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Nota do autor: este texto contém conceitos bastante avançados para quem está começando agora na NFL. Para ajudar, temos duas opções para você. A primeira é o índice da Blackboard, nossa coluna didática. A segunda é o Manual do Futebol Americano, livro que explica todos os conceitos que você verá abaixo. Com o cupom “podcast” você tem mais desconto nele.

Quem diria, alguns meses atrás, que Trevor Siemian lideraria a NFL em touchdowns após a Semana 2? Poucas pessoas, provavelmente. Quem diria que Jared Goff seria um dos líderes da liga em passer rating1?

Nada disso aconteceu por acaso. Ambos foram jogados na “roda da evolução”: após um ano decepcionante, poderiam melhorar ou seriam bancados. No caso de Siemian, sua performance na pré-temporada foi consistente e suficiente para acabar com qualquer batalha pela titularidade com Paxton Lynch. No caso de Goff, embora tenha havido uma boa exibição contra os Raiders, a Semana 3 contra os Chargers foi pavorosa. Naturalmente, não esperávamos muito.

Eis que entram Sean McVay e Mike McCoy. Respectivamente, técnico principal dos Rams e coordenador ofensivo dos Broncos. Ambos são boas mentes ofensivas e sabem do poder que o play action tem na evolução de um quarterback. Antes de mais nada e para nivelar os iniciantes na NFL e os avançados, uma breve explicação do que se trata a jogada.



“canecas"

O Play Action

Definição de Play Action: Veja como a defesa compra o jogo corrido e morde a isca.

Como você pode ver acima, uma imagem vale mais do que mil palavras. Este é um muitos play actions de Trevor Siemian na Semana 2 da NFL. Por definição, o play action é uma jogada que começa como corrida e, na verdade, é um passe. Esse início como corrida é fundamental para enganar a defesa e dar tempo extra para o quarterback – ou para deixar algum recebedor desmarcado, dado que a defesa mordeu a isca e foi conter uma corrida que, na prática, não existia. Perceba como a defesa de Dallas só percebe que é passe – e reage a tanto – quando boa parte das rotas já se desenvolveu.

Bloqueios, movimentação dos recebedores, recuo do quarterback: tudo é executado de forma a fingir a entrega da bola para o corredor. Após esse fingimento, a jogada transforma-se no que foi concebida para ser: um passe.

O Play Action compra segundos cruciais para o quarterback. Veja como a defesa fica perdida no início da jogada.

play action funciona mais quando a defesa está viciada em conter o jogo terrestre – ou seja, é necessário que haja mais tentativas terrestres para vendê-lo de modo eficiente. A descida-distância é importante também. Defesa nenhuma vai comprar o play action numa 3rd and 20, porque a corrida não seria o “padrão” aqui.

Tal como o draw, o screen e outras, o Play Action é aquilo que chamamos de Jogada de Contenção. Sua função, além de deixar o quarterback mais confortável no pocket, é de deixar a defesa “honesta”. Ou seja: essa tentará o mínimo possível de extravagâncias para não ser pega de calças curtas. Quando a defesa pensa demais pelo fato do ataque apresentar muitas coisas diferentes, este tem vantagem natural.

Como os Rams e os Broncos vem executando o play action de modo arrebatador

Até a Semana 2, Denver Broncos e Los Angeles Rams estavam na metade superior da liga quando o assunto foi “tentativas de corrida”. Denver teve 75 corridas e Los Angeles, 55. Isso é essencial para que o play action seja eficiente: sem o empenho do coordenador ofensivo/head coach em chamar corridas de modo consistente, defesa alguma comprará a ameaça do play action. Importante salientar que eficiência em jogo terrestre não necessariamente importa em eficiência no play actionAté a semana passada, os Rams tinham menos de três jardas por tentativa de corrida. Isso não importa tanto quanto chamar corridas – e Sean McVay está executando isso.

O resultado óbvio disso é que ambos os times podem se dar ao luxo de chamar essa jogada de contenção. E as estatísticas mostram que eles estão fazendo exatamente isso. Nas duas primeiras semanas da temporada, Broncos (16) e Rams (13) foram, respectivamente, o segundo e o sexto time que mais chamou play actions. Contando apenas a Semana 3, Jared Goff executou play action em cinco tentativas, com aproveitamento de 80% (!!!) de passes completos e 20 jardas por tentativa de passe (!!!). Siemian, mesmo sendo o segundo que mais chama a jogada, teve 75% de passes completos em play action nas duas primeiras semanas.

Metade (3) dos TDs passados por Trevor Siemian nesta temporada foram via Play Action. Aqui um deles

Para Trevor, a arma do play action vem sendo ainda mais eficiente quando pensamos que as defesas estão tomando touchdown à rodo nessas jogadas. Metade (3) dos touchdowns passados por Siemian nesta temporada são fruto do play action

Mérito de ambos, claro

Algum contexto tem de ser feito, claro. Chargers e Cowboys não são duas das 10 melhores defesas da liga contra a contenção terrestre – o que explica seu empenho maior em tentar defender a corrida e, por tabela, ser enganada. O mesmo vale para Goff/Rams, que enfrentaram defesas aquém da média – principalmente Colts e 49ers.

De toda forma, não podemos lhes tirar os méritos. Especificamente no caso de Goff, a surpresa é positiva porque a própria mecânica e trabalho de pernas está melhor. Na pré-temporada teve sinais de inconsistência, mas na temporada regular nitidamente está melhor.

Também, em ambos os casos, a linha ofensiva foi melhorada. No caso dos Rams, Andrew Whitworth, left tackle, vem sendo um dos melhores left tackles da temporada – mesmo com idade avançada. Goff, mesmo com um jogo a mais que os demais, teve apenas três sacks neste ano. Siemian foi sackado seis vezes – sendo o nono da lista, mas convenhamos que ele enfrentou Joey Bosa e Melvin Ingram na Semana 1.

Por mais que não tiremos méritos de nenhum dos dois, o caso de ambos é excelente para mostrar como treinador tem influência no desempenho dos jogadores. A título de comparação, das semanas 11 à 17 – nas que foi titular – Jared Goff foi o 30º quarterback com menos tentativas de play action (24). Na temporada inteira (14 jogos), Siemian foi apenas o 23º em tentativas assim.

Fato é que os dois times melhoraram em pontos importantes. O play action em Denver não estaria funcionando se C.J Anderson não estivesse saudável para que as defesas comprassem a ameaça de suas corridas. E ele não seria tão eficiente em Los Angeles sem que uma ameaça em profundidade como Sammy Watkins tivesse chegado via troca.

A chegada de Sammy Watkins ajudou Goff – agora ele (finalmente) tem um alvo em profundidade.

Os segundos extras que são comprados com a tentativa falsa de corrida por Todd Gurley dão tempo extra para Goff no pocket. Com esse tempo extra, Jared pode conectar com uma das melhores ameaças em profundidade da liga, Sammy Watkins. Ainda, o PA cria leituras mais simples e geralmente de uma metade só do campo – aqui, a primeira leitura é o próprio Watkins.

Falando em tempo extra, perceba como o play action dá quase 6 segundos no pocket para Goff escanear uma defesa perdida (vs Colts)

Aqui, Antonio Morrison, camisa 44, fica completamente perdido na jogada. O inside linebacker de Indianapolis compra a ameaça terrestre, depois vai para o outro lado e ainda volta com várias crossing routes desenhadas por McVay para esta jogada em especial. É como se os Colts tivessem 10 jogadores em campo. Com quase seis segundos para escanear uma defesa perdida, Goff consegue conectar uma das rotas que atravessavam o campo.

Jared Goff e Trevor Siemian são a prova viva de que sistemas podem ajudar quarterbacks a serem a melhor versão de si mesmos. Isso vale para o futebol americano e para qualquer outra profissão, a bem da verdade. E no caso do futebol americano, o sucesso ofensivo depende de várias pequenas partes de uma grande engrenagem. McVay e McCoy souberam calibrar essas engrenagens de modo simples, para potencializar o talento de Goff e Siemian.


“RODAPE"

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Fato é que se eu aqui no Brasil consegui perceber como o play action está sendo bem utilizado pelos dois times, os coordenadores defensivos da NFL farão o mesmo. Neutralizarão isso de maneira eficiente? Ainda não dá para saber. O play action, quando bem executado e amparado por um jogo terrestre consistente – nem que seja só com nomes fortes para a defesa comprar tal ameaça, como é o caso de Anderson/Gurley – é uma das jogadas mais difíceis de defender.

“Jared Goff e Trevor Siemian são a prova viva de que sistemas podem ajudar quarterbacks a serem a melhor versão de si mesmos”

Ainda falta vermos Jared e Trevor contra defesas melhores do que vimos e contra mentes defensivas brilhantes. Um dos testes de fogo para Goff serão as duas partidas contra os Seahawks. Para Siemian, enfrentar Matt Patricia/Bill Belichick – dois gênios defensivos.

Seja como for, o indício está aí. Siemian vem mostrando que pode conduzir os Broncos para os playoffs. Goff já faz com que pensemos em desligar o alerta de bust. Melhor para a liga: quanto mais quarterbacks em alto nível, melhor.

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“RODAPE"

  1. Nota dos quarterbacks, que vai de 0 a 158,3 e é o resultado de um algoritmo que leva em conta as mais variadas estatísticas