Uma senha sera enviada para seu e-mail

Nota do editor: este texto contém conceitos bastante avançados para quem está começando agora na NFL. Para ajudar, temos duas opções para você. A primeira é o índice da Blackboard, nossa coluna didática. A segunda é o Manual do Futebol Americano, livro que explica todos os conceitos (gap, tech, 3-4, 4-3 e etc) que você verá abaixo. Com o cupom “podcast” você tem mais desconto nele.



“canecas"

Se tem algo que evitamos neste site são títulos sensacionalistas: queremos sempre passar a mensagem clara para o nosso leitor. Não buscamos cliques, mas sim informar ao nosso público o que está acontecendo ao redor da liga. Por isso esse título escolhido passa longe de sensacionalismo barato: a situação de Cam Newton está realmente preocupante – e queremos mostrar o quão complicada ela está.

Leia mais sobre a Semana 4:
Kansas City Chiefs surpreende e corta o kicker Cairo Santos
Ainda há esperança para os 0-3 Bengals e Giants?

Newton entrou na liga cercado de polêmicas. Na realidade, sua carreira universitária pode ser resumida na palavra polêmica. A ideia que seu pai negociou a sua ida para Auburn (o que poderia complicar o programa universitário) fez com que algumas pessoas levantassem dúvidas sobre o seu estilo. Muita gente (não estou incluso, ainda bem) achava Newton um prospecto cru, com muitas deficiências técnicas e que não merecia ser a primeira escolha geral.

Newton foi para Carolina, começou a jogar bem (2011) e atingiu o seu auge com a chegada ao Super Bowl (2015). Só que o seu corpo claramente era prejudicado, tamanha exposição correndo com a bola. No fim das contas, em quase toda intertemporada ele teve que passar por cirurgias. A última foi nesta intertemporada: reparar um ligamento no ombro. Isto o tirou de campo e ele não teve tempo de trabalhar a sua mecânica com especialistas.

Realmente importa trabalhar na intertemporada?

Faça um teste por conta própria. Digite quarterback guru e Cam Newton no Google e veja quando foi a última vez que ele contratou um técnico desses na intertemporada. 2012 é a resposta. Agora faça o mesmo teste com Tom Brady ou Matt Ryan – por exemplo. Todo verão eles vão trabalhar com Tom House e Adam Dedeaux, incrementando suas respectivas mecânicas de passe.

O resultado é mostrado em campo. Compare a mecânica de Newton em 2015 (o melhor ano da carreira) com o que ele apresentou contra New Orleans:

A mecânica da esquerda é em um passe durante o Championship Game (2015), em que Philly Brown marcou um touchdown de 83 jardas. Newton consegue ir para frente no pocket, lançar a bola do ponto mais alto, trocando o peso do corpo para a perna da frente no momento exato, e gira o corpo suficientemente. O resultado é um passe certeiro, no peito de Brown, que consegue ganhar na corrida e correr para a endzone.

Compare com a segunda imagem (2017). Newton parece não confiar tanto em seu ombro, logo ele lança o passe antes do braço estar em seu ponto máximo. Isso faz com que a força do corpo passe diretamente para a bola e o controle não sejam dos melhores. Além disso, falta-lhe qualidade no momento de passar o peso do corpo para a perna da frente, pois a mecânica não se completa. O resultado? Um touchdown desperdiçado.

Esta jogada acima é a mesma jogada em que mostramos a mecânica de Newton de perto. Ele se movimenta bem no pocket, faz o trabalho de pés corretamente, mas falha na hora de finalizar a jogada. O wide receiver, que ficou totalmente livre com o double move, tem muito espaço para receber o passe e mesmo assim ele é incompleto – e por muito.

Claramente existe uma falta de confiança no ombro de Cam Newton. O projeto dos Panthers de tirar a bola de sua mão reformulou o playbook, mas o grande impacto que se sente são nas decisões do quarterback. Ele não está evoluindo como o esperado.


“RODAPE"

Tudo o que você precisa saber sobre a Semana 4:
Transmissões da NFL na TV (ESPN): Semana 4
Guia da Semana: Duelos divisionais decisivos na AFC North e NFC North

A mudança em campo refletida nas estatísticas

O efeito de tomar tantas pancadas mudou completamente a abordagem dos Panthers. Em 2015, Newton teve uma média de 4,79 jardas percorridas por passe. Ano passado esta média caiu para 4,23. Você acha pouco? Ele foi o quinto da liga em 2015 neste quesito e caiu para 15º no ano passado.

playbook de Mike Shula foi completamente modificado. Sai os passes longos, os play actions e as corridas do quarterback e entram opções de corrida/passe, screens e um estilo West Coast que não se encaixa com Newton. Isso se reflete nos números dele nos últimos 32 jogos:

  • Últimos 16 jogos: 54% de passes completos, 6,8 jardas por tentativa, 16-16 TD-INT e sete vitórias.
  • Os 16 jogos anteriores: 60% de passes completos, 8,0 jardas por tentativa, 37-10 TD-INT e 14 vitórias.

Some isso ao fato de Cam Newton sofrer um pouco com leituras ofensivas e o resultado encontra-se no número exacerbado de interceptações e péssimas decisões tomadas dentro de campo. O pior é que em 2017 claramente falta-lhe confiança em lançar a bola em profundidade, como neste lance:

Terceira descida longa e os Saints estão em uma Tampa 2, com o linebacker entrando quase 15 jardas para dentro do campo. Isso faz com que os outros dois linebackers cubram a região das hash mais próximos ao centro do campo, criando uma área não coberta na região de 15-20 jardas dos lados do campo. Esta cobertura é perfeita para explorar utilizando o conceito de three level stretch (ou flood) que vai ser utilizado por Shula.

Christian McCaffrey correrá uma rota na flat, chamando atenção do linebacker e abrindo espaço para Ed Dickson (rota laranja) e Curtis Samuel (rota amarela) colocarem pressão no safety. Ele terá que marcar um dos dois devido aos linebackers estarem mais para o lado de dentro de campo e Newton terá a oportunidade de uma big play.

Só que o que acontece? Newton joga a bola na flat e praticamente desiste de tentar converter a terceira descida. A sensação é que ele não confia tanto em seu ombro e mesmo em jogadas designadas para explorar a defesa em profundidade o lançador acaba falhando. Em 2015 ele lançou perto de 11% dos passes para 20 jardas ou mais. Neste ano este número está em 8%. Uma queda de 27%, o que é muito.

O pior é que este esquema de jogo ajuda a maximizar o seu pior defeito: a (não) leitura da jogada. Mais um exemplo de como ele deixa jardas dentro de campo:

Agora os Saints estão em uma possível cover 3, muito provavelmente em zona. O papel de Newton aqui é controlar o safety do fundo do campo, o mantendo longe o suficiente e dando espaços para trabalhar o meio do campo com Dickson e o seu slot receiver. Newton faz este papel muito bem e tem duas opções claras de passe, só que ele se perde e acaba (praticamente) jogando a bola fora em um passe muito difícil de ser completo.

Outra jogada que está muito presente são as opções de passe ou corrida, que não são bem executadas pela falta de profundidade neste ataque. Foi assim que nasceu a interceptação mais bizarra que Newton lançou este ano:

A jogada é uma opção: a primeira leitura é a reação dos dois linebackers. Caso eles se aproximem da linha, Newton não dará a bola para McCaffrey correr e, em vez disso, passará para a sua segunda leitura: o nickelback. Caso ele vá em direção do slot receiver, a bola será na slant. Caso contrário o passe é um bubble screen.

No papel o lance é genial quando o cornerback está respeitando a bola em profundidade e não ataca a linha de passe. Só que os Panthers não sabem o que é um lançamento longo durante todo o jogo, o que aproxima a secundária dos Saints e potencializa a chance de acontecer um desastre.

Cam Newton não vê, em nenhum momento, a movimentação do cornerback. Ele esquece completamente, faz o passe de qualquer jeito e o resultado é desastroso. O plano de jogo, que possui um excesso de bolas curtas e leituras dinâmicas, está trazendo o que de pior ele poderia mostrar em campo.



Tem jeito?

Não é como se o corpo de apoio de Newton fosse grande coisa também: Devin Funchess e Kelvin Benjamin são lentos, muito lentos, e possuem muita dificuldade em conseguir uma separação adequada dentro de campo. McCaffrey e Curtis Samuel sentiram o início de carreira e começaram com dificuldades e pensando muito dentro de campo.

Mesmo assim o nível de jogo é muito aquém. Newton está fora de seus melhores momentos e ainda parece sem ritmo de jogo nenhum. Aparenta precisar de mais umas duas ou três semanas para voltar a ser competente dentro de campo, mas mesmo assim a falta de treinamentos na intertemporada, durante o período que estava cuidando do ombro, vão fazer falta na sua preparação.

Quer mais análise tática? Sócio ProClub tem descontos, concorre a sorteios e tem acesso a conteúdo exclusivo como várias análises táticas!

A empolgação do início do ano esfriou com os desempenhos pífios desta unidade ofensiva. Shula está perdido, Newton não lança em profundidade e o resultado fica sem graça, insosso e desesperançoso. Esta tática utilizada nos últimos tempos não encaixa neste ataque dos Panthers e Shula precisa readquirir a confiança de seu quarterback e começar a esticar verticalmente o campo. Neste ritmo, os Panthers vão disputar novamente uma vaga para escolher no top 10 do Draft no ano que vem.

Comentários? Feedback? Siga-nos no twitter em @profootballbr e curta-nos no Facebook.

“RODAPE"