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Foram 8 horas no ar ontem, em duas transmissões seguidas do beisebol. Eu estava completamente exausto e postei uma foto da cabine. Numa das respostas ao story no Instagram, um seguidor me disse “cadê comentário sobre o Brees? Fosse do Brady e do Rodgers, você já tinha falado”.

Esse é o contexto dessa coluna.

A torcida do New Orleans Saints, seja no Brasil ou nos Estados Unidos, sente que Drew Brees é um tanto quanto desprezado pelas outras pessoas. Claro: há admiradores que não torcem para os Saints. Mas, via de regra, é assim que funciona.

Sou obrigado a concordar. Não com a cobrança no Instagram – eu estava com meu cérebro parecendo geleia e já iria escrever esta coluna hoje – mas com o fato de que Drew Brees tem menos amor do que deveria. Por quê?

Difícil entender.

O que falta? Por que sempre que mencionamos “GOAT” (sigla em inglês para “Melhor de Todos os Tempos”) há Aaron Rodgers na conversa, há Peyton Manning e há Tom Brady… Mas Drew Brees não aparece tanto? Refleti sobre durante as últimas 24 horas. Cheguei a alguns pontos.

1st and 10: Contexto: além dos números do recorde

72.103 jardas passadas numa carreira que começou lá atrás em 2001, como escolha de segunda rodada do Draft. Se pensarmos nos números de maneira tão fria, a coisa não fica tão humana como deveria. É bem verdade que há pessoas que apenas consideram como heróis aqueles que sobem prédios em chamas para salvar pessoas ou uma mãe solteira que cria dois filhos após um pai virar ausente. São os maiores heróis da nossa sociedade? Sim.

Isso não quer dizer que atletas não o sejam.

O esporte, muitas vezes, serve como fuga de problemas. Nota baixa no boletim, conta para pagar, nome sujo no SPC: quando seu time está jogando e está bem, é como se seu cérebro fugisse de tudo isso e apenas a felicidade tomasse conta de seu crânio. De certa forma, jogar tanto tempo e tomar pancada de jogadores enormes, propiciando felicidade a milhões de pessoas… É uma forma de ser ídolo ou herói.

Drew poderia ser apenas isso: um grande jogador. Não foi apenas isso. Acima de tudo, sua carreira é marcada pela palavra superação. Na temporada de 2004, o San Diego Chargers draftou Philip Rivers mesmo com Drew no elenco – e, ao final da temporada seguinte, 2005, Brees machucou o ombro e todos consideravam sua carreira como acabada.

Sabe o que vivemos com Andrew Luck nos meses anteriores à temporada 2018? Era tipo isso. Poucos acreditariam que Brees seria o franchise quarterback que se esperava. Em New Orleans, ele colocou uma franquia no mapa da NFL.

Da mesma forma que Dwyane Wade colocou o Miami Heat no mapa da NBA, Drew o fez com o New Orleans Saints em 2006, quando o time acreditou nele para comandar a franquia. Absurdo nenhum pensar que, se não fossem os anos posteriores, os Saints seriam fortes candidatos a saírem de New Orleans para Las Vegas, Los Angeles ou qualquer outra cidade que quisesse uma franquia da NFL.

Além do desempenho esportivo, lembremos: Katrina.

Poucos furacões devastaram tanto os Estados Unidos quanto o Katrina o fez no sul do país. 2005 com certeza foi um dos piores anos da vida de várias pessoas na Louisiana. O Superdome, estádio dos Saints, foi o abrigo físico de centenas de pessoas após os estragos causados pelo furacão. Um ano seguinte, seria o abrigo emocional.

A campanha do New Orleans Saints de 2006 foi impensada, improvável e acalentou o coração de quem morava na cidade – chegaram aos playoffs sem ninguém esperar que isso fosse acontecer. O eixo motor de tudo isso vestia a camisa 9 e teve 306 jardas por jogo daquela temporada até o jogo do último Monday Night Football.

Drew Brees pode não ter sido o herói que New Orleans queria, mas foi o que a Louisiana precisava. Sua carreira na cidade foi de reconstrução no mesmo momento que a cidade reconstruia seus prédios, tijolo por tijolo. Esporte é mais do que tackle: é uma magia que toma conta de nossas esperanças e potencializa nossa fé em outras coisas da vida.

Não esqueçamos, ele é um ser humano fantástico. Pai dedicado e já vencedor do Walter Payton Man of The Year, prêmio dado anualmente pela NFL ao jogador que mais se destaca em trabalho voluntário em sua comunidade.

2nd and 7: Ele fez muito com pouco

Se por um lado, Drew Brees é subestimado porque não tem múltiplos títulos de Super Bowl ou Hail Mary pra lá e pra cá, nenhum fez tanto com tão pouco. Considerando 2006 a 2018, apenas 3 times tiveram defesas que cederam mais pontos por jogo que os Saints. 29ª pior defesa. Mesmo assim, o time foi para os playoffs várias vezes e, graças a Deus, ele tem um anel de Super Bowl.

Por anos a fio, Drew carregou New Orleans nas costas. O lixo de defesa que o time teve em boa parte desta década, a total ausência de jogo terrestre em alguns períodos e a necessidade de passar a bola para correr atrás de viradas no final de partidas não o intimidaram.



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Enquanto muito é falado de Tom Brady jogando em alto nível aos 41 anos, pouco foi falado sobre o fato de que nenhum jogador passou para mais jardas após os 30 anos – 45.845. Drew tem 39 anos e ninguém fala nada sobre isso. Nada contra Brady – vocês sabem que o amo. Mas por que não mencionamos o ABSURDO que é ver um cara como Brees jogando como está aos 39?

Tamanho, tampouco, importou. Antes de Drew Brees, praticamente nenhum quarterback com menos de 1,80m teve sucesso na NFL. Se muito, Fran Tarkenton – o primeiro de muitos quarterbacks móveis, mas esquecido por ter tomado pancada em vários Super Bowls. Se não fosse por Brees, você não teria times apostando em Russell Wilson – o próprio agradeceu Brees no Instagram – e em Baker Mayfield no topo do Draft.

A grande história sempre foi: quarterbacks precisam ser altos para enxergar acima dos titãs da linha ofensiva – se forem baixos, com menos de 1,85 cm, seu desempenho acaba prejudicado. Ainda, terão, por tabela, mãos menores – mais fumbles, por tabela. Drew dinamitou todos esses preconceitos. Ainda há os apaixonados, como Mel Kiper, pelos Josh Allens da vida no Draft – mas a altura importou menos hoje do que importava em 2001.

Não é também como se Drew tivesse um elenco fantástico, em termos de recebedores, em toda sua carreira. Ele ajudou jogadores a serem potencializados. Michael Thomas nem de longe era o mais bem cotado wide de seu Draft – hoje, é um dos três melhores recebedores da NFL. Marques Colston, para quem não se lembra, foi escolha de sétima rodada e recebeu 9 mil jardas de passes de Brees.

3rd and 4: Ele não tem Hail Mary, mas sãoúmeros momentos inesquecíveis

Do primeiro passe completo, na Semana 8 de 2001, até o passe para que quebrou o recorde de jardas pertencente a Peyton – não haveria forma melhor disso acontecer – foram momentos e momentos. Momentos que geraram alegria a milhões de pessoas.

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Na semana 3 de 2006, Brees ajudou New Orleans a vencer a primeira partida na volta do time ao Superdome – a partida ainda contou com bloqueio de punt de Steve Gleason (dê um google nesse nome e se emocione com sua história). Em 2009, um jogo com rating perfeito – 158.3 – contra os Patriots. No mesmo ano, o título, até agora, único – Super Bowl XLIV.

Em 2011, quebrou o recorde de mais jardas numa só temporada – o recorde durou de 1984, Dan Marino, até a ocasião (e seria quebrado em  2013 por Manning). Em 2012, os 48 jogos seguidos com pelo menos um passe para – o recorde era de Johnny Unitas e durou décadas. Em 2015, um jogo com sete touchdows – empatado com muitos pelo recorde.

Nesse meio tempo, são cinco temporadas com 5000 jardas passadas – o resto da NFL tem 4 temporadas assim. Ele, sozinho, tem mais do que todos os outros. Mais jardas passadas na carreira e, em breve, mais touchdowns. Neste ano, é o único quarterback titular que ainda não foi interceptado – estamos na Semana 6, vale lembrar.

Quer mais?

  • Mais temporadas seguidas para 4000 jardas (12)
  • 7 temporadas liderando a NFL em jardas passadas
  • Mais jogos para 400 jardas (16!!!!)
  • Mais jogos para 300 jardas (112!!!)
  • Melhor porcentagem de passes completos numa temporada (72% em 2017)
  • Mais passes completados numa carreira

E eu poderia ficar aqui até amanhã com números.

4th and 1: E então, por que não temos mais amor?

Não sei. São vários motivos. Faltaram títulos, faltou defesa ajudando do outro lado. O fã médio gosta de anéis, não de performance.

Em várias colunas, eu sou “Seu Malvado Favorito” e critico quarterbacks. Nesta, faço questão de ser o cabo eleitoral de Drew Brees no Brasil. Quero que esse cara esteja sempre na discussão de bar sobre “Quem é melhor de todos os tempos”. Pode não ser para você, mas o nome dele não pode mais ficar no limbo como vem estando.

Brinquei uma vez e afirmo: é como o McNuggets no cardápio do McDonald’s. Você já deve ter pedido um dia e, tipo, é muito bom. Mas te empurram batata-frita no combo e você nunca contestou o porquê de não pegar outro acompanhamento para seu sanduíche. É hora de abrir o olho: Drew é fantástico.

Ainda há pelo menos uma temporada e meia para você acompanhar ele. Para você poder falar que viu Drew Brees jogando, passando a bola, melhorando os números da linha ofensiva com seu release absurdamente rápido, com sua poesia em trabalho de pés.

Após o recorde, a repórter do Monday Night Football lhe perguntou o que motiva ele a ir para campo. “Eu apenas amo jogar este esporte”. Está na hora de você amá-lo também.




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