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O jogo corrido é a base histórica dos ataques no futebol americano. Frases lapidares como “três jardas e uma nuvem de poeira”, ou “o futebol americano sempre será uma questão de derrubar alguém na linha de scrimmage” fazem parte do inconsciente coletivo do esporte. Ainda que estejamos em uma era dominada cada vez mais pelo jogo aéreo, com ataques explosivos que se espalham por todo o campo, o jogo terrestre segue como ferramenta fundamental para qualquer equipe que tenha ambições de se tornar uma potência ofensiva.

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Hoje, aqui no Blackboard, falaremos sobre uma das estratégias mais presentes no jogo corrido da NFL na atualidade: o sistema de bloqueios por zona. Ainda que não seja uma novidade, o bloqueio por zona vai crescendo cada vez mais em importância, acabando inclusive por moldar o biotipo dos running backs e, principalmente, dos jogadores de linha ofensiva.

Para entender melhor os meandros do sistema, discutiremos suas origens, seus princípios táticos, seus estilos básicos de jogadas (outside zone, inside zone, split zone) além das características necessárias para que os jogadores sejam bem-sucedidos em sua utilização.

Origem e Evolução

Ao contrário do que muita gente pensa, o bloqueio por zona não é uma novidade no futebol americano. Sistemas muito antigos, como o Wing-T, já se utilizavam de alguns dos princípios do bloqueio por zona, como o deslocamento lateral e o bloqueio por níveis da defesa. Ainda assim, a versão moderna do que se chamaria de jogo corrido por zona começa a se firmar na NFL nos anos 80, no estado de Ohio.


Em Cleveland, sob o comando o técnico Marty Schottenheimer e do coordenador ofensivo Howard Mudd, o bloqueio por zona floresceu, permitindo aos Browns se tornarem, em 1985, a primeira equipe da história da liga a ter dois corredores com mais de 1000 jardas na temporada (Earnest Byner e Kevin Mack). No ano seguinte os Browns chegariam à decisão da Conferência Americana, perdendo para o Denver Broncos (com a famosa “The Drive” comandada por John Elway).

Quase que concomitantemente, em Cincinnati, o processo se repetia. O técnico de linha ofensiva Jim McNally, aproveitando-se do grande talento de sua linha ofensiva, liderada pelo tackle Antony Muñoz (hoje no Hall da Fama), instalou o sistema por zona. Os resultados foram excelentes, com os Bengals chegando inclusive ao Super Bowl depois da temporada de 1988.

Para estas duas equipes, a motivação para a adoção do sistema veio das defesas. Com o aumento da capacidade atlética dos jogadores de linha defensiva, o bloqueio homem a homem puro tornou-se obsoleto. Afinal, os defensive tackles agora eram capaz de mudar de direção rapidamente, “trocando de bloqueador” é atacando os gaps da linha ofensiva. Assim, explode o bloqueio por zona, que utiliza o movimento da linha defensiva contra ela mesma, “carregando” os defensores para longe da ação.

Inicialmente, o sistema se baseava apenas no movimento lateral de toda a linha ofensiva, deslocando os defensores, permitindo que o running back encontrasse o melhor espaço para fazer seu corte para a frente passando rapidamente pelo meio da defesa. Assim, torna-se mais importante que o running back seja capaz de fazer o corte de maneira eficaz, com velocidade através do “buraco” e não até chegar no “buraco”, como em sistemas de jogo corrido de força. Da mesma forma, neste momento inicial, os jogadores da linha ofensiva deveriam ser “largos”, capazes de arrastar o que estivesse no caminho, sendo menos importante a capacidade atlética para realizar bloqueios tradicionais como pulls e traps.

Entretanto, isso viria a mudar em Denver, nos anos 90, sob o comando do técnico de linha ofensiva Alex Gibbs. Gibbs alterou o sistema, acrescentando bloqueios no segundo nível da defesa. Ou seja, quando o defensor era deslocado, deixando um jogador de linha ofensiva com espaço vazio à frente, o mesmo seguia atrás de algum linebacker, utilizando-se de cut blocks (bloqueios laterais nas pernas do adversário) para aumentar o espaço para o corte do running back. Assim, o biotipo dos jogadores de linha mudou um pouco. Buscando jogadores mais atléticos, as linhas de Denver (e de outras equipes que adotaram o esquema) passaram a contar com jogadores rápidos, até certo ponto “magros”.

Durante o período de domínio do jogo corrido dos Broncos, costumava-se dizer que, quem quer que fosse o running back da equipe, conseguiria 1000 jardas na temporada. Exagero, sem dúvida, mas com Terrell Davis, pelo menos, o sucesso foi muito grande, contribuindo para a conquista de dois Super Bowls.

As jogadas

Outside zone

O outside zone, também chamado de stretch run, é a jogada base no sistema de bloqueios por zona. Conforme já descrito, a linha ofensiva se move lateralmente em conjunto, tentando deslocar os defensores e abrir uma “avenida” para o running back. O corredor, por sua vez, se desloca lateralmente por trás de sua linha, com paciência, esperando a abertura para fazer o corte. No outside zone, o running back “mira” as costas do tight end, local limite para fazer sua leitura. Se a lateral do campo estiver livre, ele segue seu caminho diretamente, só virando suavemente para a frente. Caso a região esteja ocupada por defensores, ou se houver uma ruptura na defesa no meio da linha, ele faz o chamado cutback, mudando de direção abruptamente e assumindo grande velocidade ao passar pelo “buraco”.

Outside zone

Outside zone

Inside zone

No inside zone, utilizado fundamentalmente para pegar de surpresa a defesa que já espera o outside zone, a linha mantém o mesmo padrão de deslocamento lateral. O running back, entretanto, se direciona não para a extremidade da linha, mas sim para o ombro externo do guard, ou seja, entre o guard e o tackle (Gap B). Ao chegar lá, o corredor lê a defesa para determinar se corta para frente, seguindo a progressão da linha, ou se faz o cutback, buscando espaço no lado oposto do campo. Da mesma forma que no outside zone, é neste momento que o running back deve “explodir” em velocidade máxima.

Inside Zone

Inside Zone

Split zone

Já no split zone, o princípio se assemelha bastante ao inside zone, porém com uma diferença importante. Enquanto a linha ofensiva e o running back têm papéis similares àqueles assumidos na jogada anteriormente descrita, no split zone o tight end (ou fullback), posicionado na extremidade da linha, corre na direção oposta à do deslocamento da jogada, bloqueando o defensor da parte de trás. Assim, abre-se mais uma janela para o running back, que pode fazer seu cutback para o extremo oposto do campo. A partir do split zone, é possível fazer também jogadas de play action, abrindo a possibilidade de usar o tight end aberto do outro lado do campo como recebedor.

Split Zone

Split Zone

Os biotipos do sistema


Com a progressão do uso do sistema de bloqueios por zona por toda a liga, as equipes têm buscado jogadores que se adequem bem às necessidade impostas pelo sistema. No caso dos jogadores de linha, busca-se grandes atletas mais do que grandes corpos. O jogador deve ter pés rápidos (atributo já fundamental para a proteção do quarterback), agilidade lateral e capacidade de saltar com velocidade ao segundo nível para realizar os cut blocks. A linha ofensiva das equipes dos Broncos dos anos 90, ou mesmo as linhas do Philadelphia Eagles sob o comando de Chip Kelly são bons exemplos. Desse último grupo podemos citar o tackle Lane Johnson e o center Jason Kelce.

A coluna “Blackboard”, com os fundamentos táticos do futebol americano, é uma das metas no programa de Clube de Benefícios para os Sócios do ProFootball. Quer cada vez mais conteúdo de qualidade? Dá uma olhada, tem até fantasy com premiação.

Já os running backs, para serem bem sucedidos do sistema, devem ter paciência para esperar a abertura do espaço e tomar a decisão correta, além de explosão para passar pelo “buraco” aberto na defesa. Em geral são running backs altos (facilitando a visualização do que acontece além da linha) mas não muito pesados. O melhor exemplo recente de um running back ideal para o sistema é Arian Foster, hoje nos Dolphins, mas que viveu seus melhores momentos no Houston Texans (não por acaso com o guru do bloqueio por zona, Alex Gibbs, como técnico da linha ofensiva).

Daqui pra frente

Todos os sinais apontam para uma utilização cada vez maior das corridas com bloqueio por zona. Além dos fatores já descritos, outra vantagem importante do sistema é sua adequação às spread offenses, que se espalham por toda a liga. Esta adequação se dá pelo fato de que, sem a necessidade de um bloqueador líder (um fullback, por exemplo), “sobra” mais uma vaga para um recebedor, sem comprometer a eficiência do jogo corrido.

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