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O que você tem que saber sobre o Draft 2017 para não ficar perdido

O que você tem que saber sobre o Draft 2017 para não ficar perdido

Meu sonho é que um dia, aqui no Brasil, tenhamos fãs de NFL ávidos pelo Draft tal qual ocorre nos Estados Unidos. Infelizmente este ainda não é o cenário – podemos quantificar isso pelas visitas aqui no site, a título de exemplificação. Mas também não foi sempre assim nos Estados Unidos.

Até o início da década de 1980, o Draft sequer era televisionado nos Estados Unidos. Com a ESPN americana, então jovem (fundada em 1979) precisando estreitar laços com a NFL e sem opção de passar jogos, o Draft se tornou uma alternativa viável. Somando isso à corrida por quarterbacks e todo o drama de alguns dos recrutamentos daquela época – 1983 com vários quarterbacks escolhidos e John Elway não querendo jogar nos Colts, 1984 com a USFL assinando antes com os principais prospectos, 1985 e a corrida pelo pass rusher – o Draft começou a se tornar um hit durante a offseason. É o momento no qual a esperança se renova. O reality show antes do surgimento dos realities. Ver aquelas estrelas com cara de “tacho” na green room ao caírem no Draft. Ver sonhos se realizando. É entretenimento. A incerteza está presente. O aspecto humano está presente.

Um dia, talvez, o Draft seja popular no Brasil. Por enquanto ele ainda não é tão popular – até porque o College Football, em comparação à NFL, não é tão popular aqui no nosso país. Sendo assim, o Draft acaba tendo vários nomes desconhecidos e é difícil fomentar esse interesse. Ainda, considerando que as maiores torcidas por aqui geralmente escolhem no final do Draft, o interesse é difícil de ser mais fomentado.

Mas isso não quer dizer que não vamos tentar, né? Ao invés de simplesmente enfiar goela abaixo a nossa cobertura – que pode ser meio hardcore para quem está começando – vamos fazer um texto diferente aqui. Não é um tutorial de “como funciona o Draft”, isso faremos depois. Aqui, em termos mais simples, vamos escrever o que você precisa saber para assistir ao recrutamento no dia 27.

Antes de mais nada, você precisa saber as necessidades posicionais do seu time. Estamos fazendo uma série de 32 textos agora em abril – um para cada time. Já passamos da metade e praticamente só falta a NFC West e East. Você pode conferir o índice aqui – bem como pode se aventurar na cobertura mais densa do Draft ao clicar aqui, já escrevemos mais de 50 textos sobre o assunto. Ademais, se quiser, pode assinar o ProClub, nosso clube de benefícios. Além de sorteios de jerseys, livros e camisetas, vamos enviar aos sócios um PDF com nossa cobertura condensada – assim, você poderá ler numa tacada só o que é mais necessário.

Falando no que é necessário, vamos ao básico do que você precisa saber.

Esta é uma classe defensiva

Sinceramente, eu não sei se teremos um ponto fora da curva ou se estamos diante de uma tendência duradoura. A questão é que os sistemas ofensivos do College Football podem estar tendo um impacto forte no nível de jogo dos jovens da NFL – sobretudo no lado ofensivo da bola.

Para resumir a história: os ataques do College, em sua maioria, são mais simples, fortemente em formação shotgun, com recebedores espalhados no campo (spread offense) e muitas vezes carregados de read-option. Isso não acontece na NFL também porque no College as defesas são mais simples – eles têm menos tempo para treinar, dado que são estudantes-atletas, e o talento é pulverizado em 128 universidades na primeira divisão. No nível profissional, após a “filtragem”, as defesas são mais complexas, atléticas e mais treinadas. Assim, as pirotecnias do College não funcionam na NFL.

E como o college NÃO é categoria de base da NFL, os treinadores do nível universitário não estão nem aí se seus jogadores vão sofrer para se adaptar no nível profissional. Embora ajude na “propaganda” do recrutamento, eles querem ganhar – não formar atletas para a NFL. Sendo assim, a maioria das comissões técnicas escolhe os métodos mais eficientes para vencer. Ou seja: spread offense.

O “problema” para os jogadores desses sistemas é que eles chegam crus no nível profissional. Marcus Mariota nunca tinha recebido um snap que não fosse em pistol ou shotgun. Jared Goff nunca tinha chamado uma jogada no huddle. Os prospectos deste ano na posição de quarterback acabam sofrendo de “problemas” semelhantes. Falei sobre aqui neste texto.

Ademais, o problema também aparece para os jogadores de linha ofensiva. Em spread, os passes saem mais rápido – e com quarterbacks móveis extendendo jogadas para fora do pocket, os linhas não precisam “segurar” seus bloqueios pelo tempo que precisarão nos profissionais. Por tabela, temos uma das classes de linha ofensiva mais cruas dos últimos anos.

Dos 15 melhores prospectos do Draft 2017 – em breve publico meu board – tenho apenas quatro jogadores ofensivos. Dois tight ends e dois running backs (os quais não são funcionais em TODOS os times, mas apenas em alguns).

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Em compensação, esta é uma classe rica em running backs

Para compensar a ausência de jogadores de linha ofensiva e de quarterbacks entre os melhores do Draft, temos (finalmente) running backs para todos os gostos. Embora haja algumas diferenças entre o jogo profissional e o universitário, há algumas tendências em comum entre eles. Uma delas é que o futebol americano ficou mais “aéreo” na última década. Por tabela, a demanda por corredores diminuiu. Seu valor no Draft, também.

2017 é um ano fora da curva neste sentido. Nos últimos anos tínhamos uma estrela correndo com a bola – Todd Gurley/Ezekiel Elliott. Neste, embora não tenhamos nenhuma unanimidade na posição, há maior profundidade de talento. Leonard Fournette (LSU), embora não sirva em todos os sistemas, é aquele corredor clássico, ao estilo O.J. Simpson (odeio ter que fazer esta referência, mas tenho que considerar o dentro de campo de O.J.). Christian McCaffrey (Stanford) é formidável ao receber passes. Dá para dizer sem medo que ele corre rotas melhor do que muitos prospectos da posição de wide receiver.

A profundidade de talento é grande, com nomes que podem melhorar significativamente um time. Aparte do problema de caráter, Dalvin Cook (Florida State) e Joe Mixon (Oklahoma) devem ser escolhidos nas primeiras rodadas. Além deles, Alvin Kamara (Tennessee), Samaje Perine (Oklahoma), D’Onta Foreman (Texas), James Conner (Pittsburgh) e Wayne Gallman (Clemson) são todos nomes que podem facilmente sair nas três primeiras rodadas.

Mas nada se compara à profundidade de talento da posição de cornerback

Sério, nada. O Gabriel Moralez escreveu muito bem neste texto, o qual tem um título que ilustra a situação. 2017 é o ano do cornerback. Embora a classe tenha alguns jogadores que podem sofrer com lesões, ela tem estrelas E profundidade de talento.

Um time como o Chicago Bears, por exemplo, pode se dar ao luxo de escolher um pass rusher ou um safety com a terceira escolha do Draft E escolher um cornerback ótimo na escolha 34. Conforme o Gabriel escreveu: Para dar maior ênfase no que estamos falando, pensamos ser interessante abrir aspas para alguns especialistas da mídia norte-americana. Daniel Jeremiah, do site NFL.com, disse: “O Draft 2017 reúne o grupo mais profundo de cornerbacks e safeties que eu já vi desde que comecei a fazer análises há 14 anos.”

Mike Mayock, também do site oficial da liga, analista da NFL Network no dia do Draft e dono de uma das opiniões mais respeitadas no meio, afirmou o seguinte: “A média é de 12 cornerbacks saindo nas duas primeiras rodadas nos últimos anos. Posso te dar 17 ou 18 nomes que eu tenho com notas entre as rodadas um e três. Alguns técnicos me disseram na outra noite que eles pegarão um cara na quinta rodada que deveria sair na segunda”. Sim, é esse o nível de qualidade que estamos falando.

Talvez agora você esteja se perguntando o que faz dessa classe tão especial. Bem, primeiramente, um número acima da média de atletas com belas carreiras universitárias e potencial para brilhar no nível profissional. Em segundo lugar, variedade de características e habilidades. Existem cornerbacks para todos os gostos e necessidades, desde os mais físicos, que pressionam os recebedores na linha de scrimmage e se sobressaem na marcação homem a homem, até os especialistas em fazer cobertura por zona. Obviamente um corner de elite precisa saber fazer as duas coisas, porém sempre existe um certo grau de afinidade com um sistema ou outro.

Marshon Lattimore e Gareon Conley (Ohio State), Kevin King (Washington), Marlon Humphrey (Alabama), Adoree’ Jackson (USC), Quincy Wilson (Florida) e Tre’Davious White (LSU) são todos nomes que poderiam sair na primeira rodada. Sim, na primeira rodada,

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Myles Garrett deve ser a primeira escolha – é muito difícil que não seja

O regime do Cleveland Browns não está para brincadeira. O time brilhou ao praticamente trocar dinheiro pela escolha de segunda rodada de Houston no próximo Draft (com o cosplay de poste, Brock Osweiler, vindo de brinde). Ademais, o time fez ótimas contratações na free agency, bem reforçando a linha ofensiva.

Ao que tudo indica, é justamente isto que demonstra que os Browns estão com uma abordagem diferente das catástrofes anteriores que fez no Draft. O time parece ter percebido que uma equipe se reconstrói por meio das trincheiras. Dar tempo para seu quarterback e tirar tempo do quarterback adversário. No primeiro caso, dada a classe fraca de OL neste próximo Draft, os Browns se reforçaram com veteranos. No segundo, devem escolher com a primeira escolha geral aquele que deve ser o melhor pass rusher no Draft (considerando apenas como prospecto) desde Von Miller. Curiosamente, ambos vieram da mesma universidade, Texas A&M.

Além de ter destruído linhas ofensivas na melhor conferência do College Football (se não em vitórias de bowls, ao menos em talento acredito que a SEC ainda o seja), Garrett não deixou pedra sobre pedra no Combine. Você não vê caras com esse tamanho – 123kg – com 4,64 segundos no tiro de 40 jardas. Mesmo jogando com lesão no tornozelo durante boa parte da temporada passada, ele ainda teve 8,5 sacks. Ademais, Garrett pode jogar em vários esquemas (preferencialmente 3-4 OLB).

Por que não gosto desta classe de quarterbacks

Como já dito acima, a classe de 2017 é defensiva. Para você ter ideia, com sorte, eu vejo no máximo três jogadores ofensivos saindo entre as dez primeiras escolhas. Quatro se muito – alguns drafts simulados colocam apenas dois. E num ano assim, como leitura indireta temos como resultado que a classe de quarterbacks é fraca.

A demanda por quarterbacks sempre é alta. É muito difícil haver 32 titulares de elite, então sempre vamos ter um time procurando pelo próximo Tom Brady. Alguns analistas de Draft – Todd McShay, da ESPN americana – rotulam esta como uma das piores classes de quarterbacks que ele se lembra. Talvez tão fraca quanto a de 1984 , quando o primeiro quarterback escolhido foi Boomer Esiason (2ª rodada) ou 1996 (o último ano no qual não houve nenhum QB escolhido na primeira rodada). 2013 é um ano lembrado também, com apenas E.J Manuel escolhido na primeira rodada. Claro: a demanda atual por QBs faz com que a oferta, que nunca bate com a demanda, gere escolhas de primeira rodada de um jeito ou de outro. Haver nenhum under center escolhido em primeira rodada no Século XXI é virtualmente impossível.

Para deixar claro: eu, Curti, não me sentiria confortável em escolher nenhum desses quarterbacks na primeira rodada. Prefiro um tampão com Mike Glennon do que jogar Mitchell Trubisky na fogueira. Isso não quer dizer que são todos um lixo e que nunca vão dar em nada. Só quer dizer que eles são prospectos crus – como vem sendo a tendência com o festival de spread offense do College Football.

DeShaun Watson (Clemson) é um vencedor, mas Tim Tebow e Johnny Manziel também foram. Watson tem problemas graves na “mira” (accuracy/ball placement) nos passes médios e longos. Ter Mike Williams e um corpo de recebedores excelente ajudou bastante a vida de Watson, finalista do College nas duas últimas temporadas e campeão ano passado.

Mitchell Trubisky (North Carolina) é uma incógnita e eu odeio o fato de que ele teve apenas um ano de titular em North Carolina – ademais, ele teve uma partida cheia de erros quando pressionado no bowl game contra Stanford (incluindo duas interceptações pavorosas). Trubisky tem a mecânica mais refinada da classe – o que fez com que ele subisse tanto de valor, dada a mecânica pavorosa do resto – mas ao mesmo tempo tem problemas severos de presença de pocket.

DeShone Kizer (Notre Dame) tem um teto altíssimo, provavelmente o maior da classe. A inteligência e a habilidade atlética estão presentes – mas tal como Watson, os erros mentais e o problema de mira (principalmente de passes fáceis e curtos) também estão. Não nos esquecemos que a temporada de Notre Dame no ano passado foi caótica, mas também não é como se a de Stanford em 1982 tivesse sido linda e isso não afetou Elway. Ademais, a produtividade de Kizer caiu após ele perder várias peças ofensivas – Will Fuller (WR) e Ronnie Stanley (LT), notoriamente. Será que não era o conjunto que lhe ajudava? Essa é a incógnita.

Brad Kaaya (Miami) foi uma pinhata em Miami e precisa de um sistema propício – algo no teor West Coast – para funcionar (leia-se: não tem braço forte para lançamentos de maior distância e pode ter problemas se jogar num time do norte dos EUA, onde as condições climáticas – vento/chuva/neve – atrapalham a vida).

Joshua Dobbs é um projeto de Dak Prescott, como o Jean Souza – também redator do ProFootball – me disse agora há pouco no Whats. Ele é inteligente, a mobilidade me apetece, mas o outro lado da moeda é o gatilho rápido demais por conta dessa mobilidade. Ou seja: ele quer resolver a parada com as pernas ao invés de fazer a progressão de recebedores. Embora a acurácia para passes no meio do campo seja louvável para os padrões desta classe, os passes outside the numbers (nas laterais) sofrem com erros de colocação de bola (olá Watson, aliás).

E aí, ainda nesse time de primeira/segunda rodada, você tem a máquina de jardas de Patrick Mahomes II (Texas Tech) – um cara vindo daqueles sistemas ofensivos pirotécnicos do College. No caso de Mahomes, o sistema (Air Raid) mascara inúmeros problemas – trabalho de pés, por exemplo.

A classe deste ano vai precisar de muito trabalho – mais comissão técnica excelente e um cenário propício – para atingir o potencial. Como o João Henrique Macedo me disse no grupo de Whatsapp da Redação do ProFootball, em essência você tem quarterbacks com teto baixo de produtividade – Trubusky/Watson – OU alto risco/alto recompensa – Kizer/Mahomes. Não há um Andrew Luck, não há um John Elway, não há um Peyton Manning.


“RODAPE"

Ufa, é só?

Já passamos das 2000 palavras, então acho que podemos parar por aqui. No mais, saiba que temos dois safeties bem cotados em Jamal Adams e Malik Hooker – e isso vem sendo raro ultimamente. A posição de tight end também está mais talentosa que ultimamente, com O.J. Howard e David Njoku provavelmente sendo escolhidos na primeira rodada.

Sobre trocas, não creio em muitas. O que costuma apetecer um time querendo trocar é quarterbacklinha ofensiva – e ambas as classes não são excelentes. Dentre as possibilidades de troca, conforme o Gabriel escreveu aqui, temos trade downs por parte de Cleveland/Tennessee, troca para cima por Carolina para pegar um defensor de elite, os Cardinals querendo subir (eles têm a 13ª) para não perder um quarterback para Cleveland na 12ª e, por fim, os Texans escalando do fim da primeira rodada também por um quarterback.

Ainda teremos outro texto bastante importante nesta cobertura: os gatilhos do Draft. Coisas que, se acontecerem, farão com que uma sequência entre em ação. Como naquele filme, Efeito Borboleta, sabe? Então, seria algo assim. Caso os Panthers não escolham Leonard Fournette, por exemplo, ele deve cair – porque nem todos os times querem apostar num running back que joga mal saindo em formação shotgun.

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“RODAPE"

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