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O futebol americano, desde sua criação no final do século XIX, segue em constante evolução. Alterações nas regras e nos estilos de jogo levaram à progressão de um esporte que já foi muito próximo ao rúgbi em um jogo dominado por passes frequentes e velocidade intensa.


Dentro do quadro atual do esporte (em particular da NFL), em que o jogo aéreo predomina, as defesas precisam se adaptar. Hoje, aqui no blackboard, falaremos sobre uma estratégia de cobertura muito em voga na atualidade, a cobertura pattern match.

As Origens

Nos anos 80, a West Coast Offense (WCO) se espalhava por quase todas as equipes da NFL. O sistema ofensivo criado por Bill Walsh, baseado em passes curtos e precisos, que por sua vez abriam o meio da defesa para o jogo corrido, colocava as defesas em situação difícil. A rapidez dos passes dificultava muito que a linha defensiva conseguisse colocar pressão no quarterback. Quando os coordenadores ofensivos tentavam responder a isso com a blitz, o quarterback tinha uma “hot route” (leitura rápida em caso de pressão da defesa) pronta no lugar deixado vazio pelo pass rusher extra. As defesas pareciam sem saída para combater a WCO.

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Dick LeBeau, quando coordenador defensivo do Cincinnati Bengals, desenvolveu um sistema para gerar “pressão segura” sobre os quarterbacks adversários. Foi criada a zone blitz, em que, por trás do defensor (ou defensores) extra que ia atrás do quarterback, fazia-se uma cobertura por zona, até mesmo com jogadores da linha defensiva participando da defesa de rotas curtas, como curl e flat. Este recurso diminuía a eficácia da WCO em achar espaços fáceis abertos atrás da blitz, tornando a pressão mais eficiente e segura, como queria LeBeau.

Entretanto, é claro que o sistema não era infalível. Os melhores quarterbacks sempre acabavam encontrando espaços na cobertura por zona, os chamados “soft spots“, entre dois defensores responsáveis por cobrir áreas do campo. Nick Saban, quando coordenador defensivo do Cleveland Browns (na época comandado por Bill Belichick), afirmava que “a zone blitz funciona muito bem, até que você tem que enfrentar Dan Marino”. O próprio Saban seria um dos responsáveis pelo ajuste na cobertura da zone blitz que daria novo fôlego ao sistema: o pattern match.

Os Princípios

Na cobertura pattern match (algo como “ajuste aos padrões”), os defensores que ficam por trás da zone blitz podem fazer a marcação tanto por zona quanto individual, dependendo das rotas dos recebedores. Quando o ataque mostra seu “padrão de rotas”, ou seja, quando os recebedores já definiram suas rotas, ou ao menos fizeram os primeiros cortes, é que os defensores saberão se farão a marcação individual ou cobrirão apenas a sua área do campo, numa cobertura por zona tradicional.

Cobertura Cover 3 do pattern match original

Cobertura Cover 3 do pattern match original

Quando a defesa se alinha na formação mais comum em casos de zone blitz, o cover 3, com dois cornerbacks e um safety na cobertura em profundidade, as rotas dos recebedores externos é que definirão o estilo de defesa. Se os recebedores fizerem rotas em profundidade (go, post ou corner/flag), os cornerbacks assumem a cobertura homem a homem, “transformando” a defesa de cover 3 para cover 1, apenas com o free safety se mantendo na “sobra”. Já se os recebedores externos cortarem para dentro do campo (rotas slant ou shallow cross), o cover 3 se mantém, já que os cornerbacks “passam” o recebedor para os linebackers ou para o strong safety responsável por aquela zona.

Desta maneira, os espaços na zona são muito reduzidos, mas é mantida a relativa “segurança” da zone blitz, já que sempre há alguém responsável por cobrir a área antes ocupada pelo defensor que pressiona o quarterback. Além disso, pela manutenção de apenas um safety na cobertura no meio do campo, sempre há um defensor extra para para o jogo corrido.

O pattern match não é um sistema novo e, como qualquer outro, pode ser explorado pelos ataques. Recentemente publicamos um artigo sugerindo que coberturas baseadas no pattern match poderiam ser uma das “modas” da NFL na próxima temporada. Se este for o caso, certamente não será utilizando-se exatamente do sistema original. Vamos agora falar das duas vertentes mais modernas do pattern match, ambas oriundas do futebol universitário.

A Cobertura Rip/Liz

Nick Saban, que participou do desenvolvimento da cobertura pattern match durante seu período como coordenador defensivo do Cleveland Browns, percebia os pontos fracos do seu sistema. Basicamente, mesmo com a cobertura híbrida, não era possível retirar ou minimizar a vantagem de tempo que o ataque sempre tinha. Ainda que não soubessem se a cobertura seria por zona ou individual, os quarterbacks e recebedores tinham a vantagem de já saber o que iriam fazer, mantendo a possibilidade de acharem espaços na defesa. Isto se tornava um problema ainda maior com a explosão da spread offense. O uso frequente de quatro rotas verticais ao mesmo tempo atrapalhava muito qualquer sistema que tivesse como base o cover 3. Juntando-se isso à ameaça do jogo corrido (no futebol universitário, muitas vezes incluindo também o quarterback), as defesas ficavam em uma situação ruim.

Cobertura Rip/Liz, com o safety em movimento

Cobertura Rip/Liz, com o safety em movimento

Para tentar reverter esta situação Nick Saban desenvolveu mais um detalhe em seu sistema defensivo: a mudança de última hora na cobertura. No que viria a ser a cobertura Rip/Liz, a defesa se posicionava para as jogadas com dois safeties em profundidade, algo pouco comum nas equipes de Saban até então. Simultaneamente ao snap, de acordo com a postura e as tendências do ataque, vinha a surpresa: um dos safeties mergulhava em direção a linha de scrimmage, tornando-se o oitavo jogador no box defensivo, mantendo-se na cobertura o já tradicional cover 3/cover 1 do pattern match. A indefinição até o último momento sobre o posicionamento defensivo dificulta as decisões do quarterback e de seus recebedores, diminuindo a velocidade do ataque e permitindo que a defesa mantenha um bom controle sobre o jogo corrido. Além disso, a posição inicial dos safeties, em profundidade, facilita a defesa em situações de quatro rotas verticais, comuns nas spread offenses. O safety que recebe a ordem Rip ou Liz (para “mergulhar” para a direita – right – ou esquerda – left – da formação), neste caso permanece cobrindo a rota vertical em marcação homem a homem (cover 1).

Utilizando a cobertura Rip/Liz, associada ao seu 3-4 híbrido, Nick Saban alcançou grande sucesso liderando Alabama a múltiplos títulos nacionais.

O Cover 4 “Falso”

A segunda variante da cobertura pattern match é, em grande parte, responsável pelo renascimento do programa de futebol americano de Michigan State. O técnico Mark Dantonio construiu uma defesa fortíssima, mesmo não tendo jogadores de nível físico e técnico similares aos dos seus principais oponentes. A sistema que permitiu este desempenho é o cover 4 de Michigan State. Por que chamamos o sistema de cover 4 “falso”? Porque, em um cover 4 tradicional, a defesa se alinha com os dois cornerbacks e os dois safeties em profundidade, fazendo cobertura por zona. Em Michigan State, o funcionamento é bem diferente.

Cover 4, com os safeties mais próximos à linha de scrimmage

Cover 4, com os safeties mais próximos à linha de scrimmage

No sistema defensivo de Mike Dantonio, os cornerbacks se posicionam próximos aos recebedores externos, em cobertura press man. Já os safeties também estão mais próximos da linha de scrimmage que em formações tradicionais. Assim, podem reagir mais rapidamente aos padrões de rotas do ataque adversário. Quando confrontados com quatro rotas verticais, a marcação é individual. Se o recebedor mais próximo ao safety corta para o meio ou para a lateral, entretanto, o defensor o “passa” para um companheiro, em uma defesa por zona, tornando-se um “robber” (ladrão), observando o quarterback e tentando interceptar passes. Finalmente, a proximidade dos dois safeties com a linha de scrimmage permite que, em caso de jogada corrida, os dois participem da defesa. Assim, Michigan State frequentemente tem nove jogadores no box, dificultando muito as corridas adversárias.

Eficácia na NFL

Sistemas defensivos que alcançam sucesso no futebol universitário frequentemente encontram dificuldade quanto transportados para a NFL. A principal razão para isso é a diferença de qualidade dos quarterbacks profissionais para os universitários. Os profissionais têm muito mais facilidade em achar os “soft spots” na zona, além de identificar propriamente se a defesa está jogando em marcação individual ou não. Ainda assim, as variações recentes da cobertura pattern match tornam-se atraentes para as defesas das equipes da NFL na medida em que os sistemas spread literalmente se espalham por toda a liga.

Com o avanço dos ataques da NFL, em que cada vez mais as decisões que definem a jogada são tomadas pelos jogadores já com a bola em movimento, uma resposta defensiva na qual o jogador pode alterar sua função de acordo com o movimento ofensivo pode ser uma ferramenta extremamente valiosa para qualquer equipe da liga.