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Pouco mais de 23 anos após o “The Greatest Game Ever Played” original, ou seja, a final da NFL de 1958 entre Giants e Colts, o futebol americano proporcionou aos seus fãs outra partida com uma dose igual (ou talvez até superior) de drama e emoção.



No dia 2 de janeiro de 1982, no Orange Bowl, em Miami, Dolphins e Chargers protagonizaram um duelo que entrou para história e reescreveu várias páginas no livro de recordes do esporte. Válido pelo Divisional Round da temporada 1981, o confronto acabou recebendo três apelidos, o que demonstra sua grandiosidade: “The Epic in Miami”, “The Miracle That Died” e “The Game No One Should Have Lost”1.

Liderados pelo quarterback Dan Fouts e pelo ataque até então mais prolífico de todos os tempos, San Diego precisou de quase 74 minutos de jogo para vencer os donos da casa por 41 a 382. Miami, por sua vez, ficou com o gosto amargo de desperdiçar várias chances e quase ter conseguido uma das maiores viradas na história dos playoffs. Ademais, o tight end Kellen Winslow teve uma das atuações individuais mais impressionantes de que se tem registro.

Não bastasse tudo isso, o clima também foi um fator. O calor de 24ªC combinado com a umidade do ar de 80% fez a sensação térmica subir acima dos 30ºC. Como consequência, o desgaste físico dos atletas foi extremamente alto, ainda mais por se tratar de uma partida com prorrogação. O próprio Winslow precisou ser carregado para fora de campo pelos companheiros quando o confronto terminou.

O auge de Fouts e da filosofia Air Coryell

Antes de Drew Brees, Brett Favre, Peyton Manning ou Dan Marino, havia um outro rei das jardas aéreas na NFL e seu nome era Dan Fouts. Atuando no sistema ofensivo conhecido como Air Coryell, idealizado pelo head coach Don Coryell e com foco nos passes em profundidade, o quarterback liderou a liga em jardas aéreas quatro vezes seguidas (1979 a 1982).



“canecas"

O auge desse ataque ultraprodutivo, contudo, foi justamente em 1981, quando Fouts quebrou o recorde de jardas lançadas em uma mesma temporada (4,802) e atingiu a expressiva marca dos 33 passes para touchdown. O poder de fogo dos Chargers era tão grande nessa época que o ataque possuía três futuros membros do Hall da Fama: Fouts, Winslow e o wide receiver Charlie Joiner . Sem contar uma ótima linha ofensiva e o running back Chuck Muncie, responsável por 19 touchdowns terrestres no ano.

Em compensação, a defesa era bastante fraca e ficou nas últimas posições nos rankings da NFL de jardas e pontos cedidos. Ainda assim, a franquia conquistou o título da AFC West e o #3 seed da conferência com uma campanha de 10-6, superando os Broncos nos critérios de desempate.

Já os Dolphins não tinham um elenco individualmente tão estelar, mas apostavam na capacidade do técnico Don Shula montar equipes competitivas. Embora tivesse que lidar com instabilidade na posição de quarterback (David Woodley e Don Strock alternavam a titularidade durante as partidas), o lendário treinador, head coach em Miami entre 1970 e 1995, conseguiu guiar o time a um record de 11-4-1 suficiente para assegurar a segunda melhor campanha da AFC.

O jogo: reviravoltas, drama e chances perdidas pelos dois lados

San Diego não se importou com o calor ou a torcida adversária e começou a partida com tudo. No final do primeiro quarto, o placar mostrava um surpreendente 24 a 0 para os visitantes. O kicker Rolf Benirschke inaugurou o marcador com um disparo de 32 jardas. Logo na sequência, os Chargers retornaram um punt 58 jardas para a end zone com Wes Chandler. A equipe ainda anotou outros touchdowns com Muncie e James Brooks, este último após a defesa interceptar um passe Woodley.

No início do segundo quarto, Shula decidiu trocar Woodley por Don Strock. O substituto era um reserva de longa data que nunca havia feito nada de muito notável na NFL, pelo menos não até aquele dia. Entretanto, logo na primeira campanha com o novo quarterback, Miami marchou pelo gramado e chutou um field goal. Em seguida, a defesa forçou um fumble de Fouts e recuperou a bola no campo de San Diego. O turnover resultou em mais sete pontos após a conexão de uma jarda entre Strock e o tight end Joe Rose.

A última pontuação da primeira etapa acabou sendo a mais espetacular de todas. No minuto derradeiro, San Diego arriscou um field goal de 55 jardas e se deu mal. Os Dolphins recuperaram a bola em uma ótima posição de campo e caminharam. Faltando seis segundos no relógio e na linha de 40 jardas dos Chargers, Strock completou um lançamento de 15 jardas para Duriel Harris. O recebedor, então, deu passe lateral para o running back Tony Nathan, que correu até a end zone para deixar o placar em 24 a 17. A jogada ficou conhecida pelo nome de “Hook and Ladder”3.

Voltando do intervalo, a reação dos donos da casa continuou. O placar foi igualado depois de outra dobradinha entre Strock e Rose (dessa vez de 15 jardas). Os Chargers responderam na sequência com um touchdown em um passe de 25 jardas de Fouts para Winslow, porém Miami deu a sua tréplica em grande estilo: recepção de 50 jardas do tight end Bruce Hardy. Caso você tenha perdido as contas, nessa altura a partida estava 31 a 31.

No começo do último quarto, os Dolphins passaram a frente no marcador pela primeira vez. Fouts foi interceptado em um lançamento longo, a equipe retornou a bola até próximo da end zone e pontuou de novo com Tony Nathan. Depois disso, os ânimos se acalmaram um pouco e os times trocaram alguns punts até Miami cometer o primeiro de uma série de erros fatais.

Com menos de cinco minutos no relógio, o fullback Andra Franklin sofreu um fumble na red zone de San Diego, acabando com a expectativa de Miami transformar sua vantagem em duas posses. Os visitantes não desperdiçaram a oportunidade e empataram o confronto em seguida. O curioso é que o passe de nove jardas tentado por Fouts tinha como destino Winslow, mas ele errou o lançamento e a bola, por sorte, caiu nas mãos de James Brooks.

Os Dolphins receberam uma última chance no tempo regulamentar restando 58 segundos. San Diego, visando evitar um retorno, deu um chute curto no kickoff e o time iniciou sua campanha na linha de 40 jardas do campo defensivo. No final das contas, Miami conseguiu posicionar a bola para um disparo de 43 jardas de Uwe von Schamann, mas o cansado Kellen Winslow bloqueou o chute de maneira heroica e o duelo foi para a prorrogação.

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No tempo extra, cada equipe teve a oportunidade de vencer com um field goal, porém os kickers falharam. Primeiro foi Benirschke chutando muito à esquerda. Depois, von Schamann teve outro disparo bloqueado, dessa vez por Leroy Jones. A maratona/teste de resistência só chegou ao fim depois 13 minutos e 52 segundos de prorrogação. Fouts liderou uma campanha de 74 jardas e posicionou a equipe para um novo field goal. Benirschke converteu a tentativa de 29 jardas, San Diego venceu por 41 a 38 e avançou para a final da AFC4.

A noite antológica de Winslow e os recordes estabelecidos

Além do bloqueio salvador, Winslow também somou 13 recepções para 166 jardas e um touchdown, na época recordes da pós-temporada. E, não custa lembrar, fez tudo isso jogando o segundo tempo e a prorrogação exausto – pelo menos é o que conta a história, embora algumas pessoas acreditem que ele estivesse exagerando um pouco na hora de demonstrar seu desgaste físico.



Contudo, não foi apenas o tight end que quebrou recordes. Fouts estabeleceu novas marcas máximas em tentativas de passe (53), passes completos (33) e jardas aéreas (433) em um confronto de playoff. Chargers e Dolphins combinaram para 79 pontos, 1,036 jardas totais e 809 jardas aéreas, também recordes do período – vários desses números foram superados posteriormente.

Saindo do inferno de Miami, San Diego disputa a partida mais fria da história

Os Chargers definitivamente não deram sorte com o clima durante aqueles playoffs. Uma semana após atuarem no tempo quente e úmido de Miami, a franquia viajou até Cincinnati para enfrentar os Bengals no jogo mais frio da história da NFL – o chamado “Freezer Bowl“. San Diego dessa vez, porém, não foi capaz de superar as adversidades climáticas e caiu por 27 a 7 para o time do quarterback Ken Anderson.

Pela segunda vez seguida, a equipe esteve perto de chegar no Super Bowl e perdeu na final de conferência – na temporada anterior, a derrota havia sido para Oakland. Em 1982, os Chargers de novo cruzaram com Miami no mata-mata, mas não conseguiram repetir a vitória. Naquele ano, os Dolphins avançaram até o Super Bowl e foram batidos pelos Redskins por 27 a 17.

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“RODAPE"

  1. A partida completa foi disponibilizada no YouTube pela NFL: https://www.youtube.com/watch?v=Y06M_BxQBDE Acesso em: 13/09/2017
  2. https://www.pro-football-reference.com/boxscores/198201020mia.htm Acesso em 13/09/2017
  3. http://www.nfl.com/videos/miami-dolphins/0ap2000000146971/Hook-and-Ladder Acesso em: 13/09/2017
  4. Melhores momentos: http://www.nfl.com/videos/greatest-games-of-all-time/0ap3000000478360/Epic-in-Miami-1981-AFC-Divisional-Round-Chargers-vs-Dolphins-highlights Acesso em: 13/09/2017