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“Longshot” é uma das criações mais importantes da história do Madden NFL

Há poucos meses atrás, bradava aos quatro ventos que passaria longe da nova edição de Madden. Seria um jogo similar à edição antiga, com mudanças tão irrisórias que não justificariam o investimento.

Entretanto, impulsivo que sou, não resisti ao Tom Brady na capa e cedi, mais uma vez, ao Madden.

E, embora eu estivesse certo sobre os modos de jogo mais famosos, jogabilidade e outras tantas coisas, eu fui atropelado por uma das novidades do Madden 18. “Longshot” narra a história de Devin Wade, um ex-quarterback da Universidade do Texas que se afastou do futebol americano e agora, três anos depois, busca uma nova chance. Sob a batuta de um consagrado técnico da NFL (fictício, cujo nome é Jack Ford), Wade precisa mostrar que tem o que precisa para ser uma escolha no draft que se aproxima. Poderia me alongar, mas acredito que qualquer coisa além disso pode tirar um pouco do tempero da narrativa. Se você estiver louco para ver como o negócio funciona, meu colega de site, Antony Curti, está fazendo lives no YouTube com o Longshot inteiro. A primeira, abaixo, tem quase duas horas.

Confesso que estava cético em relação ao “modo história”, por assim dizer. Parcialmente pelo trauma das menos cativantes histórias do FIFA 17 e do lendário “Freq”, do NBA2K16. A história de Devin Wade, pura e simplesmente, não parecia ser algo além da estrutura narrativa comovente que os americanos fazem tão bem. Eles acertaram nesse ponto, como fazem sempre, mas o acerto de “Longshot” vai além da trajetória pessoal de Devin Wade e dos recursos de construção de roteiro que usa. Ela toca na forma como o futebol americano afeta quem com ele se envolve, em todas as esferas.

Mais do que uma história de superação, a trajetória de Devin Wade toca em todos os tópicos sensíveis e pertinentes da carreira de futebol americano. Estamos tão acostumados a criticar determinados jogadores que esquecemos o que deve ser receber de fato todo o atropelamento da mídia. Esquecemos, certamente, do esforço mental que se exige de um jovem, recém-formado na faculdade, para tentar ser profissional na NFL. Não falo do aspecto tático, da curva de aprendizado; falo justamente da luta diária para lidar com a pressão, as críticas de torcedores, de analistas e de outros profissionais do ramo.

Sem rodeios, “Longshot” mostra o quão acachapante a realidade da NFL consegue ser

A realidade de viver à margem das badaladas escolhas de primeira rodada, de esperar o big break, isto é, a grande chance de conseguir se tornar parte de um elenco profissional de futebol americano. Ser lembrado constantemente de algum erro cometido no passado, que de tanto tentar superar, ele acaba nunca indo embora.

Ao mesmo tempo que vemos os ansiosos por se tornarem profissionais, vemos a vida provinciana dos ex-jogadores da época do ensino médio. O que eles se tornaram, como lembram os tempos de glória com saudades, seja apenas pelas memórias afetivas, seja por não serem bons o suficiente para chegar ao próximo nível.

Mais sincero do que tudo isso é a história do técnico Jack Ford. Interpretado por Rus Blackwell, a trajetória pessoal do treinador traz à tona uma outra questão crucial: os erros dos treinadores. Aviso agora que darei alguns spoilers sobre o passado do técnico – o que não influencia diretamente na vida de Wade.

Ford declara que, quando mais novo, colocou um jovem quarterback sob pressão, em um esquema que exigia muito mentalmente do signal caller. O jovem, não preparado, não conseguiu assimilar todo o aspecto mental a tempo da partida, mas Jack Ford insistiu no quarterback – o técnico queria mostrar que era bem-sucedido, mais que desenvolver o seu atleta. Dessa forma, forçou a aceleração do seu desenvolvimento. E o jovem quarterback foi massacrado pelas defesas profissionais.

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Lesionado, dois anos depois, o jovem signal caller não era sequer cogitado em outras franquias – lembra um pouco a história de Robert Griffin III em Washington e o que Mike Shanahan fez com ele. Em um monólogo permeado de autocrítica, Ford diz que não era que o jovem não fosse o nome certo. Talvez ele fosse – mas Ford, cego pela própria vontade de triunfar, não deixou que o quarterback se tornasse o que poderia ser.

Confesso ter ficado estarrecido com a sinceridade que “Longshot” trouxe neste momento. Quantos talentos não chegam à maturidade no esporte? Quantos nomes são pressionados a um desenvolvimento e resultados imediatos e acabam se perdendo mentalmente no futebol americano?

“Longshot” mostra, na narrativa de Devin Wade e Colt Cruise (seu melhor amigo), a dura realidade dos que “sempre amaram futebol americano”; dos que fizeram da bola oval seu dia-a-dia. Por décadas, os atletas dão literalmente o sangue para disputarem vagas nos níveis superiores. Tão poucos conseguem chegar a um elenco profissional, e tantos outros, que dedicaram suas vidas aos esporte são forçados a encarar a realidade quando não encontram espaço. Um erro no combine; um drop em outro lugar – em uma fração de segundo, todo o trabalho de anos vai por água abaixo.

Se o Madden 18 é parecido com seu antecessor em modos de jogo e jogabilidade, ele certamente é único ao trazer seu “modo história”. “Longshot” é a maior feito que o Madden alcançou em mais de 25 anos de história, e é o legado para que todos os fãs de futebol americano vislumbrem a realidade da vida nesse esporte. Seja pela bem-engendrada narrativa de Devin Wade, ou por todas as circunstâncias e realidade que a cerca.

Agora com licença, voltarei ao meu “Last Chance U”.

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“RODAPE"