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Digesto

O que é a Spread Offense: suas origens, evolução e impacto na NFL

O que é a Spread Offense: suas origens, evolução e impacto na NFL

O futebol americano é um esporte em constante evolução. Os estrategistas do jogo, no ataque e na defesa, sempre buscam inovações e alternativas para ter a vantagem no confronto com o oponente. Como grandes enxadristas, os técnicos tentam explorar as fraquezas dos adversários e, para isso, criam (ou recriam) sistemas de jogo que podem tomar conta do esporte em todos os níveis (em nível de ensino médio, universitário e profissional).

Essa briga de “gato e rato” entre especialistas em ataque e defesa vem acontecendo ao longo de toda a história do esporte e, periodicamente, um dos lados consegue dar um grande passo, chegar a um “xeque-mate”, ainda que temporário. Um desses passos, iniciado há mais de 60 anos, foi a criação e o desenvolvimento da chamada spread offense, literalmente um ataque “espalhado” pelo campo.

Hoje discutiremos as origens históricas deste sistema ofensivo, suas características estratégicas, bem como sua evolução ao longo dos anos. Além disso, abordaremos o impacto da atual disseminação dos esquemas ofensivos baseados na spread offense no futebol universitário na formação de jogadores, e o quanto pode interferir nas escolhas dos times profissionais no draft.

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Histórico

Ainda que, desde 1906, os passes para a frente tenham sido permitidos no futebol americano, durante a primeira parte do século XX, sua utilização foi restrita. À época predominava o estilo de jogo conhecido como “três jardas e uma nuvem de poeira”. Dentro deste estilo, obviamente predominavam os jogadores de força, e muitas vezes a principal função do quarterback era, acredite se quiser, o bloqueio em jogadas de corrida.

Talvez o pioneiro em aplicar os princípios do que viria a ser a spread offense tenha sido a equipe de TCU (Texas Christian University), comandada pelo técnico Dutch Meyer entre 1934 e 1952. Meyer defendia que o posicionamento “espalhado” dos jogadores de ataque por toda a largura do campo aumentava a distância entre os defensores, facilitando bloqueios e corridas e, eventualmente, passes. Entre os atletas de TCU neste período, cabe destacar o lendário quarterback Sammy Baugh.

Posteriormente, diversos técnicos se utilizariam do mesmo princípio (espalhar o ataque, fazendo a defesa ter que cobrir o campo todo) para desenvolver os diferentes estilos do que se convencionou chamar de spread offense. Spread, em inglês, poderia ser traduzido como “espalhada”.

Run and Shoot

Rotas com opção dos recebedores, característica do Run and Shoot

Glenn “Tiger” Ellison foi técnico de futebol americano escolar durante décadas. Depois de algumas temporadas malsucedidas utilizando primariamente o jogo corrido em formações fechadas, decidiu, em suas próprias palavras, fazer uma revolução. Uniu os conceitos básicos da spread offense com a utilização de rotas de recebedores com a opção de trajetos diferentes baseados na cobertura, e deu ao quarterback a missão de fazer a mesma leitura, deduzindo a direção da rota. Para que esse processo funcionasse, era fundamental o timing entre quarterback e receivers. Fato é que as equipes lideradas por Ellison obtiveram grandes resultados. Mas o run and shoot realmente explodiu a partir de seu uso na universidade, com o técnico Mouse Davis. Davis tinha, em sua equipe na universidade Portland State, grandes atletas, porém de tamanho insuficiente para o estilo de jogo dominante. Com o objetivo de dar espaço para que esses jogadores usassem seu potencial atlético, Davis instalou o sistema, alcançando grande sucesso, sempre utilizando quatro wide receivers, e three-step drops para o quarterback.

O run and shoot avançou dentro do futebol universitário, atingindo seu ápice na universidade de Houston nos anos 1980 e 1990, quando os quarterbacks Andre Ware e David Klinger bateram vários recordes de jardas e pontos. Outras experiências marcantes com o sistema ocorreram na mesma cidade. O Houston Gamblers, na extinta USFL, obtiveram sucesso ofensivo, comandado pelo quarterback Jim Kelly. Kelly, inclusive, declarou que Mouse Davis e o run and shoot o ensinaram muito sobre a posição e o esporte. Finalmente, a experiência mais bem-sucedida do sistema na NFL foi em (onde mais?) Houston, onde os Oilers e seu quarterback Warren Moon alcançaram números impressionantes. Vale destacar que no caso dos Oilers e dos Gamblers, uma coisa lhes ajudava bastante: o piso artificial do Astrodome. Sem as condições climáticas atrapalhando o desenvolvimento das rotas verticais, na prática era como se o piso fosse uma pista de atletismo.

Como com todos os sistemas ofensivos de grande sucesso, as defesas se adaptaram, e hoje em dia o run and shoot caiu em desuso – muito porque uma sequência ruim de passes longos poderia gerar várias campanhas terminadas em terceiras descidas longas após dois passes incompletos. Mas seus princípios ainda são encontrados em várias equipes em todos os níveis do esporte. Nada melhor para destacar isso que o ataque do New England Patriots, em que Tom Brady utiliza-se do spread para encontrar seus ‘pequenos” recebedores, primeiro Wes Welker, e hoje Julian Edelman.

One Back Spread

Bubble Screen - a revolução do One Back Spread

Bubble Screen – a revolução do One Back Spread

Paralelamente ao desenvolvimento do run and shoot, outros técnicos, em outras partes do país, seguiam utilizando os fundamentos do spread, com muito sucesso. Jack Neumeier seguiu uma trajetória similar à de Tiger Elisson, como um técnico de futebol escolar que decidiu fugir das “nuvens de poeira” e instalar um ataque que ocupasse toda a extensão do campo. Um de seus quarterbacks neste período foi um certo John Elway. Seu pai, Jack Elway, levou o sistema de Neumeier para a universidade, em San Jose State.

Entre as diferenças entre com relação ao run and shoot, no one back spread os tight ends têm papel importante, assim como uma maior variação de rotas, ocupando todo o campo não apenas na largura como no comprimento. O auge do sistema foi na Universidade de Miami, com o técnico Dennis Erickson e o quarterback vencedor do troféu Heisman, Gino Torretta, no início dos anos 1990.

Alguns anos depois, o one back spread ressurgiu com força em Washington State, com números impressionantes alcançados pelo quarterback Ryan Leaf, e também em Purdue, onde o técnico Joe Tiller acrescentou alguns detalhes extras ao sistema. Tiller, com Drew Brees como quarterback, integrou o bubble screen com parte do ataque. Desta forma, o spread chegou a outro patamar, sendo utilizado para passes atrás da linha de scrimmage, fazendo com que a defesa tivesse ainda mais campo para cobrir.

Na NFL, Dennis Erickson teve duas passagens como técnico principal (Seattle e San Francisco), sem grande sucesso. Apesar disso, aspectos do sistema estão disseminados em quase todas as equipes da NFL, particularmente no uso do bubble screen.

Air Raid

Alinhamento típico do Air Raid, com quatro rotas verticais e o QB no shotgun

Em 1972, a universidade BYU, em Utah, contratou o técnico LaVell Edwards, que trouxe consigo os auxiliares ofensivos Norm Chow e Doug Scovil. Juntos, eles criaram os princípios da variação da spread offense que se tornaria conhecida como air raid. Entre os princípios do sistema incluem-se o uso da velocidade entre jogadas, de modo a confundir a defesa, e muito frequentemente, rotas verticais para os quatro recebedores. Sempre com opções de acordo com a cobertura e o foco no timing com o quarterback, mas, desta vez, com o alinhamento preferencial no shotgun.

Hal Mumme pegou os fundamentos do air raid em BYU e os aperfeiçoou na Universidade de Kentucky. Mumme juntou ao conceito dos “quatro verticais” as rotas cruzadas e corridas pelo meio (draw runs), dificultando ainda mais o trabalho das defesas.

Mas o ápice do air raid foi alcançado com o discípulo de Mumme, Mike Leach, em Texas Tech, já nos anos 2000. Leach buscou uma agressividade cada vez maior, somando princípios da west coast offense, e aumentando o poder de decisão do quarterback, baseado na leitura da cobertura. Graham Harrell foi o quarterback de maior sucesso neste período.

O air raid se mantém em evolução, junto com Leach, hoje técnico em Washington State.

Spread Option

Formação da jogada chave da spread option - a zone read

Formação da jogada chave da spread option – a zone read

Chegamos então ao spread option. Em um momento em que as defesas se adaptavam aos diferentes estilos de spread offense, Rich Rodriguez e Urban Meyer criariam uma alternativa, transformando um ataque conhecido principalmente pelos passes em uma máquina do jogo terrestre.

Rodriguez instalou uma versão do run and shoot na pequena universidade de Glenville. Nesta versão o quarterback estava sempre no shotgun, e entregava a bola ao running back que estava ao seu lado. Rodriguez então adicionou outro elemento: a possibilidade de que o quarterback, baseado na leitura do posicionamento do defensive end (não bloqueado pela linha ofensiva), mantivesse a bola e corresse ele mesmo para o espaço aberto pela perseguição do defensive end ao running back. Nascia então o zone read. Rodriguez obteve o maior sucesso utilizando-se deste sistema em West Virginia, equipe liderada pelo quarterback Pat White.

Concomitante ao desenvolvimento do zone read por Rich Rodriguez, Urban Meyer criava sua própria versão em Bowling Green. O objetivo era sempre haver a possibilidade do quarterback correr com a bola, forçando a defesa a cobrir esta possiblidade, abrindo o jogo aéreo. O ponto máximo do ataque de Meyer foi, posteriormente, em Florida, onde encontrou o quarterback perfeito para o sistema no nível universitário: Tim Tebow.

Tem havido, na NFL, algumas tentativas de implantar o spread option como parte dos sistemas ofensivos. Vince Young nos Titans, Robert Griffin III em Washington e o próprio Tebow nos Broncos. Mas, considerando a força das defesas profissionais, e o alto valor investido em um quarterback, talvez não valha a pena investir em um sistema com alto risco de lesões e pouco sucesso comprovado na NFL. Talvez o exemplo mais bem-sucedido seja o de Russell Wilson, no Seattle Seahawks, mas esse sucesso advém em grande parte da inclusão do passe longo nas jogadas de zone read, mantendo as defesas “honestas” e abrindo o caminho para corridas longas. Mais: Wilson se desenvolveu num prolífico passador de dentro do pocket – e isso é essencial para o sucesso no nível profissional.

Impacto da spread offense na formação de jogadores

Sempre que, como agora, chegamos próximo dos dias do draft, surge a discussão do impacto da disseminação dos sistemas ofensivos baseados na spread offense na formação dos jogadores – ou melhor, em sua transição do nível universitário para a NFL. Particularmente com relação a jogadores que vêm de universidades que utilizam o spread option como base do seu ataque – sejam quarterbacks ou até mesmo jogadores de linha ofensiva.

Fracassos recentes de jogadores como Pat White, Tim Tebow e Vince Young, ainda que por motivos diferentes, trazem à luz a teoria da incompatibilidade entre quarterbacks de spread option com a NFL. Mais do que isso, se cada vez mais programas universitários caminham para alguma variedade de spread option, então cada vez mais quarterbacks serão estimulados a desenvolver as características adequadas a este sistema ofensivo.

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Na NFL, entretanto, a capacidade de ler a defesa, de se posicionar no pocket e, principalmente, a precisão nos passes, seguem como os traços fundamentais que um quarterback precisa para ser bem-sucedido. Para a equipe da NFL que busca selecionar um quarterback no draft, saber fazer esta diferenciação (traços x sistema) pode ser a chave para uma escolha correta.

Mas é claro que, como vimos no texto acima, diversos quarterbacks que jogaram em sistemas spread obtiveram sucesso na NFL. Mais uma vez, é a capacidade das equipes em olharem além das estatísticas “inflacionadas” é que pode diferenciar quem será a escolha. Afinal, vieram da spread offensehall of famers” (atuais ou futuros) como John Elway e Drew Brees, mas também “busts” homéricos como Ryan Leaf, David Klinger, Andre Ware, além dos já citados acima.

Quando se discute o impacto da spread offense na formações dos jogadores, acaba-se sempre dando muita atenção aos quarterbacks, até pela diferença que faz uma escolha certa ou errada nesta posição. Entretanto, talvez a posição que mais “sofra” com a proliferação dos ataques “espalhados” seja a de offensive tackle. Nos sistemas spread, os tackles têm sua função facilitada por precisarem bloquear os defensores por muito pouco tempo, afinal, os passes são muito rápidos. Desta forma, a proteção ao pocket de maneira tradicional acaba ficando em segundo plano. Laremy Tunsil, offensive tackle de Ole Miss, é um exemplo de jogador de linha ofensiva ligeiramente questionado por ter jogado no sistema com os Rebels.

Olheiros e especialistas em draft têm afirmado que a qualidade das classes de jogadores de linha ofensiva tem caído a cada ano. Não é à toa que temos visto um declínio na qualidade das linhas na NFL, com diversos times sofrendo com a dificuldade de proteger seus quarterbacks. Em um ano em que pelo menos quatro offensive tackles são considerados dignos de seleção na primeira rodada (Laremy Tunsil, Ronnie Stanley, Taylor Decker e Jack Conklin), é importante tentar diferenciar quem de fato pode ter sucesso na NFL.

Fato é que, dentro da evolução do futebol americano, os elementos que compõem a spread offense estão, literalmente, “espalhados” em todos os níveis do esporte. A NFL também precisa se adaptar, e seus olheiros, general managers e técnicos devem aprender a “traduzir” o desempenho dos atletas para as características e necessidades da liga profissional.

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