Uma senha sera enviada para seu e-mail

Leitura Rápida: A NFL demonstra total inconsistência quando aplica punições a seus atletas. Antidoping dá quatro jogos – enquanto violência doméstica constantemente tem punição de três ou menos.



A NFL divulgou ao final desta semana o que já imaginávamos: Jameis Winston foi suspenso pelos três primeiros jogos da temporada 2018. A suspensão tem base nas regras de política pessoal da liga e vem após longa investigação privada que a NFL conduz desde que os fatos foram narrados pela imprensa americana em novembro do ano passado. De acordo com o apurado pela liga, Winston assediou uma motorista de Uber em 2016. O quarterback do Tampa Bay Buccaneers estava bêbado e colocou a mão entre as pernas da motorista sem seu consentimento.

A narrativa contada por Winston não batia e a liga fez uma investigação diligente, que, além de entrevistas, examinou dados telefônicos e todo o mais.

“A liga prontamente começou uma investigação com várias pessoas, incluindo a motorista, Winston e outros relevantes para entender os fatos. A NFL também examinou uma longa lista de provas, incluindo histórico de ligações telefônicas, dados de celulares e outras comunicações [à época dos fatos]”, diz o release da liga ante a suspensão. “Baseando-se nessa investigação, a NFL descobriu que Winston violou a política de conduta da liga, o que permite disciplina mesmo que não haja processo penal em curso”, prossegue a declaração da NFL.

Contudo, a liga constantemente se embanana – para não dizer outra coisa – quando aplica as punições. Em uma linha de raciocínio simples, quanto pior o ilícito, maior a punição. Não vou entrar nos detalhes quanto às teorias da pena – um assunto do qual gostava bastante na época da faculdade – mas a pena é aplicada como:

a) Retribuição da sociedade ante o ilícito
b) Como forma de “exemplo” para que outros não comentam o mesmo ilícito
c) Como medida educativa para que o sujeito que cometeu o ilícito não o pratique mais

Seja como for, costuma haver uma relação entre a severidade da pena e a severidade do ilícito. Tomemos como exemplo o homicídio, que é um crime contra a vida. Aqui no Brasil, a pena é iniciada com seis anos de reclusão. O furto, um crime contra o patrimônio, tem pena iniciada em um ano. Obviamente, a vida é um bem mais valioso que uma coisa – assim, a pena obviamente é maior para crimes contra a vida.

No caso da NFL, embora o direito trabalhista tenhaúmeras diferenças em relação ao penal, faria lógica que a liga tivesse punições maiores para violações mais graves.

Mais sobre: Dois pesos e duas medidas: a NFL tem um problema sério para punir seus jogadores

Ante o escândalo Ray Rice – para quem não se recorda, o ex-jogador do Baltimore Ravens espancou a companheira num elevador – a NFL emitiu comunicado e penas mais severas pareciam se avizinhar. “De efeito imediato, violações de Conduta Pessoal quanto a agressão, violência doméstica ou sexual envolvendo força física serão objeto de suspensão sem pagamento por seis jogos“, escreveu Roger Goodell, comissário da liga.

Ué?

Foi justamente o que não aconteceu no caso de Jameis Winston. A máquina de relações públicas da NFL mais uma vez fez o oposto do que um relações públicas deve fazer.

Em vez de apagar incêndios, ela cria incêndios.

À primeira vista, parece que a liga fez o correto em termos de relações públicas: fez um acordo com o quarterback para que ele pedisse desculpas publicamente e para que ele não entrasse com recurso ante a punição. Em troca, a pena seria mais branda. Em tese, funciona assim no direito penal americano: muitas vezes a promotoria entra em acordo com suspeitos para que o processo não se arraste – coisa que não acontece no Brasil, vale lembrar.

A NFL emprestou-se desse expediente para que a confusão não seguisse e para que as pessoas esquecessem dos fatos e continuassem com suas vidas. Até porque, como “nada acontece” em junho, um recurso de Winston faria com que os fatos estivessem constantemente no noticiário.

É um expediente torto quando levamos em consideração as outras punições aplicadas pela liga.

Não há qualquer parâmetro quanto às punições.

Ezekiel Elliott recebeu os seis jogos que faziam sentido de acordo com o quê Goodell disse após o caso Ray Rice. Josh Brown, então kicker dos Giants, tomou punição de UM JOGO ante um episódio de violência doméstica. Andrew Quarless, então tight end dos Packers, tomou dois jogos de gancho após atirar pro alto com uma arma de fogo durante uma discussão com uma mulher. Jonathan Dwyer, então running back dos Cardinals, foi suspenso por três jogos após dar uma cabeçada em sua esposa, quebrando seu nariz. E, agora, Winston é suspenso por três jogos.

Ao mesmo tempo, Martavis Bryant foi suspenso por uma temporada inteira após cair no antidoping por maconha. Antes, havia sido suspenso por quatro jogos. Josh Gordon, também reincidente no doping por maconha, chegou a ser suspenso de maneira indefinida.

A punição padrão para PED (drogas proibidas, sejam recreativas como maconha ou drogas que melhoram a performance – anabolizantes, por exemplo) é de quatro jogos. Só acima, você tem quatro exemplos de jogadores que se envolveram em episódios de violência doméstica ou sexual e que foram suspensos por duração menor do que um atleta que foi pego no antidoping por uso de maconha. Sinceramente, não faz o menor sentido.


Leia mais:   Podcast, Ep 99: Recap da Semana 2, começa o empolgou com Mahomes

Tom Brady foi suspenso em 2015 – cumprindo a punição em 2016 – por quatro jogos porque “foi mais provável do que improvável” que ele tenha dado ordens a dois empregados do New England Patriots para que esses esvaziassem as bolas, colocando-as com pressão abaixo do permitido pelo regulamento da liga.

Esvazie bolas ou fume maconha e sua punição será maior do que dar uma cabeçada na esposa. Faz sentido? É claro que não, né?

O modo pelo qual a NFL conduziu a investigação ante os fatos ocorridos em 2016, com Jameis Winston e a motorista de Uber, demonstrou bastante diligência. A liga parece ter aprendido, nesse aspecto, com o caso Ray Rice. Na ocasião, o site TMZ (equivalente ao EGO/Tv Fama dos EUA) foi o responsável por divulgar o vídeo da agressão. A liga não tinha conhecimento do mesmo.

Contudo, a liga parece não ter aprendido com todos os eventos que ocorreram desde então no que diz respeito à punição após a investigação. E tampouco aprendeu com a Major League Baseball: a liga de beisebol usa árbitros independentes quando algo assim acontece com seus atletas. Como a NFL é parte interessada, mesmo que indiretamente, é temerário que seja juíza também. É óbvio que vai dar besteira – como vem dando.

Boa parte dos jogadores com punição inconsistente que listei acima, são, com todo respeito, anônimos. Winston, a exemplo de Ezekiel Elliott – caso no qual a punição fez sentido com o que a liga prometeu – é uma figura conhecida. Resta saber: o incêndio de relações públicas causado pela inconsistência na punição e alimentado pela fama de Jameis vai fazer a liga finalmente aprender e demonstrar coesão entre violação e pena?

É o que esperamos ver.

 




SIGA-NOS!

Siga-nos no Instagram: @antonycurti
Inscreva-se em nosso canal do YouTube, vídeos novos toda semana.


“proclubl"