo Bowl será #12 Oklahoma State vs #10 Colorado.

Há casos que a força do time não é a determinante para ele ser escolhido para um determinado bowl. A SEC, por exemplo, não tem ordem de escolha depois do Sugar, Citrus e eventualmente Orange. Há 6 bowls restantes (Texas, Liberty, Belk, Music City, Outback e TaxSlayer). Neste caso, podemos fazer suposições; Os Bowls preferencialmente tem que dar dinheiro e audiência. Assim, quanto mais perto de seu campus uma universidade jogar, melhor. Dois exemplos dos acima para a SEC:

  • Florida joga o Outback Bowl porque o jogo é em Tampa, Florida. Ou seja: a chance de haver assentos lotados é maior.
  • Texas A&M não joga o AdvoCare V100 Texas Bowl a toa. O confronto é contra um time da Big 12, conferência da qual Texas A&M fazia parte até tempo atrás. Com efeito, há certa rivalidade. E, bem, o jogo é no Texas, né?
  • O Music City Bowl é jogado em Nashville, no Estado do Tennessee. Te dou um doce se você adivinhar qual time da SEC vai jogar nele. Sim, #21 Tennessee.

Com efeito, a “geografia” muitas vezes aparece no que tange às escolhas, mesmo quando há ordem de escolha para os Bowls. Um Bowl Game pode escolher um time que está mais perto e que pode gerar mais audiência/público em oposição a um time que no papel pode ser melhor. O sistema é bastante complexo, mas espero ter digerido o suficiente para vocês.


“RODAPE"

MUITO LONGO, VAI PRO INFERNO, CURTI, RESUME AI

Calma, como você é bravo. Vamos resumir então. Desde a temporada 2014 há um playoff com quatro times. Esses quatro times são definidos por um comitê de notáveis e a determinante para elencar esses times é, prioritariamente, a força do calendário dessas equipes. Isto é, de quem ganhou. Os jogos de semifinal são em dois dos 6 bowls mais importantes, os de “ano novo”. A final é em campo neutro, cerca de uma semana depois, sempre numa segunda.

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Os outros bowls que não participam de semifinais tem critérios para escolher os times que lá estarão. Esses critérios podem ser atrelados ao ranking do College Football ou não. Quando não há ordem de escolha, como na SEC e na Sun Belt, a escolha é provavelmente feita levando em conta os melhores matchups e eventualmente questões geográficas, para maximizar audiência e público.

Bowl Game é um jogo de pós-temporada que, não parece, mas vale muita coisa. Todos eles são transmitidos em audiência nacional e raramente há dois jogos no mesmo horário. As atenções dos Estados Unidos estão voltadas para esses times naquele determinado horário. Muitas vezes é a chance de um jogador brilhar para o Draft ou pode ser a chance de um treinador ver seu time brilhar em um palco maior – o que ajuda indiretamente no recrutamento de novos jogadores.

É um montão de jogos e legal assistir. Agora que, espero, você entende melhor como funciona, junte-se a gente nessa bowl season. É a melhor época do ano com certeza.

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Como funcionam os Playoffs do College Football e a escolha de quem joga em cada Bowl?
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