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Nesse primeiro quarto da temporada 2017 da NFL, alguns fenômenos têm chamado a atenção. Um dos mais relevantes é a percepção coletiva de que o nível ofensivo não está muito elevado, particularmente quando levamos em conta a emoção gerada durante as partidas.

Claro que podemos apresentar vários exemplos de bons desempenhos ofensivos mas, de uma maneira geral, os ataques não têm sido explosivos. Muito tem sido falado, corretamente, sobre o impacto da performance ruim das linhas ofensivas nesta questão, mas outros fatores influenciam o processo.

Talvez o mais importante deles seja o direcionamento estratégico dos ataques da liga para sistemas ofensivos baseados em passes curtos e rápidos. Nestes sistemas, frequentemente é exigido menos do quarterback, tanto mental quanto fisicamente. Daí vem a alcunha de sistema “amigável” ao quarterback (no inglês, “QB friendly“)

Hoje trazemos para a discussão o sistema ofensivo que predomina na liga nesta temporada. Mais do que isso, vamos nos concentrar em dois exemplos nos quais, mesmo com o uso do sistema em teoria mais simples, os quarterbacks vêm tendo muitas dificuldades: Baltimore Ravens (Joe Flacco) e Miami Dolphins (Jay Cutler)



“canecas"

O estilo ofensivo predominante

Snap, leitura rápida, passe curto… repete, repete, repete. Na NFL de 2017, muitos ataques têm se comportando desta maneira. A junção da tradicional West Coast Offense da NFL com os sistemas spread oriundos do futebol universitário criou um híbrido que se espalha por grande parte da liga. Podemos citar vários exemplos, alguns que têm obtido bastante sucesso, como Detroit Lions e Los Angeles Rams.

O que vemos nestas duas equipes são combinações de rotas curtas, frequentemente com cruzamentos entre recebedores, gerando situações de “obstruções naturais” (os chamados picks). Isso facilita a abertura rápida do espaço para o passe curto, buscando o avanço rápido e a possibilidade de YAC (jardas após a recepção). Descidas subsequentes com distâncias mais curtas facilitam a repetição do processo. Corridas a partir de formações spread completam o cenário, obrigando a defesa a se manter “honesta”. Nos exemplos que citamos acima, os quarterbacks Matthew Stafford e Jared Goff vêm jogando bem, de maneira eficiente.

Entretanto, dois quarterbacks muito experientes têm tido dificuldades para atuar dentro de sistemas desse tipo. Com características diferentes, Joe Flacco e Jay Cutler se assemelham em 2017. Nenhum deles parece à vontade dentro dos ataques que comandam. Vamos tentar esmiuçar o caso de cada um.



Joe Flacco: fora do lugar ou fora do tempo?

Joe Flacco fez fama na liga como um bom passador em profundidade. Dono de um braço potente, o quarterback do Baltimore Ravens, mesmo em seus momentos de maior sucesso, nunca comandou um ataque de ritmo, mas com muitas corridas e alguns passes longos. Sua porcentagem de passes completos, sempre próximo aos 60%, indica também isto.

A partir de 2015, no entanto, começa a ser perceptível uma mudança no estilo de Joe Flacco e no ataque dos Ravens. A média de jardas por tentativa de passe do quarterback, acima de 7,0 em várias de suas melhores temporadas, começa a se aproximar de 6,0. Ou seja, passes mais curtos. Junto a isso, tivemos temporadas ruins da equipe como um todo. É claro que isso envolve muito mais do que apenas a performance do quarterback, mas é fato que, desde 2015, Flacco parece estar tentando se reencontrar.

Agora em 2017, no entanto, Joe Flacco parece cada vez mais distante desse reencontro. Flacco apresenta marcas ruins, com 5,1 jardas por tentativa. Ao utilizarmos a estatística avançada ANY/A (jardas por tentativa ajustada para sacks e interceptações), o número de Flacco é ainda pior: 2,7.

A impressão é de que Joe Flacco é um quarterback que, nos últimos três anos, está fora do seu lugar. É como se estivesse sendo forçado a ser um quarterback que não é, e que não parece capaz de ser. Cabe a dúvida, no entanto, se a questão não é outra: talvez Flacco não consiga mais ser o quarterback que foi, capaz de acertar passes muito longos várias vezes por jogo. Talvez o resto da temporada 2017 já nos diga muita coisa sobre isso.

Jay Cutler: “um morto muito louco?”

Que exagero… será? Jay Cutler, que havia se aposentado ao final da última temporada, decidiu voltar à NFL já bem próximo do começo dos jogos em 2017, quando foi chamado pelos Dolphins após a contusão de Ryan Tannehill. Vendo o quarterback jogar, é fácil se perguntar… voltou pra quê?

Jay Cutler sempre foi um quarterback irregular. Com um braço potente e, muitas vezes, preciso, Cutler sempre prometeu muito e entregou pouco. Interceptações frequentes, muitas vezes nos momentos decisivos dos jogos, além de uma postura sempre um pouco distante, quase desinteressada, mancharam o que poderia ter sido uma ótima carreira.

Nos Dolphins, em 2017, o técnico Adam Gase (que já havia trabalhado com Cutler no Chicago Bears), resolveu encaixar o quarterback em seu esquema de passes de ritmo, com foco importante em YAC. Faltou combinar com o próprio Cutler, pelo jeito. O quarterback segue muito lento na movimentação no pocket, demorando sempre mais um segundo que o necessário para processar a jogada.

Claro que, em um sistema de passes e leituras mais simples, Jay Cutçer alcança uma porcentagem de passes completos mais alta (66%). No entanto, a eficiência real segue muito baixa, representada em um ANY/A de 5,8 (de longe a pior marca da carreira de Cutler – mas ainda assim bem maior que a de Joe Flacco…).

No caso de Jay Cutler, pior do que os números é a postura, cada dia mais desinteressado, sem vida mesmo. A brincadeira do título da seção nem parece tão descabida agora…



Amigável pra quem?

Quando falamos de um sistema ofensivo “amigável” para o quarterback, é importante não cair no erro de considerar todos os jogadores como iguais. Cada um vai se adaptar melhor a um estilo de jogo. Frequentemente quarterbacks que correm com a bola, vindos de universidades que utilizavam sistemas como spread option e suas variações, recebem a seguinte descrição: “esse jogador precisa que se monte todo um sistema só pra ele”. Na verdade, isso vale pra maior parte dos quarterbacks.

Sistemas que geram alto índice de passes completos e poucas interceptações fazem os técnicos e coordenadores ofensivos ficarem “bem na fita”. Daí surgem muitos supostos “gurus de quarterback“. Mas nem todo quarterback vai se adaptar bem a este padrão. Joe Flacco talvez se beneficiasse de um sistema em que lançasse mais passes em profundidade, mesmo que isso diminuísse sua porcentagem de passes completos. Para Jay Cutler talvez o mesmo princípio valesse, mas, pra dar certo de verdade, só achando um jeito do quarterback dos Dolphins mudar muito de personalidade. Difícil.

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“RODAPE"