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O final de janeiro se aproxima no ano em que Tom Brady, quarterback do New England Patriots, completa 40 anos de idade. Enquanto seu aniversário não chega em agosto, Brady se prepara para mais uma final de conferência – sua sexta seguida. Por ironia do destino, contra o mesmo adversário que enfrentou em seu primeiro ano como titular, na final da Conferência Americana de 2001, o Pittsburgh Steelers.

Na época, tal qual Dak Prescott é hoje, Brady era um inexperiente jovem que assumiu a titularidade após a lesão do titular e outrora franchise quarterback. 15 anos depois daquela final vencida contra os Steelers, não parece que Thomas Edward perdeu nem um pouco do vigor, do atleticismo ou da força no braço. Pelo contrário: tal qual um vinho, Tom Brady parece evoluir a cada ano que passa – mesmo que o senso comum aponte que um atleta não consiga mais render como outrora quando passa da casa dos 35 anos.

O senso comum estava certo com Peyton Manning. Descontada sua temporada de calouro, em 1998, Manning teve aos 39 anos sua pior temporada – em termos estatísticos, claro – em sua carreira. Brady-39, ao contrário, lidera a Conferência Americana em rating e teve apenas duas interceptações na temporada regular.

Nesta semana, Dan Pompei fez um artigo sobre como Brady se cuida e beberemos dessa água. Não se trata de uma tradução, claro, até porque outras fontes – como qualquer trabalho jornalístico que se preze – serão utilizadas. Mas é algo que gostaríamos de compartilhar com o público brasileiro.

A competitividade 

De nada adianta querer ir na academia ou algo do gênero se não existe um combustível motivacional para tanto. Alguns dizem que disciplina é o que basta. Eu prefiro acreditar que a faísca – que desemboca na prática, hábito e na própria disciplina – acaba sendo a motivação. Os pais de Brady já algumas vezes disseram que seu senso de competitividade – ou melhor, o fato dele odiar perder – é algo que apareceu em sua personalidade desde criança. O pai de Brady – cujo nome também é Tom – levava o filho para jogar golfe quando este era criança e “Brady odiava perder” desde que tinha 8 anos. “Ele é muito apaixonado pelo jogo”, disse o outrora reserva de Brady, Brian Hoyer, à ESPN americana.

A questão da competitividade foi “agravada”, por assim dizer, quando na carreira universitária do agora quarterback quatro vezes campeão do Super Bowl. Brady nunca foi titular de imediato, começando “lá atrás” no plantel. Em realidade, Michigan foi uma das poucas universidades grandes que realmente lhe deram uma chance. Ao final, no último ano de sua carreira no College, ele ainda vivia com uma sombra nas suas costas: Drew Henson, aclamado prospecto no Estado, era o herdeiro de um trono que no final das contas Tom só cedeu após ir para a NFL. Não sem antes vencer Alabama de virada no Orange Bowl.

A nada interessante vida de Tom Brady – pelo menos não para os tablóides

Embora, obviamente, torcedores de outros times gostem de falar de bolas murchas, Brady roubou, Brady isso, Brady aquilo, sua dedicação é algo que realmente impressiona. Sabe aquele negócio de “enquanto você está se divertindo há alguém lá fora treinando mais com menos tempo”?

Uma das histórias mais interessantes quanto à isso aconteceu em janeiro de 2012, após os Patriots eliminarem os Ravens na final da Conferência Americana. Ainda haveria duas semanas até o Super Bowl e um amigo de Brady o chamou para ir festejar a recente e emocionante vitória ante Baltimore. A resposta? “Só quero ir para casa e colocar meus filhos na cama”. Mesmo quando Brady estava fora da temporada, em 2008 por conta de lesão, o quarterback dos Patriots optou por ficar em casa ao invés de atender a convites para se divertir. “Ele é um cara caseiro, é a coisa mais estranha que eu já vi”, diz o pai de Tom à ESPN americana.

Leia também: Por que as pessoas amam odiar Tom Brady?

Um dos pontos que mais chama atenção na rotina de Brady é o horário em que ele dorme. Atualmente, com tantas distrações, Netflix e conexos, a maior parte das pessoas se deita após as 10 da noite e costuma dormir por volta da meia noite. O próprio horário nobre da TV foi acomodado, nos últimos anos, para tanto. Especificamente aqui no Brasil, por exemplo, a novela das 8 virou novela das 9.

Brady já está dormindo quando o mais recente dramalhão televisivo está no ar aqui no Brasil. Ora, mesmo no horário de início do Sunday Night Football na costa leste americana… Ele já na cama. Segundo reportagem do Boston Globe, Brady realiza exercícios cognitivos para que seu cérebro seja desestimulado após um dia duro de treinamentos. O Globe reporta que ele vai para a cama especificamente às 9 da noite e acorda de manhã sem alarme algum. “É inacreditável ver um cara de 39 anos jogando como se tivesse 29”, disse Julian Edelman ao Bleacher. Bom, sabendo que ele dorme tão cedo, não assusta tanto assim.

A completamente maluca dieta 

Tal qual aconteceria com um homem das cavernas há dezenas de milhares de anos atrás, Tom Brady tem uma dieta sazonal. Isto é: ele come de acordo com as estações do ano. No inverno, ele chega a comer carne, por exemplo. No verão, praticamente tudo o que ele come é fresco e cru. A dieta de Brady evita ingredientes que desemboquem num mais acelerado processo de oxidação. Não surpreende, dado que o envelhecimento é acelerado por esse processo. Vinagre, por exemplo, é algo que ele não come.

Brady é vegan por boa parte do ano, embora no inverno, como dito acima, ele chegue a ingerir carne (magra, obviamente). Um dia típico da dieta bradyana é composto de um smoothie (com leite de amêndoas, proteína em pó, sementes, nozes e banana), uma barra caseira de proteína no meio da manhã, peito de franco com salada com grãos integrais e legumes no almoço, um segundo smoothie como lanche da tarde e um jantar com quinoa e vegetais.

E os exercícios que mantém o quarterback no topo da forma física mesmo na porta dos 40 anos

90% dos exercícios que Brady faz são de resistência muscular, com elásticos – a maior parte deles com muitas repetições. Brady não fica parado na offseason e nunca chegou no training camp acima do peso: até porque, durante a intertemporada, ele treina seis vezes por semana com seu treinador pessoal, Alex Guerrero. Por vezes, o faz duas vezes por dia. “É inacreditável ver a consistência de Brady, como ele controla a própria mente e aumenta o objetivo a cada temporada que passa”, diz Edelman. “Não acho que tenhamos visto qualquer pessoa parecida com ele – nem perto disso”, completa o recebedor dos Patriots.

A prova de que os treinamentos realmente dão certo é que a bateria de exames físicos ao início de cada temporada mostra evolução física por parte de Tom – e, na realidade, deveria indicar que com o passar da idade ele estaria perdendo fôlego, explosão e resistência. “Na realidade, ele ficou mais forte e rápido na medida em que envelheceu”, diz Guerrero. “Estou confiante no meu processo e acredito que não haja ninguém com 39 anos, no mundo, que se recupere rápido como eu. Fui abençoado de poder ter aprendido os métodos corretos, através de nutrição, hidratação e descanso correto. Não é difícil se você faz a coisa certa”.

Warren Moon, quarterback que está no Hall da Fama, é um dos exemplos notórios quando o assunto é longevidade na carreira. Depois de começar seus anos de futebol americano, digo, canadense na CFL nos anos 1970 – onde, inclusive, foi campeão – Moon veio a jogar até o final da década de 1990. Especificamente, aos 41 anos, Moon teve 3678 jardas e 25 touchdowns lançados enquanto jogador do Seattle Seahawks. Aos 42, ainda em Seattle, continuou como titular, embora com números modestos. Moon, em realidade, jogou até os 44! Em 1999 ele era reserva em Kansas City e chegou a jogar uma partida.

Ou seja, há precedentes. E não é um só. George Blanda chegou a jogar uma partida com os Raiders, como quarterback, aos 43 anos em 1970. E Henry Burris, aos 41 anos, acabou de ser campeão da CFL, a liga profissional de futebol canadense. Mas em termos de nível de jogo aos 39 anos, ninguém nem de perto se iguala a Brady.

De fato, ao contrário do que se imagina, suas jardas por tentativa foram “altas” neste ano. A lógica é que ele não teria mais força no braço e tal estatística seria menor do que em outros anos de sua longeva carreira. 12,2 jardas por tentativa, sua maior marca em 5 anos e a terceira maior da carreira. Foi isso que ele atingiu aos 39.

O início da carreira de Brady explica o porquê de tudo isso

O grande ponto é que Brady não se enxerga como o mundo ao redor lhe rotula. No fundo, ele ainda é aquele quarterback rejeitado por várias universidades e que em Michigan teve um trabalho hercúleo para se estabelecer. Quando finalmente o fez, um calouro apareceu do nada e tentou roubar seu emprego. Ele ainda é aquele cara que foi rejeitado 198 vezes no Draft de 2000 e no meio do processo ficou tão abalado que teve que sair de casa para dar uma volta.

E ele ainda é aquele cara que quer se provar como merecedor do que conquistou, não um oportunista de um momento em que Drew Bledsoe saiu do pocket contra os Jets. Não ganhar a titularidade dos Patriots nos treinamentos – mas, sim, por lesão de Bledsoe – é algo que com certeza motiva o atual franchise quarterback dos Patriots. “Com todo respeito a Tom, mas se Drew não se machucasse nunca lhe veríamos no campo”, diz Adam Vinatieri no documentário America’s Game relativo ao título dos Patriots em 2001. “Não treinamos com a ideia de que ele já é o quarterback titular. Todos os anos ele está trabalhando para sê-lo e ele tem que trabalhar duro para isso. Ele sempre fala sobre”, conta Guerrero. “Todo ano vai ter alguém que vai trabalhar mais duro do que eu se eu não continuar dando o máximo”, reporta Guerrero sobre a confissão de Brady uma vez a ele.

Toda oportunidade para Brady, com efeito, é a mesma oportunidade que ele teve na Semana 2 de 2001. De se provar, de melhorar, de trabalhar duro. Grandeza não cai do céu. E ele sabe muito bem disso, porque teve que se provar desde o início de sua carreira. Esse mindset, mais as quedas – Super Bowl XLII, final da Conferência Americana de 2006 e outras tantas – serviram como combustível ainda maior para ele fazer o que a maior parte das pessoas não fazem.

Criticar Tom Brady é fácil. Atribuir seu sucesso a Bill Belichick, idem. Eu mesmo já incorri na primeira, alguns anos atrás. Testemunhar um trabalho que por vezes não vemos – por apenas olharmos para os efeitos disto, no campo – acaba por ser mais difícil. Ainda haverá pessoas que falarão que ele murcha bolas, que os Patriots são um grande império do mal. No final das contas, como tudo na vida, quando você falar, alguém vai expor sua opinião. Faz parte de como as coisas são. O nível de jogo de Brady faz com que torcedores de outros times saiam de sua zona de conforto.

O sucesso de Brady não cai do céu, nunca caiu. Não cai do sistema de Belichick – que até pode ajudá-lo, mas é correlação e não causa principal de como ele é um jogador acima da média. Ele é fruto de trabalho e de transpiração. De motivação. De saber que um dia apontaram o dedo para ele e disseram que ele não era bom, que ele não era rápido, que ele não passava bem a bola, que ele estava ficando velho, que a dinastia tinha acabado. Perdendo ou ganhando no domingo contra os Steelers ou eventualmente no Super Bowl, a realidade é que nunca haverá outro quarterback como ele.

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“RODAPE"