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Tarde de domingo. O New York Giants vem com apenas uma vitória na temporada – um ano apático, tomado por lesões e decepções. Sem sua maior estrela, Odell Beckham Jr, o vento de East Rutherford seria uma das poucas testemunhas no MetLife Stadium. Jogo 209 da mais longa sequência de um quarterback titular dentre os que ainda jogam.

A temporada, a bem da verdade, já tinha ido para o espaço. Com o Philadelphia Eagles deitando e rolando no topo da divisão e a repescagem da Conferência Nacional quase impossível se se alcançar, os Giants não lutavam por muita coisa fora o amor pelo jogo.

– Temos que seguir em frente – disse Eli, visivelmente emocionado. Após ir para a pós-temporada no ano passado, parecia difícil encontrar forças e motivação fora a ética profissional que lhe era peculiar. Que era peculiar a sua família, ao seu DNA. Seu pai, no New Orleans Saints, nunca teve uma temporada com mais vitórias do que derrotas. Seu pai era o bode expiatório. Ele ainda não sabia, mas o destino lhe reservaria algo semelhante. Mesmo assim, continuou motivando suas tropas.

– Nós merecemos a vitória. Merecemos nos sentir bem. Temos mais um jogo na quinta. Vamos nos sentir bem no Dia de Ação de Graças. Giants no três: um, dois, três, Giants!

Com mais um discurso gigante, Eli saiu do vestiário junto de seus companheiros de time. Do time campeão do Super Bowl XLII, quando ninguém acreditava nele ou no uniforme azul, só a camisa 10 restava. Até esta semana.

Naquele jogo, os Giants jogaram como nunca e não perderam como sempre. A defesa foi oportunista, o ataque fez o básico que já vinha tentando o ano todo. O Kansas City Chiefs, outrora invicto de campanha 5-0, ruiu no MetLife. Seriam poucas vitórias naquela temporada. Cada uma de uma forma mais sofrida e inesperada do que a outra. Naquele dia, tantas vezes como outrora, a vitória – por mais que as estatísticas ou o olho nu não mostrem isso – vieram por meio de Eli.

Sabe, às vezes é difícil escrever crônicas. Elas não saem naturalmente, não saem quando eu quero, quando eu sento-me à frente do teclado. Tal qual uma música ou um poema, elas precisam de inspiração. Hoje, nesta manhã de quinta, o sobrenome Manning e sua ética impecável me motivaram novamente. Como eles sempre conseguem fazer.

Eli foi colocado no banco de reservas depois de não topar o humilhante plano de jogo proposto por Ben McAdoo. Contra os Raiders, o treinador dos Giants queria colocar Eli no primeiro tempo – apenas para sua sequência continuar – e no segundo, Geno Smith entraria em campo. Aquele mesmo Geno que tem o pior rating dentre os quareterbacks com pelo menos 30 partidas. O de 210, teria a lateral de campo como companhia no terceiro quarto. O mais novo dos Manning não quis. Não precisava daquilo, não precisava macular sua sequência. Não precisava de algo que já não era mais dele. Não precisava de esmola.

Quem tem um coração como aquele, não precisaria disso. Ele pode não ter o braço mais lindo da NFL, pode não ter o melhor cérebro como seu irmão tinha. Mas ele tem coração. Isso, com dois anéis para provar, ninguém pode tirar dele.

Eli, na manhã de quarta, após a humilhação imposta por McAdoo, chegou mais cedo para trabalhar. Ele não seria o titular no domingo. Seria profissional. Cumpriria sua função. Ajudaria o calouro, David Webb, a se preparar. Não sabia como o futuro seria. Não sabia se jogaria com aquela camisa 10 azul de novo. Sabia que, no presente, tinha uma missão. Ser ético, ser profissional, dar o exemplo. Ser quarterback – algo que vai além de simplesmente passar a bola.

Quantos de nós não fomos injustiçados no trabalho alguma vez? Quantos de nós não achamos que temos mais talento do que nossa função nos reserva? Quantos de nós não fomos passados para trás e demos chilique, e deixamos a peteca cair? Eli passou por tudo isso. Quando tudo ruía, ele foi o líder que o time precisou. Quando ele precisou do time, McAdoo lhe colocou como culpado.

Salários podem medir importância, estatísticas podem medir interceptações, títulos, touchdowns. Mas não medem caráter. Não mede coração. Não medem Eli Manning.

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“RODAPE"