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“Não gosto de citar nomes, mas [Ryan] Fitzpatrick ainda está jogando? Ele lidera a liga em interceptações e estão pagando ele, ¨%$%$#? Digo… Que p%$%#$# está acontecendo?”1. Vince Young não parece muito contente com o estado das coisas na NFL. Tampouco com o fato de que, outrora escolha de primeira rodada no Draft de 2006, ele não tem emprego na National Football League – tampouco oportunidades.

Aos 34 anos, Vince Young está longe de uma partida de temporada regular desde 2011. A mente nunca pareceu aguentar a demanda de estudos para uma partida do nível profissional. O corpo já não aguenta mais absolutamente nada. Young tentou voltar ao campo de futebol americano neste verão. Ou melhor: ao campo de futebol canadense. Após uma sondagem pelo (time com nome mais legal no mundo) Saskatchewan Roughriders, o ex-Titans chegou a tentar entrar no gramado e treinar. Em vão: machucou a parte posterior da coxa e foi cortado pelos Roughriders antes da temporada da CFL (Canadian Football League) começar.

Foi apenas mais um corte.

Ele até tentou na NFL antes, há três anos. Em maio de 2014, o ex-Texas Longhorns viu o Cleveland Browns lhe dar uma oportunidade que parecia, aos olhos de todos, ser a última: um contrato de um ano. Young foi cortado após os Browns hipotecarem sua alma por Johnny Manziel. Após tal fato, ele se aposentou – os números não impressionavam: 46 touchdowns e 51 interceptações na carreira2. O que aconteceu para que o Calouro Ofensivo de 2006 fosse ao inferno assim? Antes disso, temos que entender como ele chegou ao céu.

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Hoje é um tanto quanto duvidoso acreditar que Texas consiga voltar rapidamente ao topo do college football em um curto espaço de tempo. Mas em 2005, nenhum time parecia melhor. Vince Young, que fora considerado um dos melhores recrutas dos Estados Unidos quando ainda no Ensino Médio, viveu uma montanha-russa de emoções como herói no Texas.

“Você não pode ligar uma televisão em Houston sem ver Vince Young. Você deve vê-lo mais do que os Texans. Ele era tipo o LeBron James de Houston quando estava saindo da escola”, disse3 Rodrique Wright, companheiro de equipe de Young na faculdade. Talvez você já tenha ouvido falar que o futebol americano é quase religião no Texas. Quando um herói como Young aparece por lá, tudo é potencializado.

Ele escolheu os Longhorns, então maior potência universitária do Estado. Isso era antes de Texas A&M, Baylor e TCU alçarem vôos mais altos no college. Na primeira metade da década passada, Texas era a potência a ser batida e o celeiro de futuras estrelas da NFL.

“Você não pode ligar uma televisão em Houston sem ver Vince Young”

De início, Young não teve uma aceitação tão grande com a comissão técnica. “Intreinável”4, teria dito um técnico em uma oportunidade. Mesmo com os olhares incertos, Mack Brown – head coach dos Longhorns na época – apostou em Vince e num ataque desenhado especialmente para ele. Você já viu esse ataque: dez anos depois ele seria a menina dos olhos na NFL: a read-option. Mudar para tal sistema fez com que as virtudes de Vince fossem potencializadas. Os problemas, minimizados. O resultado? Histórico.

No primeiro ano de Young como titular em Texas (2004), os Longhorns terminaram o ano com 11-1 – a única derrota veio para a rival Oklahoma – e venceram o Rose Bowl ante Michigan. Ali, a reputação começou a crescer e os motivos ficaram aparentes. Formações em I/Singleback (com o quarterback atrás do center) foram apagadas e o ataque dos Longhorns só operava em shotgun com três ou mais recebedores. Com Young sendo ameaça terrestre e defesas do college sendo menos atléticas e complexas, a Estrela da Morte estava preparada para atacar.

Atacou, no ano seguinte. Onze vitórias na temporada regular – nenhuma derrota. O fantasma contra Oklahoma foi exorcizado. O palco final seria a partida contra USC, a outra potência da época (a qual, igualmente, teve uma década de 2010 mais apagada). Os Trojans venceram a conferência Pac-10 e eram os #1 no ranking do BCS (a forma pela qual a final era organizada até 2013, com os dois melhores de um ranking se enfrentando em jogo único).

O Rose Bowl de 2006, disputado no início do ano, seria quase como um tira-teima para saber quem era o melhor quarterback daquela classe – o Draft de 2006 ainda contava com Jay Cutler, fazendo maravilhas pela pedestre Vanderbilt. Vince Young contra Matt Leinart. Destro contra canhoto. A partida foi a primeira que assisti, na tv, de college football. Já assistia a NFL, claro – mas o college era uma novidade interessante. A atmosfera era diferente; Como brinco, é como comparar a Champions League com a Libertadores. Poucas coisas, em esportes americanos, superam a atmosfera de um jogo universitário.

O jogo, conforme postei mais cedo nesta semana, está inteiro em HD no YouTube e é um dos melhores da história. Não só do college, mas do futebol americano como um todo. Vince Young só não usou capa, mas foi herói naquele 4 de janeiro. Foram 200 jardas corridas. 267 passadas. Três touchdowns corridos.

Após o título nacional – último de Texas até hoje – seria a hora do Draft. Tal como Deshaun Watson em 2017, a performance de Young na final do college catapultou seu valor em abril. Ele foi o primeiro quarterback a ser escolhido naquele ano. No final das contas, não que isso queira dizer muito: quando Jay Cutler é o quarterback com melhor carreira numa classe do Draft, algo está errado.

Muita coisa estava errada com Young. Sua pirotecnia universitária maquiou seus defeitos e imaturidade. Em resumo, Vince era rotulado como ótimo corredor/pífio passador. Sua mecânica (a chamada side arm5, na qual a bola não vem sobre o ombro mas, sim, ao seu lado no momento da soltura) era crua e criticada. De toda forma, os Titans apostaram nele no Draft. E é aqui que a carreira começa a queda. Mas não sem antes planar.

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Se os problemas com a mecânica já eram muitos, o resultado do Wonderlic – espécie de teste de QI que os jogadores fazem antes do Draft – acabou assustando6. Young conseguiu 6 dos 50 pontos possíveis. Após a confusão inicial e desculpas do gênero “o empresário dele não lhe preparou direito”, Vince refez o teste e marcou 16 pontos. Ainda baixo, mas aceitável e que indicaria que ao menos ler ele sabia. O problema foi outro tipo de leitura: a de defesas.

“Toda a diversão acabou. Toda a empolgação se foi”

De toda forma, ele foi o quarterback calouro com melhor campanha naquele ano – chegando a liderar vitórias no final de partidas, tal qual fez em Texas. Eleito o calouro ofensivo do ano, Young foi agraciado (?) com a maldição capa do Madden seguinte, a edição 08. Para muitos, é a edição definitiva do game – dado que foi a última feita para PCs.

Young, contudo, não parecia contente. “Eu realmente pensei bastante sobre isso… Tem tanta coisa rolando com minha família. Foi maluco ser um quarterback de NFL. Não era divertido mais. Toda a diversão acabou. Toda a empolgação se foi. Tudo o que eu fazia era estar preocupado com as coisas”7. As declarações pareceram como “estou pensando em me aposentar”. Não foi o que aconteceu. Ele estaria de volta para a temporada seguinte.

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Jeff Fisher era o técnico dos Titans na época. O relacionamento entre os dois nunca foi dos melhores. Já no início da temporada de 2007, começou a ficar ainda mais tumultuado. Fisher colocou Young no banco na primeira partida da pré-temporada daquele ano “porque Young violou regras do time”. A regra? Dormir fora da concentração. A temporada de 2007 continuou como presságio do que viria. Mais interceptações (17) do que touchdowns (9) passados e uma lesão na partida final da temporada. Os Titans ainda – graças a sua forte defesa – conseguiram se classificar para os playoffs. Perderam para os Chargers em jogo no qual seu quarterback não fez muita coisa.

A temporada posterior parecia ser a da esperança renovada. Tennessee tinha uma defesa forte, um sólido ataque terrestre e tudo parecia se encaixar. Aí veio mais uma lesão: Young machucou seu joelho na primeira partida do ano, contra os Jaguars.

Depois de romper o ligamento do joelho esquerdo, ele não foi para o exame médico que deveria ter ido. A imprensa descobriu que ele saiu de casa carregando uma arma e tudo foi potencializado: parecia que a ex-estrela estava deprimida e suicida. Após ser vaiado pelos fãs, Young tinha uma expressão corporal de quem estava deprimido. Sua mãe, Felicia Young, ficou preocupada com o sumiço e ligou para os Titans. O técnico, Fisher, ligou para a polícia. E tudo vazou.

Segundo o quarterback8, ele chegou nas instalações dos Titans e havia oito policiais e mais um negociador para evitar que ele se matasse. Young jura de pé-junto que não queria se matar – e que tudo aquilo foi orquestrado para que Fisher tivesse um motivo para se livrar dele. “Estava olhando para Fisher e tipo, para com isso”, disse Young em entrevista. “Ele estava sentado lá e não dizia nada. […] Parecia tudo uma grande armação. Agora eu tenho que andar em aeroportos como um cara suicida”.

Young, visivelmente frustrado, Jeff Fisher e Kerry Collins observando a próxima jogada a ser chamada: Um triângulo amoroso em Nashville

Armação ou não, Jeff Fisher colocou Kerry Collins em campo naquele ano. E Collins fez o que sabia melhor; não estragou tudo e não foi interceptado a rodo (como Vince provavelmente seria). Com Brady machucado naquele ano e um Colts fraco na primeira metade da temporada – o time venceu as nove últimas partidas, mas começaram cambaleantes – Tennessee conseguiu a melhor campanha da Conferência Americana, com 13-3. A defesa e o jogo terrestre foram pilares de uma equipe que já não era mais de Vince Young.

Eliminados nos playoffs em partida apagada e comandada pela defesa de Baltimore, os Titans contavam com Collins como quarterback titular para a temporada de 2009. Tennessee perdeu as seis primeiras partidas. Com a imprensa local, o dono do time e a torcida pressionando, Jeff Fisher não teve escolha senão colocar Young em campo. Mas não sem antes fazer questão9 de quem queria que fosse seu líder. “Ainda estou do lado de Kerry Collins, porque eu não acredito que nossa campanha seja reflexo de como o quarterback está jogando. É reflexo de como o time está jogando. Ainda estou do seu [Collins] lado, mas decidimos fazer a mudança”. Young ajudou os Titans a vencer. Em 2009, oito vezes das dez restantes, diga-se de passagem.

Aquele foi o último brilho na careira do quarterback. O clima com Fisher continuava indo de mal a pior. Na temporada posterior, 2010, o time começou com campanha de 5-4. Na Semana 11, em derrota para Washington, o ex-Longhorns machucou o tendão em seu polegar direito e ficou de fora de metade da partida, a mando de Fisher. Depois do jogo10, ele jogou seu shoulder pad na torcida, brigou com Fisher no vestiário e a gritaria foi generalizada. Em janeiro, Young foi cortado do elenco.

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Aí veio o que parecia ser uma segunda chance: em 2011 ele assinou com o Philadelphia Eagles – onde rotulou o elenco como “Dream Team”. 12 jogos depois, os Eagles estavam com campanha de 4-8 e Young tinha uma vitória e duas derrotas como titular na Philadelphia. Seria o último jogo do quarterback. Em 2012, Young assinou com os Bills. Em 2013, com os Packers. Em maio de 2014, com os Browns – sendo cortado 12 dias depois. Na ocasião, ele pesava mais de 110 quilos, um absurdo de tão acima do peso. Agora veio a chance no Canadá. Em vão.

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Ele não encontrará mais espaço na NFL e nem em nenhuma outra liga profissional. O timing não foi correto. Podemos dizer que ele estava à frente de seu tempo. Se fosse calouro em 2012, com a pistolfest de quarterbacks que correm (não tenho nenhuma saudade) – e ele estivesse mais talvez ainda haveria espaço hoje. Isso é: mesmo que inevitavelmente os coordenadores defensivos da AFC South lhe anulassem com o tempo – tal qual os da NFC West fizeram com Kaepernick.

Quantos de nós não vivemos os melhores anos de nossas vidas nas universidades? Quantos de nós não queríamos ter aquela diversão que tínhamos quando éramos jovens? O ponto é que Young não entendeu que a vida segue. De estrela badalada em Austin, ele teve que ralar pelo cheque ao final do mês em Nashville. É, certamente, uma história de como não traduzir os talentos universitários para o nível profissional.

Vince Young é a epítome do melhor que parou na faculdade.

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“RODAPE"

  1. http://www.espn.com/nfl/story/_/id/19750735/vince-young-questions-why-ryan-fitzpatrick-job Acesso em: 9 de julho de 2017
  2. http://www.pro-football-reference.com/players/Y/YounVi00.htm Acesso em: 09/07/2017
  3. http://www.hookem.com/story/texas-countdown-football-5-longhorns-houston-remember/ Acesso em: 9 de julho de 2017
  4. https://sportsday.dallasnews.com/college-sports/collegesports/2017/07/01/college-football-legend-latestsi-interview-vince-young-sounds-like-bitter-wannabe Acesso em: 09 de julho de 2017
  5. http://www.ign.com/boards/threads/what-exactly-is-wrong-with-vince-youngs-throwing-mechanics.107101519/ Acesso em 9 de julho de 2017
  6. http://bleacherreport.com/articles/609895-2011-nfl-draft-10-worst-wonderlic-scores-in-combine-history Acesso em: 08 de julho de 2017
  7. http://bleacherreport.com/articles/1527639-where-did-it-all-go-wrong-for-vince-young Acesso em: 09 de julho de 2017
  8. https://sportsday.dallasnews.com/college-sports/collegesports/2017/07/01/college-football-legend-latestsi-interview-vince-young-sounds-like-bitter-wannabe Acesso em: 09 de julho de 2017
  9. https://usatoday30.usatoday.com/sports/football/nfl/titans/2009-10-29-vince-young-kerry-collins_N.html Acesso em 9 de julho de 2017
  10. https://www.musiccitymiracles.com/2016/5/26/11778868/music-city-moments-vince-youngs-final-meltdown Acesso em 9 de julho de 2017