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Quatro Descidas é a coluna semanal de Antony Curti sobre a NFL, publicada todas as segundas. São quatro assuntos e não mais que 3000 palavras (ou quase… Às vezes vai passar). Para ler o índice completo da coluna, clique aqui.


1st and 10: Por que eu, como pessoa, não draftaria Jameis Winston

Vamos começar a coluna de uma maneira diferente. Abaixo, um texto escrito por mim no dia 25 de abril de 2015, às vésperas do Draft 2015. Ele é de suma importância para esta coluna, porque contextualiza bastante o que está acontecendo agora, em junho de 2018.


Podem dizer que que quiser dele como atleta. Eu até concordo com 90% dos scouting reports sobre de Jameis Winston. Presença de pocket, antecipação como passador e coragem para virar jogos. Winston pode ser escolhido na primeira pick geral do Draft de 2015. Provavelmente o será; Winston pode ser a peça que falta para o Tampa Bay Buccaneers ser competitivo.

Mas nós, como seres humanos, precisamos traçar uma linha sobre a violência doméstica na NFL. Ray Rice, Ray McDonald, Greg Hardy, Adrian Peterson. Todos se transformaram em um pesadelo para Roger Goodell no ano passado. Todos, com exceção a Rice, devem estar em pelo menos um snap neste ano. Todos acusados – e alguns com provas irrefutáveis – de violência doméstica. E Jameis Winston também deve jogar snaps na NFL neste ano. Jameis Winston. Que faz Johnny Manziel parecer uma princesa da Disney quando o assunto é conduta extracampo.

Jameis Winston, em 25 de novembro de 2012, foi abordado pela polícia no campus de Florida State após uma ligação para o 911 dizendo que três homens portavam armas – Winston era um deles. Após serem algemados, são liberados após a justificativa de que estavam atirando em esquilos com uma arminha de chumbinho. No mesmo dia, horas depois, se envolveu com Mario Edwards e Kenneth Williams (também jogadores de Florida State) num incidente com a mesma arma – que era de chumbinhos – e causou 4 mil dólares de danos na moradia estudantil de Florida State.

Em 7 de dezembro de 2012, Jameis Winston é acusado de estuprar uma mulher em seu apartamento. A mulher reporta o delito à polícia naquele dia e cinco semanas depois identifica Winston como seu agressor após vê-lo numa aula. A Polícia de Tallahassee, cidade onde fica o campus de Florida State, arquiva as investigações e nove meses depois reabre o caso – enviando o mesmo para o gabinete do Ministério Público. Este conduz investigação e chega à conclusão que não há provas suficientes para formular denúncia – o que juridicamente falando é um absurdo, dado que apenas indícios de autoria e materialidade do delito são necessários para tanto. Quem decide se há ou não delito e eventuais culpados é o processo penal, conduzido por um juiz.




Os advogados de Jameis dizem que o ato sexual foi consensual – eles assumem, portanto, que ocorreu um ato sexual. Nada acontece. Nem administrativamente em Florida State, com punição ou uma investigação mais severa, e nem criminalmente no Estado da Flórida após as acusações serem arquivadas.

Em 21 de julho de 2013, Jameis Winston é acusado de entrar num Burger King em Tallahassee e pegar refrigerante na máquina sem pagar – nos Estados Unidos os BKs tem refil como aqui, não fica do outro lado do caixa. Um empregado do restaurante diz à polícia que deu a Winston um copo d´água num copo com marca do restaurante – ele depois pega esse copo e usa na máquina, com refil. Nada acontece, nem denúncia, nem investigação e nem nenhuma punição.

Em 29 de abril de 2014, Jameis Winston é acusado de furtar 32 dólares em patas de caranguejo num supermercado de Tallahassee. Uma citação acontece – mas em termos civis, não criminais. Ele realiza serviço comunitário e diz para a polícia que “esqueceu” de pagar pelas patas de caranguejo. Não discuto que a punição tenha sido adequada – até por juridicamente haver o princípio da insignificância, o qual desconsidera punição de cerceamento de liberdade para pequenos delitos.

Em 16 de setembro de 2014, Jameis Winston é visto por vários pulando numa mesa do campus enquanto gritava, do nada, palavrões e ofensas sexuais – F*** ela! F*** ela na b****! Jimbo Fisher, técnico da equipe, apenas suspende Winston por meio jogo contra Clemson e autoridades da universidade dizem que ele será sancionado de acordo com o código de conduta de Florida State. Ele pede desculpas. Pediu mas mesmo assim vestiu o uniforme e foi para a sideline tumultuar – o que deixou Jimbo Fisher um tanto quanto irritado (além dos companheiros de equipe visivelmente constrangidos).

Em 13 de outubro de 2014, Jameis Winston é investigado sobre supostos autógrafos que teria dado em troca de dinheiro – algo que não é permitido de acordo com o código de conduta da NCAA. Nada acontece na investigação, que é arquivada por oficiais de FSU. Aliás, vale ressaltar, muitos criticam – e ainda corre uma investigação do Departamento de Educação dos EUA – quanto ao “deixa disso” que as autoridades locais sempre tomam como postura em Tallahassee e em Florida State. A relação, aliás, é íntima com a questão de Ray Rice – que caso vídeo espancando uma mulher que dizia amar não vazasse, ainda estaria jogando até hoje.

Veja, escrevi o nome dele várias vezes – numa notória figura de linguagem que vai na contramão da estilização de um texto com coesão – para mostrar literalmente quantas vezes o nome de Jameis Winston se viu envolto em confusões éticas. Se sem receber nenhum centavo de salário enquanto atleta amador-universitário e com fama local ele se portou assim – e embora tenha havido muitas suposições, não é possível essa série faraônica de condutas inadequadas, esse panteão de acusações sejam apenas coincidências – o que esperar de uma fama nacional e contrato milionário? Nota do Antony Curti no futuro ao ler o texto enquanto o edita: sim, é bem possível.

Jameis Winston, que furtou um supermercado, que supostamente estuprou uma menina, que deu um golpe num Burger King, que subiu numa mesa e gritou como um imbecil machista para quem quisesse ouvir. Esta é a eventual primeira escolha do Draft de 2015. Veja, ele pode ser um atleta acima da média, pode ser brilhante. Pode ter sido um messias em Florida State nos dois últimos anos. Campeão nacional, preciso no Combine, vencedor do Heisman, teve Pro Day perfeito, demonstrou um QI de Futebol Americano acima da média. Mas eu queria você soubesse outras coisas sobre ele.

2nd and 6: É isso que queremos dos nossos ídolos?

Este texto, escrito em português e no Brasil, não causou efeito nenhum na Draft Stock de Winston – portanto, para todos os efeitos, não o escrevi de má-fé para prejudicar ele nesse sentido, sequer tenho esse poder.

Ele não perdeu nada, como não perdeu até hoje; pelo contrário, eu vou – perderei seguidores, perderei leitores que consideram isso tudo que escrevi uma grande bobagem politicamente correta. Mas não tem problema; escrevo aqui – e na real, alguém tem que escrever – para que esse exemplo faça com que a gente reflita: o que queremos de nossos ídolos?

Esse tipo de controvérsia não é novidade… OJ Simpson, Ray Lewis, Kobe Bryant, Ben Roethlisberger, todos já tiveram acusações iguais ou piores e até hoje são ídolos. A justiça foi cega pra algum deles? Não faço a menor ideia, mas são manchas na carreira dos mesmos, sem dúvida.

No caso de Winston, vale a reflexão, de verdade. O que podemos fazer quanto a isso? Não faço a menor ideia também… A NFL já teve que realizar esforços de relações públicas de outro mundo, porque cada passo pra frente tomado pra deixar o jogo menos violento e mais atrativo, são dois passos pra trás nos casos de violência doméstica, por exemplo.

Winston já deveria ter entrado na liga no “strike 2”, tanto com a NFL quanto com Tampa Bay. Chega de frouxidão das franquias e da liga nesses casos. Mas mesmo com 31 times pensando assim, sempre terá algum que, visando sucesso, ignore esses fatores. Por isso vamos ver (e já estamos vendo) punições mais fortes. Há cinco anos um cara como Le’Veon Bell jamais seria punido por fumar maconha e dirigir, sendo a “primeira ofensa”. Aí vai de Tampa Bay: há casos e casos de atletas com retrospecto parecido e que deram problemas. A pior posição do mundo para se ter essa ficha é o quarterback: que tem que ser líder, que tem que ser exemplo, que tem que ser espartano. Ryan Leaf, JaMarcus Russell e Bo Calahan do filme Draft Day: poderia ficar até amanhã dando exemplos aqui.

Jameis Winston é o melhor quarterback do Draft de 2015. É alto, forte, tem presença de pocket e há uma alta possibilidade dele levar um time a várias vitórias. Mas eu, como pessoa, não draftaria Jameis Winston.

3nd and 2: Quatro anos depois, o Dilema de Tampa Bay

Voltemos a 2018. A NFC South é a melhor divisão da liga quando o assunto são os quarterbacks. O quarto lugar dessa liga, desde o Draft de 2015, pertence a Jameis Winston. Não que seja um quarto lugar desonroso, porque o resto da divisão é muito forte nesse quesito. Matt Ryan e Cam Newton foram MVPs no período e Drew Brees, bem, é Drew Brees.

Enquanto isso, Winston segue sua parada de interceptações, turnovers estúpidos e, para os que preferem passar a mão em sua cabeça, apenas dores de crescimento enquanto quarterback profissional.

Depois de todos os problemas que descrevi cima, antes dele entrar na NFL, parecia que o extracampo iria ser solucionado. Parecia. Winston segue com os mesmos problemas de maturidade e, alguns diriam, caráter.

quarterback profisisonal, Winston esteve numa escola da região de Tampa Bay e, com todas as letras, disse que “as meninas tinham que ficar em silêncio, serem educadas e gentis” e que “meus meninos, meus meninos têm de serem fortes”. E, agora, vamos ao motivo pelo qual ele deve ser suspenso por três jogos pela NFL.

Em março de 2016, no Arizona, mais um problema. As acusações só vieram à tona em novembro do ano passado, pelo BuzzFeed. Uma mulher, identificada como “Kate”, foi motorista de Winston numa viagem de Uber. Durante essa viagem, Winston alegadamente teria chegado perto da mulher – sem consentimento – e apertado suas coxas enquanto estavam parados num drive thru de comida mexicana.

O restaurante disse para a imprensa americana que não tinha arquivo da câmera de segurança naquele dia. Nenhuma acusação foi feita formalmente pela mulher na polícia – o que não tira a legitimidade e a possibilidade dos eventos terem acontecido, que fique claro. A Uber retirou Winston do cadastro de passageiros. A NFL conduziu investigação e a suspensão parece iminente.

Ante todo esse problema, os Buccaneers querem se mexer. O time investiu em jogadores de linha defensiva e parecem ter a fórmula para finalmente deixarem de ser a “menina dos olhos dos analistas” para concretizarem algo. A equipe fez um Draft razoável e endereçou problemas no recrutamento e na free agency. Na segunda rodada, trouxe Ronald Jones e o running back pode ser a resposta para o péssimo jogo terrestre da equipe.

Na free agency e no Draft, como dito, Tampa parece querer seguir a fórmula corrente de equipes vencedoras: uma linha forte. Vinny Curry e Jason Pierre-Paul foram os veteranos contratados. Vita Vea, a escolha de primeira rodada.

Embora tudo pareça querer se encaixar, temos o problema de Winston. Enquanto Cam Newton fala muita besteira – “é engraçado ouvir uma mulher falando sobre rotas” – o quarterback dos Buccaneers faz muita besteira. E a suspensão não poderia vir em pior momento.

4th and 1: Salve-se quem puder

O poder de cortar – ou não – tem competência distinta em cada equipe. Algumas dão esse poder diretamente para o head coach, outras retém o poder para o general manager. Seja como for, em Tampa Bay, ambos estão com a corda no pescoço.

Dirk Koetter, técnico “escolhido a dedo” por Winston, tinha tudo para ter sido mandado embora no ano passado e não o foi. Jason Licht, o general manager, está no cargo desde 2014 e podemos dizer que seu futuro nesse cargo depende demais da temporada 2018. Os Buccaneers não têm mais desculpas: o time é o clássico exemplo de subperformance. Embora houvesse grave problemas na linha ofensiva e defensiva, a equipe vem tendo campanhas abaixo do esperado por algum tempo.

Depois de tantas coisas feitas ou, supostamente, feitas por Winston e um “nada acontece” como resultado, talvez tenha chegado a hora do karma bater a sua porta. Koetter e Licht podem ganhar uma sobrevida em seus empregos caso tomem uma medida enérgica ante Winston.

Antes de mais nada, antes de falar que medida poderia ser essa, vamos aos números de Jameis. Nunca foram grande coisa e nem de longe justificaram o fato dele ter sido primeira escolha geral do Draft daquele ano. Winston nunca teve uma temporada com menos de 10 interceptações – mesmo quando não jogou todos os jogos, como na temporada passada. Sua média de passes completos nunca ultrapassou 63%. Seu rating nunca foi melhor do que 92 – com menos jogos, lembrando. Em temporadas de 16 jogos, não passou de 86.

Em resumo, o quarto ano de Winston seria o paradigma para que, ou todo mundo afundasse, ou avanço acontecesse. E aí vem a iminente suspensão. Caso aconteça – e tudo indica que acontecerá – os Buccaneers jogarão contra New Orleans Saints, Pittsburgh Steelers e Philadelphia Eagles sem seu quarterback. Ryan Fitzpatrick deve ser o titular contra três equipes que foram para os playoffs no ano passado. Yay.

Depois do 5-11 do ano passado, depois de mais um ano de expectativas destroçadas, não parece o melhor dos cenários. O 0-3 com Fitzpatrick é iminente. A demissão de Koetter e Licht, também.


Se eu fosse um deles, sinceramente, cortaria Jameis Winston

Como disse, se eu fosse Licht, sequer teria o draftado. Mas agora já foi, né. De toda forma, o cenário atual, em caso de suspensão, é mais um navio afundando na baía de Tampa. Winston, aliás, teria mentido quanto à história acima. Ele não estava sozinho no Uber. Brandon Banks, ex-jogador de college football que agora está preso por estupro, estava com ele. Ronald Darby, cornerback da NFL que foi colega de Winston na faculdade, também estava.

A confusão é enorme e, obviamente, faz com que pensemos sobre o papel do franchise quarterback. Embora você possa divagar sobre o que ele tem de ser, certamente ele não tem que se envolver em constantes escândalos como é o caso de Winston e sua longa ficha de problemas. Para completar, o dentro de campo nem de perto faz jus ao fato dele ter sido o primeiro jogador a ser escolhido no Draft.

Cortaria, sim, Winston. É uma medida forte, mas que salvaria meu emprego se eu fosse general manager.

Para começar, Winston está em seu quarto ano. Se ele se machucar/tiver lesão nesta temporada, o dinheiro garantido do quinto ano é ativado. Mais ou menos como aconteceu com Blake Bortles em Jacksonville. E são 20 milhões de dólares que prenderiam o time em 2019.

Caso ele seja cortado antes, após eventual suspensão ser emitida pela NFL – o que dificilmente demoraria até a temporada começar – o dinheiro garantido de 2018 deixa de sê-lo (por conta de suspensão) e não haveria qualquer implicação financeira para os Buccaneers. Assim, o problema é maior do que parece: ano passado, vale lembrar, ele perdeu jogos por lesão.

Cortaria Winston, sim. Por todos os motivos acima. E, principalmente, porque o imininente 0-3 com Fitzpatrick colocaria o emprego de todos em risco. Karma, Jameis.

Para seu lugar, os Buccaneers podem pensar em trocar por Teddy Bridgewater. Em termos de relações públicas – e a NFL sempre tenta pensar nisso – seria perfeito. Despacha um quarterback que não performa como esperado e tem problemas extracampo e traz um que foi o exemplo maior de superação na temporada passada. Com Sam Darnold em Nova York, não me parece que os Jets pensam em usar Teddy para algo além de moeda de troca.

É um plano ousado, mas, como dito, um plano que pode salvar o emprego de Licht e Koetter. Caso eles queiram seguir na rota original desse navio, a chance de ice berg é gigantesca. Cabe a eles pensar o que fazer para os dois próximos anos. Eu já sei o que faria. Considerando o extracampo, o desempenho ruim, o potencial dinheiro garantido em 2019 e tudo…

Cortar Jameis Winston, trocar por Teddy Bridgewater. É ousado. Mas é o certo.

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