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Nos idos de 2014, às vésperas do Draft daquele ano, Jon Gruden e Derek Carr sentavam-se frente a frente. Gruden apresentava seu então programa de televisão “Gruden’s QB Camp”; Carr era um prospecto vindo de Fresno State e, como ele mesmo coloca, um competidor que esteve próximo da NFL desde os 12 anos de idade – por conta do irmão.

“Eu quero você”, disse Jon Gruden ao jovem quarterback. “Vamos vencer alguns campeonatos!”, respondeu o Bulldog. Hoje, em 2018, a narrativa dos dois homens se reencontra. Derek Carr, selecionado com a 36ª escolha geral do Draft 2014, mostrou ter as qualidades de um franchise quarterback para o Oakland Raiders. Jon Gruden, por sua vez, aceitou voltar ao cotidiano da NFL após dez anos no mundo televisivo.

Sua missão é recuperar o Oakland Raiders de uma temporada decepcionante e colocar todo o potencial ofensivo do prata e do preto nos trilhos novamente.

E a missão deste texto é tentar estabelecer o panorama atual das coisas em Oakland.

Os dois lados da moeda

O guru ofensivo

O técnico assume o cargo que exerceu entre 1999 e 2001, quase vinte anos depois. Trocado (sim, é possível trocar treinadores) para o Tampa Bay Buccaneers antes da temporada de 2002, Gruden venceu o Super Bowl XXXVII justamente contra a equipe que construira nas temporadas anteriores.

À primeira vista, Jon Gruden é considerado um “guru ofensivo”. Ele traz consigo uma reputação de poder acertar os erros ofensivos da comissão técnica do Oakland Raiders em 2017. Derek Carr, Michael Crabtree, Amari Cooper, Marshawn Lynch e uma linha ofensiva para lá de qualificada não foram o suficiente para que o time da Califórnia alcançasse seu verdadeiro potencial – ou sequer reproduzir o sucesso de 2016.

Para os que não acompanharam os tricampeões do Super Bowl de perto, Todd Downing assumiu o cargo de coordenador ofensivo – uma jovem promessa recebendo a tocha após a saída de Bill Musgrave, um dos responsáveis pelo desenvolvimento e evolução de Derek Carr nas suas primeiras temporadas. A expectativa era um passo para frente. Pois bem, foram dois para trás.

O Oakland Raiders era refém de chamadas ofensivas conservadoras ao extremo; chamadas sucessivas de screens, passes curtos em terceiras descidas longas com a expectativa de jardas após a recepção eram os pratos mais pedidos do menu de Todd Downing. Se você gosta de ver um time ganhar seis jardas em uma terceira para oito, certamente você se divertiu bastante com os Raiders em 2017.

Por outro lado, o suposto pedigree de Jon Gruden é aquele de alguém capaz de maximizar os talentos dos nomes ofensivos da franquia. Sob sua batuta, a expectativa é que Derek Carr reencontre sua temporada que namorou o status de MVP em 2016, utilizando todas as qualidades dos nomes que o cercam – e, convenhamos, o grupo ofensivo da equipe é para lá de qualificado.

O quão “guru” é Jon Gruden?

Agora, o outro lado da moeda. Qualquer conversa sobre o retorno de Jon Gruden à liga profissional de futebol americano, antes mesmo das tratativas com o Oakland Raiders, passava diretamente pela capacidade do então ex-treinador de retomar as rédeas e carregar o peso do cotidiano da NFL. Claro, indiscutível que Gruden era um apaixonado pelo jogo. O medo sempre foi por causa do afastamento do cotidiano de estudo, planejamento ofensivo (e de jogo, no geral). O técnico poderia ter um gap entre o que ele conheceu nos anos de treinador e o que ele poderia oferecer na NFL contemporânea.

Uma vez contratado pelo Oakland Raiders, dúvidas em relação à capacidade de Jon Gruden como técnico propriamente dito foram discutidas universo online afora. Pelo tamanho do seu contrato e a pompa da sua contratação, há de se pensar que Jon Gruden venceu seu Super Bowl na temporada de 2002 com os dois lados da bola jogando em altíssimo nível. Todavia, se observarmos algumas estatísticas da Era Gruden em Tampa a história não é tão redonda assim.

Na sua primeira temporada como técnico do Tampa Bay Buccaneers, o ataque não subiu drasticamente de produção. Na verdade, anotou apenas 22 pontos a mais do que em 2001. 14 desses pontos vieram de times especiais e touchdowns defensivos; o ganho do ataque foi de apenas 8 pontos. Um touchdown e uma conversão de dois pontos bem sucedida de diferença.

A média de jardas por campanha do ataque de Jon Gruden também não é de saltar aos olhos. Das 26.6 jardas por campanha conquistadas pelos Buccaneers em em 2001, Gruden viu esse número subir em 2002 – para 26.7. Por menor que seja, é um crescimento. Nos anos como head coach na Flórida, Jon Gruden nunca viu seu ataque passar a linha dos dezoito melhores em pontos anotados até sua saída, em 2008. Tido como um guru ofensivo, o ex-comandante do Tampa Bay Buccaneers não alcançou grandes feitos no seu lado da bola.

Somemos ao monte de dúvidas, ainda, os méritos de Tony Dungy na arquitetura da defesa do Tampa Bay Buccaneers: seu esquema defensivo foi um dos mais eficientes da história da NFL, e a defesa que venceu o Super Bowl XXXVII é uma das mais celebradas da bola oval. De certa forma, puxando uma analogia para o futebol, seria como o time do São Paulo montado por Cuca em 2004 sendo campeão da Libertadores em 2005. O DNA daquele time, em certa medida, era de Dungy.

Não se ganha um Super Bowl ao acaso, claro. Só que a falta de sucesso nos anos seguintes traz à tona mais um ponto de interrogação que chega junto com Jon Gruden: Bill Cowher e Tony Dungy, por exemplo, possuem vitórias na pós-temporada mais recentes que Jon Gruden.O que podemos de fato esperar? 

A primeira coisa que podemos esperar de Jon Gruden é uma mudança na cultura da equipe.  Os números são abrasivos quando falamos dos anos do treinador em Tampa, mas, sinceramente, o grande trunfo de Gruden é quem ele é. É a energia que vem com ele. O fato dele ter voltado depois de dez anos para uma franquia que ele conhece, os discursos inflamados que já deu desde que assinou seu contrato; ser um head coach vencedor de um Vince Lombardi moldam a imagem de um líder. Jon Gruden é o farol para qual os jogadores podem se virar e seguir. E, convenhamos, os Raiders de 2017 pareciam um time sem muita gana.

Ao seu lado, os coordenadores terão um papel fundamental em moldar a nova identidade do Oakland Raiders. Defensivamente, Paul Guenther chega para levar a unidade ao próximo patamar. Vindo do Cincinnati Bengals, Guenther foi um dos responsáveis pelas boas temporadas defensivas da franquia de Ohio. Outro aspecto bastante interessante sobre Guenther é seu período trabalhando com Mike Zimmer, hoje head coach do Minnesota Vikings. Não seria surpresa se encontrássemos o Oakland Raiders ocasionalmente com o famoso pacote double A gap nas chamadas defensivas.  Além disso, podemos esperar stuntsblitzes bem desenhadas explorando a peça-chave dessa defesa: Khalil Mack.  O trabalho do treinador com Bruce Irvin e Mario Edwards Jr. deve ser um dos pontos cruciais em 2018.

Do lado ofensivo da bola – e o braço direito de Jon Gruden nesse makeover ofensivo -, temos Greg Olson (não confundir com o tight end do Carolina Panthers). Olson já teve uma passagem decepcionante pelo Oakland Raiders, mas, como diria minha avó, o tempo é o melhor remédio. Olson vem trabalhando com jovens quarterbacks – em especial com Jared Goff em 2017. Quarterback coach do explosivo Los Angeles Rams de Sean McVay, o novo coordenador ofensivo traz a esperança de que conviver com uma brilhante mente ofensiva traga novos ares para o combalido ataque de 2017. O sucesso com Blake Bortles em 2015, no Jacksonville Jaguars, temporada na qual o camisa 5 bateu a marca de 30 touchdowns e 4.400 jardas.

Além disso, Olson já trabalhou com Derek Carr na temporada de calouro. É o reencontro do quarterback com seu primeiro coordenador ofensivo, o que pode ser uma familiaridade bem-vinda, especialmente em termos de hábitos de treinamento e filosofia ofensiva. Com os deveres de chamar as jogadas ofensivas com Jon Gruden, Olson pode focar no desenvolvimento e trabalho de Derek Carr, função na qual obteve sucesso com Bortles e Goff.

Por fim, preciso mencionar uma contratação que deu calafrios ao torcedor do Oakland Raiders quando se concretizou: Tom Cable é o técnico de linha ofensiva da equipe. Sabe de onde ele veio? Seattle Seahawks. Em que pese a falta de material humano lá no estado de Washington, ver Russell Wilson correndo em pânico dos defensores é um mau prelúdio para o (muito) pouco móvel Derek Carr. Pelo menos Gruden foi enfático na sua alegria em tê-lo no staff



FESTEJE COMO SE FOSSE 1998

E não é no bom sentido – dosemos nossa nostalgia. Se você está comigo até agora, deve ter percebido que há um certo otimismo, especialmente depois da catastrófica temporada de 2017. Bom, sinto lhe informar que o presente texto terá uma mudança razoável de atmosfera.

Quando perguntado sobre o uso de analytics – uma necessária modernização no uso de dados para prever tendências de adversários e ajudar no planejamento para uma partida, Jon Gruden declarou que “quer trazer de volta o jogo para o ano de 1998”.

Uma declaração que, na minha interpretação, reverbera o medo da falta de atualização do velho-novo técnico. A inadequação ofensiva de uma equipe aos seus talentos é receita de bolo para temporadas frustrantes. Basta ver o caso do Tennessee Titans sob Mike Mularkey. Com todo respeito pela campanha do time de Nashville em 2017, que chegou até Foxboro no Divisional Round na última pós-temporada, foi frustrante ver Marcus Mariota amarrado pelas opções conservadoras e inadequadas de Mularkey e seu coordenador ofensivo, Terry Robiskie.

Esse tipo de declaração causa mais suspeita ainda se levarmos em consideração os destaques ofensivos de 2017. Sean McVay e Doug Pederson foram os dois melhores head coaches da temporada, e isso engloba indiscutivelmente um trabalho ofensivo adequado à modernidade do esporte. Run pass options, utilização de running backs em todos as situações de passe, play actions executados à perfeição são apenas algumas das características que fazem parte indiscutível do Philadelphia Eagles e Los Angeles Rams em 2017.

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Não quero dizer, de forma alguma, que Jon Gruden é incapaz de desenhar um bom plano de jogo, ou fazer o play action funcionar. O receio que permeia tudo sobre Jon Gruden é justamente por essa postura de bater no peito para nadar contra a corrente da NFL contemporânea. Se é um orgulho por ter sido eficiente (ainda que questionado) há vinte anos atrás, se for por incapacidade de entender as novas nuances do esporte ou por um gap de conhecimento e estudo, o grande perdedor é o Oakland Raiders.

A história recente diz que lutar contra a maré das tendências do futebol americano não leva ninguém a lugar nenhum – muito pelo contrário. Abraçando a modernidade e conceitos que não remetem ao futebol americano old school, vimos atuações brilhantes de Philadelphia Eagles, Los Angeles Rams e Kansas City Chiefs, por exemplo.

A chegada de Jon Gruden representa novos ares para o Oakland Raiders. Entretanto, veremos se esses novos ares sufocarão a franquia ou permitirão que Derek Carr, Khalil Mack e companhia alcancem o teto que os fãs e entusiastas sabem que eles podem alcançar.

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