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Quatro Descidas é a coluna semanal de Antony Curti sobre a NFL, publicada todas as segundas. São quatro assuntos e não mais que 3000 palavras (ou quase… Às vezes vai passar). Para ler o índice completo da coluna, clique aqui.


Com os calouros de algumas equipes, como Chicago Bears e Baltimore Ravens, já reportando aos traning camps, vamos aquecendo para a temporada 2018 da NFL. Justamente os Bears e os Ravens são os primeiros a terem veteranos em campo também. Então a coluna nesta semana começa analisando o potencial “EMPOLGOU” em Chicago.

1st and 10: O novo Rams?

Vamos a um exercício extremamente difícil nesta coluna. Dois, na verdade.

O primeiro é entender que, como habitante da cidade de São Paulo, estou a quilômetros de distância de qualquer training camp da NFL. Com isso, dar um furo de notícia (5ª série C, controlem-se) é 99% inviável. Nesta época do ano, a coisa complica na medida em que as histórias interessantes são produzidas por jornalistas que frequentam um camp ou outro. Assim, fica inviável não beber dessa fonte para produzir minha coluna aqui no Brasil.

A grande inspiração desta coluna coincidiu com uma ideia que eu já tinha há algum tempo. Em sua deliciosamente longa coluna desta semana, Peter King visitou o training camp do Chicago Bears, um dos primeiros a começar por conta da presença do time no Hall of Fame Game (uma das oito transmissões da pré-temporada na ESPN aqui do Brasil). 

Agora, a segunda parte do problema: eu torço para o Chicago Bears.

Acho que boa parte dos leitores sabe disso e boa parte das pessoas que me acompanham nas transmissões da ESPN, idem. Lá, foram apenas duas transmissões com Chicago – ambas foram derrotas – e felizmente pude me manter profissional. É a ideia. Tanto os Bears como todas as outras 31 franquias pagam minhas contas (indiretamente). Não posso favorecê-los.

O problema nasce na medida em que existe com esse ataque de Chicago uma empolgação nos Estados Unidos. Com o time, como um todo. E aumenta para mim e para esta coluna porque tenho de mostrar a todos que estou sendo profissional. Não vou ser clubista e elogiar porque sim – fiz um tweet brincando dizendo que os Bears devem ir para a pós-temporada de 2018, mas a verdade é que isso é extremamente improvável.

Se a franquia jogasse na Conferência Americana, seria possível.

Na Conferência Nacional há muitos times acima da média. Na própria divisão dos Bears, a NFC North, os outros três times facilmente devem ter mais de oito vitórias. Algumas delas, em “confronto direto” contra a equipe. Nem preciso dizer como Aaron Rodgers voltar é algo que pode mudar o equilíbrio da conferência e da divisão como um todo.

Aparte da divisão, Seattle é um time que não pode ser descartado mesmo passando por um mini desmanche. Os Cowboys terão Ezekiel Elliott durante uma temporada inteira. Kyle Shanahan terá Jimmy Garoppolo por 16 jogos nos 49ers. Mesmo com campanha respeitável, os Bears podem ficar atrás de todos esses times.

Existe uma ânsia forte para acharmos um novo “Eagles“, um novo “Rams“.

São narrativas sedutoras. Em comparação, é aquela situação parecida de quando tomamos um pé-na-bunda e projetamos nossas ex em meninas que ficamos numa festa. Não há qualquer garantia que vai acontecer de novo.

No final de semana, a imprensa de Chicago reportou que Trubisky estava tendo dificuldades ao início do training camp. Natural. O ataque de Matt Nagy, novo head coach, é anos-luz mais complexo do pífio ataque de John Fox no ano passado. É bem verdade que o ataque era mais responsabilidade de Dowell Loggains, coordenador ofensivo. Mas Fox, historicamente, sempre foi conservador. Poucos times executaram passes mais curtos do que deveriam, de acordo com a descida/distância, que os Bears de 2017.

Em resumo, era uma bicicleta com rodinhas.

Não ajudava muito que Mitchell Trubisky não contava com um corpo de recebedores acima da média. Os principais alvos no ano passado foram Kendall Wright, via slot, Tarik Cohen (via screens, dado que é running back), Josh Bellamy e Dontrelle Inman, recebedor que chegou via troca com o Los Angeles Chargers. Nada bom. Para piorar, um festival de lesões; Cameron Meredith se machucou no meio da pré-temporada e o tight end titular, Zach Miller, teve uma lesão tão horrível a ponto de se cogitar uma remoção de sua perna.

Para 2018, o corpo de wide receivers foi reforçado com Allen Robinson, o melhor recebedor da free agency – se um cara produz com Blake Bortles, irá produzir com Trubisky. Taylor Gabriel também veio via mercado e deve cumprir a função que Tyreek Hill fazia no ataque dos Chiefs de Nagy: esticar o campo com sua velocidade. Ainda, Anthony Miller chegou via Draft e o tight end Trey Burton também via free agency após um sólido, porém quieto, ano na Philadelphia.

Na comissão técnica, a novidade além de Nagy é a presença de Mark Helfrich, ex-head coach de Oregon e “membro fundador” da família de ataques com alta octanagem que a universidade produziu na década passada. Helfrich herdou o time de Chip Kelly depois que ele foi para a NFL. A unidade produziu Marcus Mariota como vencedor do Heisman e segunda escolha geral do Draft. Por mais sedutor que esse ataque pareça, do ponto de vista aéreo, tinha corridas interessantes em shotgun – coisa que é necessária nos Bears de 2018 ao ter Jordan Howard e Tarik Cohen no backfield.

run-pass-option, que tornou Nick Foles um quarterback acima da média, que tornou Carson Wentz o MVP até a lesão… Deve ser a essência desse ataque de Mark e Matt. O problema: esse ataque será de Mitchell também? Por mais que as comparações apareçam, que a comissão técnica seja interessante, os Bears irão tão longe quanto seu capitão ofensivo for capaz de conduzi-los.

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2nd and 5: O grande problema na comparação dos Bears com Rams/Eagles

Comparações são perigosas. Comparar seu relacionamento atual com os anteriores é complicado porque as pessoas são complexas e, embora possuam traços semelhantes na personalidade ou tenham gostos parecidos, amar Star Wars não significa que são a mesma pessoa.

O Chicago Bears de 2018 é constantemente comparado ao Los Angeles Rams de 2017 e ao Philadelphia Eagles de 2017 porque todos têm gênios ofensivos no comando técnico, Eagles/Rams têm um treinador vindo da árvore de técnicos de Andy Reid, os três subiram no Draft por um quarterback jovem e doses cavalares de play action e/ou run-pass-option ajudarão no desenvolvimento desse quarterback.

O que deu certo em Los Angeles e em Philadelphia não vai, necessariamente, dar certo em Chicago. É preciso tomar cuidado com o empolgou. Sean McVay fez um trabalho acima da média com os Rams, tornando o time de pior ataque da NFL em pontos por jogo no melhor. Carson Wentz foi uma máquina em terceiras-descidas e quando pressionado – dois dos pontos em que Mitchell Trubisky foi bem abaixo da média em 2017.

Novamente: não existe garantia de que os Bears serão a segunda encarnação desses times tão vencedores e empolgantes de 2017. Porque, como disse acima, não depende só deles. E tampouco é um processo rápido.

Antes de serem os Eagles de 2017, o time foi uma versão rascunho de 2016. Com Wentz tendo problemas, com Wentz aprendendo o sistema, com ele e Doug Pederson ganhando confiança. A próxima temporada, para os Bears, tem esse contorno. Para complicar, o calendário não ajuda. Mas, ao mesmo tempo, o que seria da vida sem desafios para nos testar?

O teste começa já no primeiro final de semana com o Sunday Night Football contra o Green Bay Packers. É um bom termômetro para quão Rams/Eagles esse time pode ser. No ano passado, fora de casa contra Washington, já vimos Carson Wentz detonando em profundidade na Semana 1. Os Rams mostraram muita coisa boa contra os Colts, também na Semana 1 – mas os subestimamos porque Indianapolis sem Andrew Luck é café com leite.

Depois dessa dura partida fora de casa, em Green Bay, Chicago sedia um Monday Night Football contra os Seahawks na Semana 2. Sendo dois times badalados nesta década, vitórias contra ambos pode colocar os Bears no mapa. Da mesma forma que o plano de jogo de Nagy, na Semana 1 contra os Patriots em 2017, colocou Kansas City como força na primeira metade da temporada.

O calendário é difícil na medida em que testes contra New England e Los Angeles Rams também aparecem durante o ano. Isso sem faltar as outras difíceis partidas dentro da divisão, contra o subestimado Detroit Lions e o completíssimo Minnesota Vikings.  Sem lesões e melhorando a margem de turnovers, é possível sonhar.

Há potencial para que, caso faça a lição de casa divisional e surpreenda alguns dos nome acima, os Bears estejam ao menos na briga pelo Wild Card da Conferência Nacional. Tornar-se os Rams ou os Eagles de 2017?

Isso me parece um passo maior do que a perna.

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3rd and 3: Josh Gordon

Josh Gordon voltou ao noticiário nesta manhã. Ele anunciou, por meio de seu twitter, que não estará com os Browns para o início do training camp. Segundo ele, a medida é parte “de seu plano de tratamento”.

Absurdamente talentoso, Gordon foi suspenso inúmeras vezes por violar a política de substâncias proibidas da liga. Na maior parte delas, por uso de maconha. Com a temporada chegando, natural que os níveis de ansiedade aumentem para ele – e não digo ansiedade de maneira positiva, de frio na barriga, mas em termos psicológicos e de algo que precisa de atenção médica.

Não duvido que ele chegou a usar a droga novamente e, sabendo que seria pego no antidoping e banido de vez da liga, tenha resolvido se ausentar. Ou, sendo mais brando, que bateu a fissura – a vontade que não dá para controlar – por conta da ansiedade. E, antes de cair para a droga novamente, acabou por se internar de maneira preventiva.

A expectativa é que ele esteja de volta a tempo da temporada regular começar, mas seria importante, num plano de jogo novo e com (mais um) quarterback novo, que ele esteja no training camp o quanto antes. De toda forma, ainda mais importante é sua saúde. E, disso, ainda bem, ele mostra estar cuidando.

4th and 2: Garoppolo se achava melhor do que Tom Brady?

Quando você lê a manchete assim, de maneira solta, parece algo negativo. Antes de mais nada, vou traduzir parte da fonte original. É um ARTIGAÇO do Bleacher Report, com um extenso perfil do novo Rei de San Francisco.

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Jimmy sabia que poderia ser titular na NFL e, ao final de sua primeira temporada (2014), estava se coçando por essa oportunidade. Algumas vezes, ele brincava com seu amigo que torcia para os Browns sobre a possibilidade dele se tornar quarterback em Cleveland. “Talvez eu esteja em Ohio logo menos”, dizia a seu melhor amigo. Parte dele tinha a esperança de que a chance viesse em New England. Seu lado confiante, pensava que ele podia – talvez um dia – bater Brady na escalação. Era, afinal de contas, a parte do plano que ele poderia controlar.

“Sempre tive esse mindset”, disse Jimmy. “Eu sabia que [Brady] era melhor que eu em meu primeiro dia de NFL. Naturalmente, você é o calouro e ele é o veterano, mas você tem que ter esse mindset, você tem que querer ser o titular”.

“Mesmo quando eu era criança, com meus irmãos, seja onde for que eu jogasse eu sempre literalmente pensava que venceria. Eu não vencia, mas sempre pensava isso. Quando eu fui para New England, quando cheguei lá, eu pensei “Sou melhor que esse cara [Brady]”, falou.

Mas você, na sua cabeça,você acredita que é melhor que Tom Brady? – perguntou Joon Lee, autor da matéria no Bleacher.

“Sempre foi uma confiança silenciosa”, diz Jimmy. “Eu nunca diria isso”.

Lee perguntou de novo. “Mas você achava que era o melhor cara lá [em New England]?”. “Você acredita em si mesmo”, diz Jimmy. “Essa é a melhor maneira de colocar isso”.

Lee pressiona novamente. “Você contra Brady, e dizia que “Eu sou melhor que você”?”,

“Não sou burro. Você tem que escolher suas batalhas, mas eu tinha uma crença em mim mesmo de que eu poderia fazer certas coisas e deu bem certo. Sempre estará em mim [essa confiança]”, completou.


Em resumo, Garoppolo tentou falar no pretérito e acabou entregando que, sim, acreditava que era melhor que Brady. Quando viu o que deixou escapar, tentou consertar com o papo clássico de “tem que acreditar em si mesmo e etc”.

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Olha, eu sou a última pessoa do mundo a criticar isso. Parte da imprensa vai vilanizar a fala de Garoppolo, como se fosse um grande absurdo ele se achar, em algum momento de sua vida, um quarterback melhor que Brady. Para quem vê de fora, ainda não o é. A história dirá se um dia ele será. Pode ser que sim, pode ser que não.

Mas o principal é que ele tem que ter essa confiança, sim. Quando você passa quatro anos na reserva do titular mais incontestável da Conferência Americana, algo tem que fazer você acordar todas os dias para suar, para trabalhar. Ninguém mais acreditaria nisso. Se ele acredita, é o primeiro passo para que os outros o façam também.

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Ainda invicto como titular, Jimmy Garoppolo tem intangíveis e traços importantes de um franchise quarterback. A confiança, mesmo sendo banco “imutável” de Tom Brady por anos e anos, é uma dela. Sua temporada em 2018 será extremamente analisada por tudo e todos. E, para seu azar, agora ele está no mapa dos coordenadores defensivos da NFL. Pode ser que exista uma regressão à média, tal como Matt Ryan e Dak Prescott no ano passado. Pode ser que ele dê um salto ainda maior após um training camp completo como titular.

Seja como for, é uma das principais histórias da temporada.

Feedback:

Podem mandar para minhas redes sociais que vou respondendo na medida do possível. Nas últimas semanas praticamente não chegaram perguntas para esta coluna – não os culpo, entendo muito bem a falta de pauta gigantesca.

 




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