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O Kansas City Chiefs é um time mais perigoso do que você pensa

O Kansas City Chiefs é um time mais perigoso do que você pensa

Nada espetacular durante a temporada regular. Um ataque que oscilou demais, com momentos brilhantes e outros esquecíveis. A defesa? Muito talento, mas pouca produtividade nas estatísticas. Algumas lesões atrapalharam, é bem verdade, só que mesmo assim o desempenho foi satisfatório. Um dado que chama a atenção de qualquer um foi a quantidade de turnovers e o desempenho na redzoneSacks? Muito pouco. A postura agressiva faz com que os adversários conquistem muitas jardas, mas parem nas últimas 20 jardas do campo. É o famoso enverga mas não quebra: sejamos sinceros, na NFL de hoje não há como parar os ataques mais talentosos; logo, resta tentar roubar a bola deles.

Esta descrição bateria muito bem com o Kansas City Chiefs de 2016, mas ela foi feita inspirada em outra defesa: a do Baltimore Ravens de 2012. Aquela equipe estava longe de ser espetacular durante toda a temporada regular: um 10-6 meio capenga, Wild Card pela frente e três vitórias impressionantes até o Super Bowl. Meio sem querer, parece que a defesa comandada Bob Sutton acabou achando nos Ravens de 2012 a inspiração para sobreviver após a lesão de Justin Houston – e por isso a inspiração para esta defesa ir a um outro nível nesta pós-temporada.

Como superar a falta de pass rush anêmico? Roubando mais a bola dos adversários

Caso você tenha ficado em uma bolha durante o ano inteiro (ou só agora teve tempo de olhar para o Kansas City Chiefs), saiba que a franquia teve uma série dificuldade em fevereiro com o seu principal pass rusher, Justin Houston, sofrendo um rompimento no ACL e ficando de fora por boa parte da temporada. Como Tamba Hali está vendo a idade chegar (e ele não é o James Harrison para estar voando acima dos 30), a responsabilidade toda do pass rush ficou nas costas de Dee Ford: o cara que iria começar a ser titular no terceiro ano da liga e que foi questionado por todos desde o Draft.

Previsivelmente os Chiefs desaceleraram na pressão ao quarterback, apesar de Dee Ford ter jogado muito bem durante o ano inteiro – foram 10 sacks para ele. Foram 91 hurries (20ª marca da liga) e 28 sacks (5ª pior marca da liga). A tática usada aqui, na realidade, não foi nem ir para o blitz (um dos times que menos mandou blitzes na NFL), e sim apostar na filosofia enverga mas não quebra.

Quando Andy Reid era treinador dos Eagles, seu coordenador defensivo era Jim Johnson, um cara especialista em 4-3 e que adorava esta filosofia – da sua tutela saíram Sean McDermott e Ron Rivera, por exemplo. A tática de Johnson era mandar a quantidade necessária de blitzes que fosse durante todo o campo e não ceder touchdowns longos. Era na redzone que ele apertava o cerco e confiava na sua dupla de cornerbacks, Sheldon Brown e Lito Sheppard, junto com o safety Brian Dawkins.

Foi com esta filosofia de ser agressivo atrás da bola (naquela época explorando os blitzes para forçar os turnovers), junto com um ataque que cuidava da bola (de 2002 a 2007, Donovan McNabb só teve uma temporada com mais de 10 interceptações; foram 11 em 2003) que ele teve o maior sucesso de sua carreira. Com o falecimento de Johnson, Reid nunca conseguiu substituí-lo e, associada com a falta de reposição na secundária, acabou sendo demitido mais cedo ou mais tarde.

Por que esta historinha? Oras, o padrão é o mesmo. Sai de cena o 4-3 e entra o 3-4 – a defesa que Tom Brady, o maior desafio da AFC, tem maiores dificuldades para lidar. Sai a tática de pressionar, entra a ideia de ceder poucas jardas e cansar a defesa, até roubar a bola. Os Chiefs lideram a NFL com um turnover ratio de +16 e são a quinta melhor equipe na redzone de toda a liga – cedeu touchdowns em apenas 49% das viagens dos adversários.

Confiando em uma secundária com a liderança de Marcus Peters e Eric Berry, a defesa obteve a liberdade de ser agressiva em busca do turnover, principalmente quando o passe é em profundidade. Apesar de não ter pressão, os quarterbacks adversários completaram apenas 58,5% dos passes tentados, segunda melhor marca da liga. Isto se reflete diretamente na quantidade de passes de mais de 20 jardas cedidos (as big plays): foram apenas 47, décima melhor marca.

Este trabalho defensivo não seria recompensado se não fosse o ataque pragmático

Esta filosofia de jogo (uma agressividade diferente, em que a secundária é quem se destaca) só é possível por causa do ataque ser pragmático e não cometer turnovers. Em três dos últimos quatro anos (período que Reid é o treinador), a franquia esteve no top 2 da liga em turnover ratio. Neste ano Alex Smith lançou a maior quantidade de interceptações desde que chegou em Kansas City. Foram incríveis… oito.

A versão morsa da West Coast Offense sempre foi baseada nos passes para running backs (Spencer Ware) e tight ends (Travis Kelce), em um wide receiver que adora a posse da bola (Jeremy Maclin) e, por fim, um jogador rápido e dinâmico. Ainda faltava para este ataque o jogador dinâmico. Visivelmente De’Anthony Thomas não iria conseguir ser este jogador, até o surgimento de Tyrek Hill. Uma gigantesca surpresa, Hill já teve 62 recepções no ano e tornou-se a válvula de escape de um ataque que precisava crescer um pouco para este time poder chegar longe – e é o caso em 2016.

Precisa de um pouco mais para vencer Tom Brady

Mesmo com este ataque estando no melhor momento da vida (mesmo sem Jamaal Charles por mais um ano), os Chiefs precisam crescer para chegar longe nos Playoffs. A ideia de secundária agressiva funciona muito bem na temporada regular, só que os Playoffs são outro jogo completamente diferente. E é nisto que a franquia está apostando.

Justin Houston voltou de lesão no meio da temporada e começou arrasador, com três sacks no segundo jogo já, só que teve que voltar ao departamento médico e ficou encostado, visivelmente poupado visando à pós-temporada. Assim como aquele Ravens de 2012, em que o ataque ficou mítico com Joe Flacco crescendo na hora H e a defesa voltando a pressionar os adversários, Kansas City vai precisar que este pass rusher volte a aparecer para poder ser uma ameaça na AFC.

Espere um time ainda mais agressivo contra o Pittsburgh Steelers, que vai ter que mudar o seu plano de jogo para enfrentar a sua kriptonita. Se o pass rusher aparecer, este time tem todas as ferramentas para repetir o feito do próprio Baltimore Ravens.

Escreve sobre futebol americano desde 2012. Apesar de viciado nos aspectos táticos do jogo, sempre dá palpites sobre tudo na NFL. Atualmente faz doutorado em Física na UNICAMP.

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