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A essa altura do campeonato (ou da intertemporada, já que o campeonato ainda nem começou) todo mundo já sabe sobre a saga de Colin Kaepernick. No início da temporada de 2016, o então quarterback reserva do San Francisco 49ers decidiu iniciar um protesto. Kaepernick passou a permanecer sentado (posteriormente, optando por ficar de joelhos) durante a execução do hino nacional norte-americano antes das partidas. O objetivo do protesto foi o de chamar a atenção para a questão da violência policial contra negros nos EUA.




A repercussão aos protestos de Kaepernick foi imediata. Muitas pessoas, de torcedores a membros da imprensa, criticaram o quarterback, afirmando que o protesto seria uma ofensa aos militares norte-americanos e ao próprio país. Entre os demais jogadores da NFL, a repercussão às manifestações foi, majoritariamente, positiva – ao menos houve mais declarações positivas do que negativas pelos atletas. Alguns inclusive se juntaram ao protesto, como o companheiro de Kaepernick nos 49ers, Eric Reid, o linebacker do Denver Broncos, Brandon Marshall, o defensive back dos Eagles, Malcolm Jenkins (que já afirmou que seguirá protestando em 2017), e o cornerback dos Colts, Antonio Cromartie. Voltando de aposentadoria, Marshawn Lynch ficou sentado durante a execução do hino americano na abertura da pré-temporada 2017 da NFL.

Colin Kaepernick, no entanto, seguiu sendo o símbolo dos protestos. Durante a temporada, Kaepernick assumiu a posição de titular em San Francisco, substituindo Blaine Gabbert – e, considerando o caos absoluto da equipe, alcançou números razoáveis e melhores dos postados por Blaine. Mesmo com os 49ers terminando o ano com 2 vitórias e 14 derrotas, Kaepernick, concluiu sua participação na temporada com 16 touchdowns e 4 interceptações, além de um rating de 90.

Contudo, seria na intertemporada 2016-2017 que o real impacto dos protestos de Colin Kaepernick seria percebido. Hoje, o ProFootball traz um olhar amplo sobre tudo o que cercou os protestos de Kaepernick, além da reação da NFL (particularmente de seus donos) e da percepção sobre a real força das manifestações do quarterback.

A Questão Racial

Nosso foco aqui no Pro Football é o esporte e seus meandros. Entretanto, no caso de Colin Kaepernick e seus protestos, é necessário abordar a questão que os motivou.

Historicamente, nos Estados Unidos, a abordagem policial à população negra é causa de queixas, protestos e polêmicas. Quem já é eu pouco mais velho (tipo eu), certamente lembra do caso de Rodney King. Taxista em Los Angeles, ele foi parado pela polícia por dirigir em alta velocidade. Em vídeo registrado por uma testemunha, foi possível vê-lo sendo espancado violentamente. A posterior absolvição dos policiais envolvidos gerou manifestações violentas que duraram vários dias. Em um segundo julgamento posterior os policiais foram considerados culpados e Rodney King recebeu uma indenização do estado. O caso “Povo da Califórnia vs OJ Simpson” é muito considerado uma ramificação – em termos de decisão, com um juri majoritariamente negro – da absolvição dos policiais no caso King.

Mais recentemente, um caso marcante foi o de Treyvon Martin, jovem negro assassinado por um segurança particular na Florida após uma discussão. O segurança foi absolvido posteriormente. O caso de Martin contribuiu para o estabelecimento do movimento Black Lives Matter (vidas negras importam), que busca protestar contra a desigualdade racial no sistema de justiça norte-americano. O movimento cresceu, gerando protestos em massa após episódios de morte de negros pelas forças policiais em Ferguson, em Missouri, e na cidade de Nova York.

É dentro deste contexto que a manifestação de Colin Kaepernick nasce. Kaepernick, filho de pai negro e mãe branca, e adotado por uma família branca, afirma ter se aproximado mais da causa racial após sua entrada na NFL. Diante deste movimento mais recente de manifestações intensas de combate à desigualdade racial nos EUA (particularmente no que tange à abordagem policial), Colin Kaepernick tomou a decisão de iniciar seu protesto.

Armas, hinos e bandeiras

Conforme foi dito acima, o protesto de Kaepernick gerou uma reação importante de quem acompanha a NFL. Críticas duras direcionadas ao quarterback – as quais consideravam que Colin estava desrespeitando seu país e todas as pessoas que serviam nas forças armadas. Para entender esta reação, é importante lembrar de questões culturais particulares dos EUA como um todo e, particularmente, da NFL, seus fãs e seus proprietários (sim, os donos dos times são, no fim das contas, os donos da própria liga).

A ligação dos norte-americanos com a bandeira e com a própria noção de patriotismo é muito estreita. O próprio hino americano é um ode a sua bandeira. Essa ligação é frequentemente relacionada a uma questão de orgulho e identidade nacional. Além disso, de maneira quase indivisível, é também associada às forças armadas e ao militarismo como um todo. Enquanto a última guerra ativamente lutada por nós foi a do Paraguai (sem contar a Segunda Guerra), os Estados Unidos e suas forças militares estiveram presentes em diversos conflitos desde a Guerra Civil.




Nos esportes (e na NFL em particular), esta conexão é muito intensa. As execuções do hino nacional são superproduções, com artistas famosos e, sempre, com presença militar. A própria característica do esporte, que carrega semelhanças com uma “batalha por território”, fortalece esta aproximação. Quando se soma a isso o alinhamento político dos proprietários de equipes, majoritariamente conservadores (ligados aos valores do militarismo), é fácil entender a forte reação contrária aos protestos de Colin Kaepernick.

A derrota de Colin Kaepernick

Após o término da temporada 2016, Colin Kaepernick optou por anular o restante de seu contrato com o San Francisco 49ers e se tornar um free agent. Caso Kaepernick não tivesse feito esta escolha, seu destino seria o mesmo: o novo General Manager dos 49ers, John Lynch, afirmou em entrevistas que teria cortado o quarterback. Vale lembrar quem este seria o último ano da lucrativa extensão de contrato de Kaepernick com os Niners e que, desta forma, o corte não implicaria em prejuízo para o teto salarial da equipe.

Como já mencionado, Colin Kaepernick não teve uma temporada ruim. Aliás, considerando a fraqueza do elenco ofensivo de San Francisco como um todo, é possível dizer que o quarterback foi até bem. Em 2016, o quarterback mostrou a capacidade de tomar melhores decisões, arriscando menos e “fugindo” para as corridas com menor frequência. De acordo com o analista de performance de quarterbacks Cian Fahey, em seu Pre Snap Reads QB Catalogue 2017, Colin Kaepernick lançou o segundo menor número de passes interceptáveis (independente do resultado da jogada) dentre os mais de 30 quarterbacks analisados. Ainda segundo a mesma fonte, Kaepernick foi o décimo-quarto melhor da liga com relação à precisão nos passes.

Apesar disso, Colin segue sem equipe para 2017. Já passamos pelo período inicial da free agency, já passamos pelo draft, já passamos pelos treinamentos de intertemporada. Começou o training camp e a pré-temporada e… nada. Kaepernick segue sem equipe.

Diversas razões têm sido levantadas para justificar o desemprego do quarterback. Desde o discurso tradicional de “não sabe ler defesas”, passando pelo argumento de que ele seria uma distração dentro de sua eventual equipe. Sobre a performance em campo já falamos dos números e da avaliação subjetiva sobre o desempenho de Kaepernick. Agora, sobre o fator distração, vale lembrar que Kaepernick já foi eleito por seus companheiros de 49ers para ganhar um prêmio de liderança e companheirismo. Além disso, nos últimos meses vimos seus ex-técnicos, Jim Harbaugh e Chip Kelly, endossando o jogador como um líder capaz de comandar uma equipe.

Mesmo assim, as equipes da NFL parecem irredutíveis. Durante todo o processo, Colin Kaepernick fez apenas uma visita – ao Seattle Seahawks. Apesar dos elogios do técnico Pete Carroll, Kaepernick deixou Seattle sem uma oferta de contrato. Mais recentemente, após a contusão de Joe Flacco, rumores sugeriram um interesse real do Baltimore Ravens na contratação de Kaepernick.

Este episódio, inclusive, serviu para deixar bem claro como o boicote (sim, boicote, não dá pra usar outro termo) a Colin Kaepernick funciona. Embora não dê para afirmar que existe um conluio coletivo e organizado, o modus operandi, de maneira individual, segue o mesmo: em Baltimore, o técnico John Harbaugh e o General Manager Ozzie Newsome pareciam abertos à contratação de Kaepernick, mas foram vetados pelo proprietário Steve Bisciotti, que afirmou ter recebido reações negativas à possível chegada do atleta. Considerando os aspectos sociais e da própria NFL discutidos mais acima, é claro que parte dos fãs reagiria de maneira negativa, mas esses gritos só obtém grande ressonância devido ao alinhamento à posição dos próprios donos. É importante lembrar que, de longe, o futebol americano é o esporte mais popular no sul dos Estados Unidos – área tradicionalmente mais conservadora.

O resultado é o que estamos vendo: a resposta à manifestação de Colin. Ou seja: não permitir que um atleta que se manifesta de maneira contundente sem que haja uma “réplica”. É tanto uma reação a Colin Kaepernick como também um recado pra todos os outros jogadores. Ao longo da história, vimos várias vezes o caso acontecer. O mais famoso deles é com Muhammad Ali. Quando este se negou a servir no Vietnã, sua licença de boxe foi cassada pelo Estado de Nova York.

E aí a falácia é exposta. Jogadores acusados de violência doméstica são recebidos de braços abertos pela liga (Jon Mixon e Tyreek Hill são só os exemplos mais recentes). Atletas que foram efetivamente presos tiveram, após suas penas, novas oportunidades na liga (Michael Vick e Donte Stallworth, por exemplo). Só que o que é dito como distração é um protesto pacífico.

Claro, também não dá pra não mencionar alguns dos quarterbacks que, no momento, estão empregados na liga enquanto Colin Kaepernick não tem lugar. Não incluo os mais jovens, que ainda são apostas dos times. Josh McCown deve ser titular dos Jets. Ryan Fitzpatrick é reserva em Tampa Bay. Blake Bortles segue afundando os Jaguars. Miami foi buscar o “motivado” Jay Cutler da aposentadoria. E nada de Kaepernick. Mesmo que você concorde que todos eles são melhores, lembramos: há 100 quarterbacks com chance em training camp neste momento. É virtualmente impossível dizer que Colin seja pior do que todos eles. A questão do dinheiro, como já dissemos aqui no site, não importa para que essa chance seja dada: se Kaepernick for cortado antes de setembro, o time que lhe trouxer para o camp não precisa lhe pagar nada após o corte.

E permanece o discurso (inacreditavelmente bancado por parte da imprensa especializada) de que o quarterback não acha lugar apenas por motivos esportivos. Mais uma vez, a mensagem está clara: “não queremos você aqui”. Essa é a derrota de Colin Kaepernick que, muito provavelmente, não estará em campo na temporada 2017 da NFL.

A vitória de Colin Kaepernick

Um ano depois, o que resultou do protesto de Colin Kaepernick? Ele está sem lugar na liga, que seguiu adiante, com mais uma temporada prestes a começar. E lá vem touchdowns, field goals, interceptações e… dinheiro. Muito dinheiro. A roda segue girando e a gente continua pagando pra mantê-la girando. E eu mesmo vou continuar, pois sigo adorando o esporte e o que o cerca.




Enquanto isso, Colin Kaepernick criou uma organização, Know Your Rights (Conheça Seus Direitos), com o objetivo de educar jovens de minorias étnicas acerca de seus direitos e sobre como fazê-los valer diante das estruturas de autoridade do Estado. Além disso, Kaepernick se comprometeu a fazer doações – totalizando 1 milhão de dólares – para entidades que combatem a desigualdade racial.

Qualquer que seja o futuro de Colin Kaepernick na NFL (se é que ainda existe algum), o quarterback já deixou sua marca. O protesto de Kaepernick não será esquecido. Outros jogadores seguirão seu exemplo. A liga seguirá se enrolando com desculpas esfarrapadas. E a discussão da desigualdade racial, tanto com relação à autoridade policial quanto dentro da própria NFL, estará em posição central em 2017 e nos anos subsequentes.

Essa é a vitória de Colin Kaepernick.

E o que fica pra gente, que respira NFL o tempo todo? Fica o esporte é claro, com a paixão que gera, as madrugadas na frente da TV, a estupefação diante de jogadas inacreditáveis e a emoção de jogos muito disputados. Mas, para alguns, também fica o incômodo. De saber que tem algo estruturalmente errado com a liga, que a distancia dos princípios do esporte. O esporte é, antes de tudo, uma ferramenta de alegria (“distração”, ironicamente). Também precisa, contudo, ser um instrumento de mudança social – tal qual Ali e outros atletas fizeram sê-lo nos anos 1960. Se o esporte é privado disso, ele é só mais um investimento. Continua sendo legal, mas, sob o aspecto sociológico, um pouco mais vazio.

Deixo aqui o desejo de um esporte mais completo, um veículo de diversão mas também de liberdade. E uma pergunta: de quem é, por direito, a NFL e o futebol americano?

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