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Primeira Leitura: O que esperar dos Patriots com Garoppolo?

Eu disse há um tempo atrás que não iria falar sobre o Deflategate e, na prática, não estou falando. Existe uma chance bem grande de que Tom Brady tenha de cumprir a suspensão de quatro jogos após, em segunda instância na justiça federal americana, a NFL conseguir fazer com que a punição seja aplicada. Parece que eu estou falando do Deflategate aqui, mas é justamente o contrário: a proposta é seguir em frente, falar de coisas dentro de campo. No caso, como os Patriots devem se portar sem sua estrela e cara da franquia desde 2001 – com Jimmy Garoppolo, o qual deve ser o titular.

São quatro jogos, portanto. Semana 1 contra Cardinals (fora de casa), Semana 2 contra os Dolphins (em casa), Semana 3 contra os Texans (em casa) e Semana 4 contra os Bills (em casa). Numa análise macroscópica, o estrago não foi tão grande quanto poderia: apenas um jogo fora de casa e três em casa – onde o New England Patriots costuma jogar melhor. Viajar para jogar no calor de Miami ou no vento de Buffalo não seria uma boa ideia com o quaarterback reserva em campo. Ainda, foram só dois jogos divisionais – perdendo os dois e considerando que o Tom Brady’s Angry Revenge Tour Part II deve começar na Semana 5 contra os fracos Browns, uma potencial campanha 1-3 não seria tão catastrófica. Falemos agora jogo a jogo e o que podemos esperar dessas partidas. É cedo para prever? Em tese sim, mas com os dados certos – e uma amplitude deles – podemos começar a discutir a temporada 2016.

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Na primeira semana contra Arizona, um jogo bastante difícil e fora de casa, como já dito. Pode não parecer, mas o University of Phoenix é um estádio barulhento. Os Patriots, por um lado, deram sorte que o jogo é a noite – com efeito, longe do calor do deserto. Mas, por outro lado, o time de Bruce Arians deve estar com sangue dos olhos para estrear bem em horário nobre e audiência nacional. Em sendo uma equipe talentosa e um tanto quanto subestimada pelo fato de estar num mercado consumidor menor – e por não ser campeão da NFL desde 1947, quando ainda estava em Chicago – os Cardinals podem tratar esse jogo com uma motivação extra. E acredite, motivação é algo pra lá de importante nos esportes. Como Arizona vai jogar na defesa? No ano passado, Arians mandou blitz em 45% dos dropbacks dos adversários – a maior marca da NFL. Não foi um ponto fora da curva: são 42% de blitzes nas últimas quatro temporadas. Pressionar um quarterback inexperiente – como é o caso de Jimmy Garoppolo – pode ser uma boa pedida.

Como contra-atacar isso? Bom, a teoria é que Bill Belichick já tenha se preparado para isso. Duvida? Caso você tenha se esquecido, o New England Patriots adquiriu, via troca, o tight end Martellus Bennett antes desta temporada. Em tese, portanto, os pacotes X2 – indeterminada quantidade de running backs e dois tight ends em campo, aquele e Rob Gronkowski – deve ser usado bastante. Primeiro porque proteção extra para estreante Garoppolo é uma boa pedida. Segundo porque tight ends são boas válvulas de escape contra a pressão. E terceiro porque isso deu muito certo quando Aaron Hernandez ainda estava na NFL. Pois bem, existe uma estatística interessante nesse sentido. O Arizona Cardinals, quando enfrentando pacotes com dois tight ends, cedeu uma média de 69% de passes completos. Olho nesse duelo, pode ser importante para essa primeira partida.




A segunda semana sem Brady terá a visita do Miami Dolphins ao Estádio de Foxborough Gillette Stadium. Aqui, os Patriots podem se aproveitar pelo fato dos Dolphins não terem muita profundidade de talento na secundária. No ano passado, Miami foi a 26ª pior equipe ao jogar contra o pacote 11 (um running back, um tight end e três wide receivers). Foram 66% de passes completos pelos adversários quando estes usavam tal conjunto no ataque. Mais: um festival de passes curtos pode ser novamente o esperado: na Semana 8 da temporada passada contra os Dolphins, a equipe da Nova Inglaterra conseguiu 186 jardas após a recepção. 84 delas só por um running back, Dion Lewis – que também recebeu passe para 16 jardas e touchdown justamente quando os Patriots estavam em conjunto 11.

Ainda em Foxborough, os Patriots recebem o Houston Texans para o Thursday Night Football que dá o início à terceira semana da temporada 2016. Neutralizar J.J. Watt é obviamente a ordem do dia e de longe uma missão nada fácil. Ao invés de fazê-lo utilizando material humano – por exemplo, colocando mais bloqueadores em campo ou coisas do gênero – talvez o matchup tático possa ser uma ideia melhor. A deixa foi dada pelo Kansas City Chiefs nos playoffs da temporada passada: altas doses de corrida para cima de Watt e mais doses de play action. Em realidade, este foi o remédio – não tão efetivo porque Watt é um descendente de Hércules, mas enfim – contra o defensive end dos Texans: a equipe de Houston cedeu um dos piores ratings em play action para os quarterbacks adversários na temporada passada. Só os Bears e os Saints foram pior. Especificamente contra o play action, a defesa de Houston cedeu sete touchdowns e não interceptou o quarterback adversário nenhuma vez.

Após esse Thursday Night os Patriots têm uma cacetada de dias para descansar. O jogo é dia 22 de setembro e eles só voltam a campo no dia 2 de outubro. A última batalha bradyless é contra o Buffalo Bills, também em casa. No ano passado, a primeira partida contra Buffalo foi na semana 2 e vimos um festival de quick strikes. Brady lançou 43 passes em 2,20 segundos ou menos. Será que Garoppolo seria capaz de seguir um plano de jogo semelhante? Em realidade, essa foi a tendência dos adversários contra os Bills no ano passado. Em 2014, Buffalo teve o melhor pass rush da NFL com 54 sacks – com efeito, os ataques em 2015 tentaram evitar isso passando a bola o mais rápido o possível. Segundo o ESPN Stats & Info, foram 336 tentativas de passes que não demoraram mais de 2,20 segundos para se desenvolver.

Claro: todas essas estatísticas acima são com Brady. Isso é importante salientar. Mas, o grande ponto desta parte da coluna é ressaltar que New England tem peças ao redor para contornar a ausência de Brady. O jogo no qual o time pode mais depender de Garoppolo é justamente o último daqueles sem Brady, contra Buffalo. Resta saber como as dinâmicas vão se entrelaçar nessas quatro partidas. De toda sorte, uma campanha com pelo menos duas vitórias – dado os matchups favoráveis a New England e o fato de três jogos serem em casa – fazem com que o torcedor dos Patriots não fique tão pessimista.

Pensamento aleatório da semana

Para quem viu o 30 for 30: 1985 Bears a morte de Buddy Ryan não é tanta surpresa. Infelizmente ele já estava bem velhinho, com 82 anos, e com saúde bastante debilitada. Você pode não saber, mas a NFL de 2016 é do jeito que é muito por conta dele. A era de ouro do pass rush nos anos 1980 tem dois responsáveis. Em campo, Lawrence Taylor nos Giants – o primeiro EDGE rusher e o último defensor a ser eleito MVP da liga, em 1986. Fora dele, a defesa 46 – sobre a qual teremos um texto nesta semana – criada por Buddy. Você pode até conhecê-lo como pai de Rex Ryan e Rob Ryan, mas vai muito além: os 72 sacks dos Bears em 1984 continuam sendo o recorde absoluto da liga e devem sê-lo por muitos e muitos anos.

A bola oval voltou: alguns motivos para você dar uma chance para a CFL

Na última quinta-feira começou a temporada 2016 da CFL, a Liga de Futebol Canadense. Tem tackle, tem capacete, tem passe para frente, tem bola oval e é um jogo com conquista de território. Pense num futebol americano tendendo um pouco mais para o rugbi do que a NFL e você tem a CFL. Por exemplo: o campo é muito maior. O jogo acaba sendo mais dinâmico, porque o play clock é de 20 segundos e não de 40 como na NFL. E como são apenas três descidas para avançar as mesmas 10 que no futebol americano você avança com quatro, o jogo tem muito mais passe – já que a tendência é que mais jardas sejam conquistadas via passe e não via corrida. Neste texto expliquei todas as principais diferenças entre CFL e NFL para você poder acompanhar os jogos.

De toda forma, o subtítulo diz que há alguns motivos para acompanhar, certo? Bom, o primeiro deles é que fora a CFL, o único esporte americano/norte-americano rolando é o beisebol – e sejamos coerentes, a temporada da MLB começa a pegar fogo mesmo só depois do All-Star Break. Já são menos coisas para você assistir na TV e a saudade da NFL está no auge da intertemporada, dado que ainda faltam uns 70 dias para a temporada 2016. Em segundo lugar, é interessante assistir à CFL porque são só nove times: a rivalidade entre eles é intensa. E, finalmente, se eu ainda não te convenci a pelo menos dar uma chance, tem uma coisa interessante: na CFL o play clock tem apenas 20 segundos, como disse acima, e a partir dos três minutos finais do segundo e último quartos, o cronômetro para em toda descida até que a bola seja colocada no spot pelo árbitro. Isso significa, na prática, que os três minutos finais rendem mais do que a aula de matemática mais chata que você teve na vida – mas, ao contrário aqui, é legal! Legal porque propicia muitas viradas. Praticamente nenhuma liderança está a salvo. Enfim, quinta tem jogo – estou colocando sempre o calendário na minha página do Facebook (sim, criei uma, aproveita e dá um like!)

 

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A história do doping que ainda não acabou

Lembra aquela parada do suposto doping – no caso, uso do hormônio de crescimento – por parte de jogadores da NFL (incluindo Peyton Manning)? Caso você tenha se esquecido – é bem provável que sim, eu mesmo só me toquei disso nessa semana – a Al Jazeera (aquela que soltava os vídeos de Osama Bin Laden) fez em dezembro do ano passado uma reportagem sobre o uso de PED (drogas que melhoram a performance) no futebol americano profissional. Isso voltou à pauta nesta semana.

O vice-presidente de políticas trabalhistas da NFL, Adolpho Birch, informou o Sindicato de Jogadores (NFLPA) que os atletas nomeados na reportagem da Al Jazeera serão entrevistados em Julho. No caso, dois linebackers do Green Bay Packers – Julius Peppers e Clay Matthews – e o também linebacker James Harrison, do Pittsburgh Steelers – eleito o jogador defensivo do ano em 2009, você deve se lembrar dele por conta da interceptação de 100 jardas antes do intervalo no Super Bowl XLIII. Adicionalmente, Mike Neal, linebacker que atualmente free agent mas que já jogou também pelos Packers, também deve ser entrevistado pela liga – no dia 22 de julho. Mas não só: Peyton Manning foi nomeado na reportagem e, mesmo aposentado, há planos da liga entrevistar o futuro hall of famer. 


A NFL está conduzindo a investigação e Birch disse que “O sindicato de jogadores e a liga são obrigados e têm uma responsabilidade solidária em dar uma olhada nas alegações que potencialmente possam impactar a integridade do jogo e a saúde dos jogadores”. Depois, o VP prosseguiu dizendo que “(a liga) vem obtendo e revisando vários documentos, conduzindo múltiplas entrevistas e trabalhando com outras entidades”. “Não fizemos conclusões ainda mas a reportagem merece uma revisão, incluindo entrevistas com os jogadores nomeados”, finalizou.

Peyton, na época que a reportagem veio à tona, negou veementemente as acusações do uso de GH (hormônio do crescimento) ou quaisquer PEDs durante a recuperação das quatro cirurgias no pescoço (em 2011). “A alegação de que eu faria algo como isto é um lixo completo e completamente inventado”, disse Peyton. “Nunca aconteceu. Nunca. Eu realmente não posso acreditar que alguém jogaria isso no ar. Seja lá quem disse isso, está inventando”. Honestamente, seria uma surpresa gigantesca caso ele tenha usado hormônio na recuperação. Uma das marcas da carreira de Manning foi a ética profissional e o amor ao esporte. Usar uma substância que ferisse a integridade do esporte seria um duro golpe na alma daqueles que tanto admiraram sua carreira e não acredito que tenha ocorrido. A tendência é que Peyton aceite fazer a entrevista com a liga mesmo já tendo aposentado, uma vez que por suas declarações, não tem nada a esconder.

Uma pergunta e um pedido

Você sabe quem é Paul Zimmerman? Talvez não. Eu mesmo não o conhecia até me aprofundar – modéstia completamente a parte agora – no futebol americano e na imprensa escrita sobre este. Basicamente, sem ele, esta coluna não existiria. O jornalismo analítico sobre futebol americano, possivelmente, tampouco. Zimmerman foi um dos primeiros redatores sobre o esporte numa época onde praticamente só o beisebol gozava de reputação “intelectual” o bastante para haver pessoas escrevendo sobre. Por anos, Paul foi o redator-chefe da Sports Illustrated e a autoridade máxima na imprensa escrita sobre Futebol Americano Profissional. Você pode ler alguns dos muitos artigos dele para a SI por meio do arquivo da revista, é de graça. Só clicar aqui. Hoje aos 83 anos, Zimmerman está numa clínica de New Jersey após ter sofrido três derrames há oito anos atrás. Desde então, ele não consegue falar, ler, escrever ou compreender muito sobre o esporte que tanto amou e deu a vida sobre. Os custos da permanência dele nessa clínica foram parcialmente pagos por meio de seguro, mas ultimamente as coisas ficaram mais complicadas porque sua casa foi assaltada (e levaram uma coleção de moedas de Paul, a qual ajudaria a pagar pela clínica).

Enfim. Nesta semana o site MMQB – o qual é uma inspiração constante para o ProFootball – está fazendo uma semana especial para homenagear Paul Zimmerman e, de certa forma, ampliar a consciência acerca de sua importância. Não obstante, o editor-chefe do site – Peter King – está fazendo uma campanha para arrecadar fundos de maneira que a permanência de Zimmerman na clínica seja possível. Se você gosta minimamente do meu trabalho, dá uma olhada lá. Sei lá, me sinto meio que na obrigação de tentar ajudar de alguma forma – além da doação. Sei que no contexto brasileiro, falar sobre um cara que escrevia antes da NFL sequer pensar em ser popular por aqui é algo quase que surreal. Mas o ponto é que nosso site não existiria se os paradigmas não tivessem sido quebrados por Dr. Z. Ainda nesta semana o João Henrique Macedo fará um texto sobre o assunto.

Hello, Goodbye!

Nossa, muitos assuntos para falar em HG desta semana. É tanta coisa que eu vou fazer em tópico. Como nas últimas semanas Primeira Leitura foi feita em ensaios especiais, esta parte ficou de fora e eu não tive como te atualizar sobre generalidades da vida. Prepare-se para um rio de besteiras nesta seção mais trivial e offtopic da coluna.

  • Tem um tempinho que não jogo FIFA com o Oxford United FC – lembra, o time da quarta divisão da Inglaterra – mas desde então rolaram coisas bacanas. O chaveamento da League Cup foi bom o suficiente para uma semifinal contra o Everton na qual joguei no contra-ataque e ganhei. A final contra o Manchester United, uma semana depois deles me eliminarem nas oitavas da FA Cup, venci também por conta deles jogarem com reservas. Para a temporada seguinte, subi para a terceira divisão e, por incrível que pareça, vou jogar a Europa League. Isto é, se passar para a fase de grupo antes dos playoffs.
  • Falando em video-game, acho que quem me segue no Twitter já viu que pretendo operar um milagre e arrumar a casa com o Cleveland Browns no Madden. Aqui a playlist para quem se interessou. Pessoal tá dando um feedback muito bacana, estou realmente surpreso (positivamente) com isso.
  • Ainda, estou devendo uma última história offtopic: a maldita promessa. Era uma terça-feira comum na minha vida: estava assistindo à Copa América e passando pelo facebook. Eis que vi um post assim “cada like que este post tiver fico um dia sem refrigerante; cada comentário, um dia sem doce”. Achei que ia ser legal fazer isso no Twitter, porque vocês sabem que gosto de interagir com vocês. Que ideia imbecil. “Chegou a hora de você se vingar se um dia falei mal de seu time: para cada fav que este tweet tiver eu fico um dia sem doce e sem refrigerante”. Na moral, eu achei que ia dar uns 90, no máximo. Só que eu não contava que o Evê, o Ari e o Renan fossem dar RT enlouquecidamente nisso – aí deu 2200 e eu só posso beber Coca-Cola depois da Copa de 2022.
  • Se estou cumprindo? Lógico. Um balanço desses 22 dias sem refrigerante e doce:
    • Meu paladar ficou absurdamente mais sensível para coisas doces. Por exemplo, suco de laranja: antes eu precisava colocar açúcar ou adoçante no negócio. Agora ele por si só já é doce pra cacete.
    • Já foram quatro quilos pro espaço. Até que não está tão mal. Nas próximas semanas, sempre que surgir algo relevante sobre essa promessa, falo sobre aqui. Até porque ainda faltam 2180 dias.

Você pode mandar seu feedback de Primeira Leitura para meu twitter em@CurtiAntony ou via email para curti@profootball.com.br

Primeira Leitura: O que esperar dos Patriots com Garoppolo?

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