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Quem não acompanha o College Football tão a fundo talvez nunca tenha ouvido falar de Shaquem Griffin até poucas semanas. Além de não ser considerado um prospecto de “elite”, o linebacker fez sua carreira universitária em UCF (University of Central Florida), uma equipe que raramente figura nas transmissões televisivas de College para o público brasileiro.

Griffin, contudo, ganhou destaque nos noticiários esportivos há cerca de mês, depois de dar um verdadeiro show durante o Combine. O jovem de 22 anos atingiu o impressionante tempo de 4,38 segundos no tiro de 40 jardas, melhor marca por um linebacker desde 2003. Ademais, conseguiu 20 repetições no supino de 102 kg, sendo que anteriormente seu melhor resultado havia sido 11.

Tais números por si só já chamariam a atenção, porém um detalhe faz com que o desempenho de Griffin seja ainda mais impressionante: ele não possui a mão esquerda – no teste do supino, por exemplo, precisou utilizar uma prótese adaptada. Uma grave condição pré-natal chamada Síndrome da Banda Amniótica impediu o desenvolvimento do membro enquanto Shaquem estava no útero. Como consequência, ele nasceu com uma deformidade na mão esquerda e foi obrigado a amputá-la aos quatro anos de idade, pois sentia muita dor – segundo Tangie Griffin, sua mãe, Shaquem acordou com tanta dor na noite anterior à cirurgia que foi até a cozinha, pegou uma faca e queria ele mesmo fazer a amputação.

Superado este momento difícil de sua vida, Griffin seguiu em frente até se tornar um excelente jogador de futebol americano e um dos principais defensores do College Football. Agora, ele busca fazer história no Draft e continuar brilhando entre os profissionais.

O início problemático em UCF e a volta por cima

Shaquem possui um irmão gêmeo “mais velho” (60 segundos mais velho, para ser preciso) atuando na NFL. Shaquill Griffin é cornerback do Seattle Seahawks e foi draftado na terceira rodada do recrutamento de 2017. Ambos sempre foram muito ligados e na época de escola fizeram um pacto: eles iriam para a universidade juntos. Quando os grandes programas de futebol americano do país começaram a oferecer bolsas de estudo para Shaquill e não para Shaquem, certamente por conta de sua deficiência, a promessa foi cumprida. O mais velho recusou propostas de potências como Florida, Florida State e Miami para ficar com seu irmão. Foi então que UCF entrou em cena e fez uma oferta que agradou ambos.

Os anos iniciais de Shaquem com os Knights, entretanto, foram bastante difíceis. Em primeiro lugar, ao contrário de seu irmão, ele foi redshirt em sua temporada de calouro – por isso, aliás, que Shaquill entrou na NFL um ano antes. Em seguida, vieram os atritos com George O’Leary. Durante a gestão do treinador, Shaquem foi reserva o tempo inteiro e recebeu pouquíssimas chances de jogar. Isso o levou a acreditar que UCF só havia assinado com ele para ficar com seu irmão. Assim, o defensor cogitou pedir transferência para alguma universidade disposta a lhe dar mais oportunidades.

Porém, durante uma campanha desastrosa em 2015, O’Leary pediu demissão e o destino de Saquem começou a mudar. Scott Frost, o novo head coach, mudou sua posição – de safety para outside linebacker – e lhe deu chances reais de brigar pela titularidade. Griffin aproveitou e terminou 2016 com 92 tackles totais, 20 tackles para perda de jardas e 11,5 sacks, recebendo o prêmio de defensor do ano na Conferência AAC (a American). Na temporada seguinte, ele se consolidou como um dos melhores do time, ajudando os Knights a terminarem 13-0 e a derrotarem Auburn no Peach Bowl, partida na qual Shaquem foi eleito o MVP defensivo (12 tackles, 3,5 tackles para perda de jardas e 1,5 sacks).

Virtudes dentro e fora de campo

Certo, os números são ótimos e tudo mais, mas quais são as principais características e talentos de Griffin? Bem, primeiro temos a habilidade atlética, conforme vimos no Combine. Um linebacker correndo as 40 jardas abaixo dos 4,40 é algo absurdo. Shaquem é um pass rusher que adora utilizar sua força e velocidade para obter vantagem sobre os adversários. Ademais, possui bons instintos para a posição e uma técnica interessante, embora a mão amputada atrapalhe na hora de se livrar dos bloqueadores.

Além de pressionar os quarterbacks, Griffin também é capaz de ajudar defendendo passes, provavelmente graças à sua experiência atuando como defensive back no ensino médio e no começo da carreira universitária. Ao todo, foi alvo de 42 lançamentos e conseguiu desviar 13 – uma boa média. Shaquem, aliás, tem três interceptações no currículo.

Fora de campo, ele se destaca pela liderança e pela ética profissional. Shaquem passou o training camp de 2017 literalmente morando nas instalações esportivas de UCF. A ideia era focar nos treinos físicos e na análise de filmes. Sua história de vida, sempre precisando superar o preconceito e a desconfiança, é que provavelmente o faz ter uma dedicação acima da média. Ele também foi uma voz impactante no vestiário dos Knights nos últimos dois anos. Em suma, a postura/mentalidade de Griffin é o sonho de qualquer técnico.

O que esperar de Shaquem no Draft e na NFL

É claro que a deficiência de Griffin preocupa os olheiros das franquias – e não poderia ser diferente. As principais dúvidas recaem sobre a sua capacidade de finalizar as jogadas, ou seja, dar tackles com consistência e escapar dos bloqueios de offensive linemen profissionais.

A ausência da mão esquerda sem dúvida impactará Shaquem negativamente no Draft. O difícil é estimar quanto. Em 1945, o Boston Yanks selecionou Ellis Jones na oitava rodada do Draft. Jones ficou um ano na liga, disputou oito partidas e também era um linebacker com uma mão amputada. Isso, porém, aconteceu há tanto tempo que dificilmente servirá como parâmetro.

O fato é que, sobretudo depois do show no Combine, Griffin com certeza acabará sendo escolhido por algum time – é seguro afirmar que ele deixou a categoria de possível free agent não-draftado. Um levantamento feito entre os especialistas do site Sports Illustrated o colocou entre uma pick de final de terceira rodada, no melhor dos cenários, e uma pick de sexta rodada. Analistas de outros sites também têm uma opinião parecida, apontando Saquem como uma escolha de quinta ou sexta rodada. Enfim, ele deve ser selecionado no terceiro dia de recrutamento.



Agora, pensando no seu encaixe na NFL, é difícil enxergar Griffin como um outside linebacker tradicional, apesar da sua habilidade como pass rusher, até porque com 103 kg ele precisaria ganhar mais massa muscular para ocupar essa função. Saquem poderia voltar a ser defensive back ou quem sabe virar aquele híbrido de safety e linebacker popularizado por Deone Bucannon, o “moneybacker”. Outra alternativa seria utilizá-lo como pass rusher em formações especiais e jogadas óbvias de passe.

Seja como for, o início da trajetória de Griffin na NFL deve ser mesmo atuando no time de especialistas e, eventualmente, contribuindo na defesa. Depois de draftado, ele precisará batalhar diariamente para acabar com as dúvidas que o cercam e por um lugar no elenco final de 53 nomes.

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