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Beber na fonte é muito mais comum do que a maioria das pessoas pensam. Muito do sucesso surge da possibilidade de ter aprendido com uma grande mente que brilhou antes de ti. Estas conexões ficam simples de se encontrar em todos os ramos: seja na política, nas ciências, tecnologia ou até mesmo entre técnicos – inclusive de futebol americano.

Na política, este beber na fonte não ocorre apenas dentro da família, como no caso de ACM para ACM Neto, Tarso Genro para Luciana Genro, etc. Saindo da ditadura, várias figuras da política nacional assumiram papéis de liderança na abertura política dentro do país como Mário Covas, Ulysses Guimarães, Lula e Leonel Brizola – todos candidatos em 1989. Todos eles, em um grau menor ou maior, acabaram influenciando políticos que foram surgindo no cenário nacional e fizeram as suas “árvores genealógicas”.

Beber da fonte e “árvore genealógica” não ficam restritas a política – tanto nacional quanto internacional. No ramo da tecnologia, por exemplo, Bill Gates e Steve Jobs (fundadores da Microsoft e da Apple) beberam da fonte de empresas como a IBM e a Xerox – como relatado no excelente Piratas do Vale do Silício.

Nas ciências estas “árvores genealógicas” são ainda mais visíveis devido a figura do orientador ao longo da formação. Louis de Broglie foi orientado por Paul Langevin, que aprendeu tudo com Pierre Curie. Ralph Fowler, por exemplo, influenciou nomes notáveis como Paul Dirac, Douglas Hartree, John Lennard-Jones e Nevill Mott. Continuando nas exatas, duas das sucessões mais notáveis da história ficam por conta das árvores criadas por Max Planck (Gustav Hertz, Max von Laue e Walter Schottky) e Carl Gauss (Friedrich Bessel e Bernhard Riemann). Todos estes cientistas notáveis não influenciaram apenas seus orientados, mas os orientados de seus orientados e assim por diante, criando uma verdadeira escola.

Este tipo de escola, aliás, é muito comum também entre técnicos do futebol bretão. A escola gaúcha, com Felipão levando o Brasil ao pentacampeonato e também ao 7×1 (imagens de dor e sofrimento), rendeu inúmeros técnicos nacionais ao longo do ano. No nível internacional, a escola de técnicos de Portugal hoje em dia vem ganhando espaço, principalmente após José Mourinho ter ajudado na revolução que o esporte viu, em termos táticos, nos últimos anos.

E o que tudo isto tem a ver com o futebol americano? Tudo e mais um pouco. Os melhores exemplos de todos sobre “árvores genealógicas” surgem das coaching trees (árvores de treinadores) que existem no esporte. O melhor de tudo é que apenas três indivíduos influenciaram a grande maioria dos técnicos principais de hoje em dia.

Por ser um esporte muito tático e técnico, é natural que grandes técnicos criem grandes coordenadores e eles acabem virando grandes técnicos – influenciados pelas ideias de seus mestres. Por isso você escuta toda intertemporada que o coordenador defensivo do Seattle Seahawks (ou do Arizona Cardinals) ou um coordenador de Andy Reid  irá ter a chance de se tornar um técnico principal: sistemas que dão certo acabam atraindo a atenção de franquias despedaçadas.

O mais curioso de tudo é que, hoje em dia, dificilmente se ouve que um coordenador ofensivo ou defensivo de Bill Belichick será entrevistado para uma vaga de técnico principal. Apesar de ser um ramo prolífico no passado, hoje em dia os ex-coordenadores do mandatário do New England Patriots acabaram sendo preteridos, mas por quê? Não tem ninguém decente ou tem algo a mais? Josh McDaniels comanda um ataque extremamente criativo e versátil, logo seria estranho ele não ser entrevistado por ninguém, certo? Antes de tentarmos responder estas perguntas, vale a pena conhecer um pouquinho mais sobre estas coaching trees que a NFL possui.

A coaching tree da NFL

Hoje em dia, três grandes técnicos do passado influenciaram tanto o jogo que a grande maioria dos treinadores da liga são seus ex-coordenadores – ou ex-coordenadores dos pupilos. Por causa disso, é um jargão falar que Bill Walsh, Marty Schottenheimer e Bill Parcells formam as três gigantes coaching trees da NFL.

Dos 32 técnicos, apenas Chip Kelly (e Dirk Koetter, caso você considere que ele veio pronto já para a NFL pela vasta experiência no futebol americano universitário) não tem qualquer ligação com um desses três treinadores. Vale ressaltar que Walsh seria proveniente da coaching tree de Sid Gillman, lendário técnico do San Diego Chargers que foi responsável pelo sucesso da AFL – visto que ele foi assistente de Al Davis. Porém foi no Cincinnati Bengals, de Paul Brown, que ele desenvolveu a West Coast Offense, aplicada mais tarde no San Francisco 49ers. Por causa disso, fica claro que Walsh merece ser “descolado” de qualquer outra árvore e ter a sua própria – o impacto que ele trouxe para a liga foi gigantesco.

Dentro desta estrutura, Bill Belichick pertence a coaching tree de Bill Parcells. Foi com ele que o atual técnico dos Patriots aprendeu tudo sobre esquemas defensivos, se capacitando até mesmo para parar o ataque do Buffalo Bills no Super Bowl XXV – um feito que está imortalizado no Hall da Fama em Canton, OH. Com um jeito bem peculiar, Belichick não vingou no Cleveland Browns, mas tornou-se a lenda que é hoje no New England Patriots e teve inúmeros coordenadores que acabaram virando técnicos principais: Nick Saban, Kirk Ferentz, Bill O’Brien, Josh McDaniels, Eric Mangini, Romeo Crennel e Charlie Weis. Tirando Weis e Ferentz, todos os outros foram técnicos principais na NFL – e nenhum deu certo.

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O caso Josh McDaniels

Para entender o porquê desta coleção de nomes não ter dado certo até agora (O’Brien ainda está no caminho), nada melhor do que olhar para Josh McDaniels. Como a maioria dos fãs dos Patriots sabem, desde que McDaniels voltou para a franquia, o ataque dos Patriots é o que mais pontuou. Ano passado foram sete técnicos ofensivos contratados e um dos melhores coordenadores ofensivos não foi sequer entrevistado. Certamente há algo errado, que representa muito bem o motivo dos coordenadores de Belichick (como Matt Patricia) serem ignorados para estas vagas. Vale lembrar que McDaniels já teve uma experiência como técnico principal do Denver Broncos (e do St. Louis Rams) e foi o pior período possível para a franquia – o que rendeu até um site dos torcedores de Colorado.

McDaniels era o coordenador ofensivo daquele ataque primoroso da temporada 18-1 e também foi o responsável pelo ataque do 11-5 liderado por Matt Cassell, logo virou um dos coordenadores mais cobiçados. Em 2009 ele acabou tornando-se técnico principal do Denver Broncos, trazendo toda a esperança de uma franquia que tinha um bom núcleo jovem liderado por um quarterback chamado Jay Cutler.

Um mês depois de ser contratado, ele tentou fazer uma grande troca para achar o seu quarterback – Matt Cassell, então reserva de Tom Brady, por Jay Cutler. O problema é que Cutler não tinha tido uma temporada ruim: ele havia passado para mais de 4500 jardas, 25 touchdowns e 18 interceptações. Aliás, o próprio Denver terminou 8-8 e esperava-se que com um técnico ofensivo em ascensão, os Broncos iriam para o próximo nível – só não imaginavam que era para baixo.

Cutler não gostou da tentativa de troca por baixo dos panos e acabou pedindo, formalmente, para ser trocado. Como todos sabemos, foi Cutler e veio Kyle Orton, duas escolhas de primeira rodada, uma de terceira e outra de quinta. Apesar do início 6-0, Orton se machucou e os Broncos foram ladeira abaixo, terminando 8-8. Na intertemporada seguinte, McDaniels acabou perdendo alguns técnicos de sua comissão técnica, com destaque para Mike Nolan que havia arrumado o sistema defensivo da franquia. Seu estilo intempestivo (fez até um trash talk com Shaun Phillips) e difícil de lidar parecia afastar outros técnicos.

Na mesma intertemporada, houve a troca de Peyton Hillis por Brady Quinn e Brandon Marshall foi para o Miami Dolphins – Marshall era um dos jogadores que, digamos, não se dava bem com o técnico. Para melhorar, ele usou a segunda escolha de primeira rodada que possuía para draftar… Tim Tebow – que todo mundo sabia que não conseguia passar. O resto da temporada continuou pior ainda: os Broncos acabam com um vergonhoso 4-13 e até levantaram polêmica por terem gravado o final de um treino do San Francisco 49ers. No fim do ano, McDaniels foi demitido e saiu com uma terrível reputação, com alguns jogadores dizendo que não queriam jogar por ele. Ele, mesmo assim, ganhou uma segunda chance em St. Louis (em 2011), porém não conseguiu implementar nada e acabou demitido ao fim do ano.

E os outros?

Não foi só McDaniels que foi mal. Nick Saban foi um verdadeiro desastre e Eric Mangini ficou mais conhecido por denunciar o Spygate do que pela sua atuação no New York Jets – e depois Cleveland Browns. Já Romeo Crennel, mesmo após uma passagem totalmente esquecível, em que não conseguia chegar perto de achar um quarterback em Cleveland, ganhou uma segunda chance no Kansas City Chiefs. Lá, ele resolveu ser coordenador defensivo E técnico principal ao mesmo tempo – é óbvio que não deu certo. Após o início 1-7, ele mudou de ideia, porém era tarde demais. Além disso, sua passagem pelos Chiefs também ficou marcada pela triste situação que envolveu Jovan Belcher.

Dos que ficaram apenas no futebol universitário, Charlie Weis foi uma decepção incrível, sendo demitido no primeiro mês da temporada – quando Kansas ainda estava 2-2! Para se ter uma ideia do quão falha foi a sua passagem pelo futebol americano universitário, Weis caiu no sono durante uma reunião do time para tratar do adversário da semana – não fica tão difícil entender o porquê dele ter falhado. Já Kirk Ferentz, que trabalhou com Belichick em Cleveland, está desde 1999 em Iowa e quase ganhou a Big Ten ano passado – caiu na final da conferência para Michigan State.

Por fim, Bill O’Brien é o único técnico que ainda está na ativa – como técnico principal. Seu trunfo foi ter ido para o futebol universitário para treinar Penn State durante a punição do programa. O’Brien fez um belo trabalho com Christian Hackenberg e ganhou a oportunidade no Houston Texans. Ele quase se complicou no ano passado, quando não conseguia saber lidar com a posição de quarterback – ficava alternando o titular e acabou perdendo um pouco de respeito da equipe. Mesmo assim, ele (muito devido ao péssimo momento do Indianapolis Colts) conseguiu chegar aos Playoffs e foi humilhado pelo Kansas City Chiefs no Wild Card.

Por que somente Kirk Ferentz deu certo?

Já ficou claro para ti o padrão dos técnicos que falharam? Contratação de coordenadores que também trabalharam em New England, trazer jogadores que atuavam pelos Patriots, trocas polêmicas e tratar o elenco como… Bill Belichick.

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Kirk Ferentz deu certo por dois motivos: ele começou por baixo e não chegou a pegar todas as manias de Belichick. Nick Saban também não foi exposto ao comportamento do técnico em New England, porém sua experiência no futebol americano universitário moldou a sua falha gigantesca na NFL. Ferentz acabou absorvendo o início da carreira do gênio, podendo filtrar seu comportamento peculiar tanto com a imprensa quanto com o elenco.

O maior erro de todos que falharam foi tentar simular uma atmosfera que só dava certo em New England. E ela só deu certo porque Belichick é um vencedor, um verdadeiro gênio – e que nenhum coordenador dele vai conseguir o ultrapassar. Este comportamento único, de cortar jogadores pelo comportamento extra campo ser duvidável, ser o manda-chuva e dar pouca bola para a imprensa, só dá certo quando você tem um histórico vencedor.

O melhor exemplo para provar isto é Chip Kelly. O, agora técnico do San Francisco 49ers, adotou um estilo parecido: tratava a imprensa de qualquer jeito, fez cortes e trocas polêmicas e, ainda por cima, parecia distante de seus comandados. Seu estilo só conseguiu resistir até seu sistema ser único. Quando ele começou a ser dominado pelas defesas adversárias, naturalmente ficou desgastado e acabou demitido. O mesmo aconteceu com McDaniels, Mangini, Crennel e pode ser o destino final de O’Brien.

A liga já entendeu que os técnicos que crescem sob a tutela de um dos mais vitoriosos da história não sabem discernir e se adaptar a situações contrárias da encontrada em New England. Não dá para emular a franquia assim como Dan Quinn e Gus Bradley tentam fazer com o sistema de Pete Carroll: Bill Belichick é único e seu sistema só vai funcionar com ele. Pode ser que Josh McDaniels e Matt Patricia ganhem uma chance no futuro, mas a história deixa os donos ao redor da NFL realmente preocupados. Eles só vão conseguir esta chance quando perceberem o óbvio: estão longe de poderem simular o mesmo comportamento de Bill Belichick.