Em seu best-seller “12 Regras Para A Vida”, o psicólogo Jordan B. Peterson tem como principal análise a relação entre a “Ordem” e o “Caos”. Para Peterson, um símbolo que permite enxergar essa relação é o “Yin Yang”; nele, é possível analisar como a ordem e o caos estão sempre juntos, que há um pouco de ordem no caos (o ponto branco no lado preto) e um pouco de caos na ordem (o preto no lado branco). Além disso, o psicólogo insere a teoria de que a melhor maneira de se viver é com “um pé na ordem e um pé no caos” – no conhecido e no desconhecido.
Sim, provavelmente nesse momento você deve estar se perguntando se clicou no link errado. Porém, a tese de Peterson é perfeita para tentar estabelecer uma relação de proximidade com o período de offseason da NFL. Ao entender um pouco mais sobre os principais tópicos desse período, juntamente com o momento atual da liga, um dos pés é colocado na ordem. Do outro lado, sempre há mais a aprender sobre o assunto e – no desconhecido – está a nossa margem de evolução; fixemos, então, o outro pé no caos.
O objetivo não é desmembrar as minúcias da offseason, mas analisar seus eventos mais importantes (franchise tag, Free Agency e Draft) no contexto da NFL atual, ressaltando os aspectos mais importantes que podem movimentar cada um desses eventos. Está a NFL fadada a supervalorizar os jogadores e subvalorizar as franquias – como ocorre na NBA? Qual o impacto de jogadores como Le’Veon Bell, que são excelentes em campo, mas tóxicos fora dele? Como entender os movimentos da franquia no Draft?
Para começar, a tag
Comecemos pela franchise tag, a polêmica ferramenta que se assemelha a um anticlímax para o jogador que a recebe. Em resumo (sem entrar nas suas outras variações como a transition tag) esse recurso é uma garantia que as franquias possuem para manter seus melhores jogadores em contratos de um ano.
O motivo de usá-la? Majoritariamente para manter um jogador que você deseja, mas há algum outro problema que o deixa com uma “pulga atrás da orelha” para fechar um contrato extenso e caro – como o caso de Jadeveon Clowney, edge do Houston Texans, que se provou um bom jogador, mas alguns problemas de consistência e lesão farão com que, muito provavelmente, a franquia use a tag nele nessa offseason. O recurso também pode ser utilizado para que se ganhe tempo: seja para negociar um novo contrato como no caso de Demarcus Lawrence neste ano, seja para tentar envolver o jogador em uma troca, como era a expectativa com Nick Foles (que não aconteceu).
A franchise tag ficou muito conhecida na última offseason, quando o Pittsburgh Steelers a aplicou (pela segunda vez) no running back Le’Veon Bell. Bell já havia avisado que não jogaria a temporada se recebesse a tag novamente; dito e feito. O que Bell fez não foi único na história, mas marcou um movimento que vem ampliando-se nos últimos tempos na liga: a maior valorização dos jogadores.
Com os acordos trabalhistas recentes da liga, os jogadores vêm aumentando seu poder de barganha – inclusive, a própria existência da tag será muito debatida no próximo encontro desse acordo, em 2021 – e isso pode levar a NFL a um caminho parecido com o que a NBA tomou. “Na franquia que mora ao lado”, é muito comum vermos jogadores cansados de sua situação e trocando de time. Os casos recentes de Bell e, seu ex-companheiro de equipe, Antonio Brown podem ser indicativos do futuro próximo da liga, com a subvalorização das franquias perante às vontades dos seus jogadores. Vai dar certo? Difícil prever. Novos “Bells” surgirão? Muito provavelmente.
Free Agency: a demanda sobe o preço
A Free Agency é o período da offseason no qual os times “brigam” pelos jogadores que estão sem contrato, visando suprir necessidades carentes no elenco atual. Lembre-se do que aprendeu em algum momento de sua vida: o que acontece quando a demanda aumenta? Isso mesmo, o preço sobe.
Prováveis Free Agents cobiçados nesses próximos meses – como Earl Thomas, Le’Veon Bell e Trey Flowers – receberão grandes contratos, pelo nome que carregam e pela concorrência na tentativa de estabelecer um contrato (claro que sempre existem as exceções, como Tyrann Mathieu que assinou na última Free Agency com o Houston Texans por apenas um ano e um valor abaixo da média do mercado para a posição de safety).
Esse aspecto fica mais evidente ainda no preço que se pagou por quarterbacks na última Free Agency: Case Keenum (2 anos e $36,000,000; após sua única temporada boa na carreira) e Kirk Cousins (3 anos e $84,000,000; totalmente garantidos) são excelentes casos. A principal posição do jogo não é a única que fica exposta a receber um valor maior do que o jogador realmente vale – pegue como exemplo Nate Solder: o offensive tackle assinou um contrato de 4 anos e $62,000,000 com os Giants e fez uma temporada no máximo razoável, não justificando o valor investido – mas reflete a narrativa atual que a NFL é uma liga de quarterbacks.
Não é um acaso; vai ocorrer nos próximos meses de novo quando Nick Foles, Teddy Bridgewater e Tyrod Taylor adentrarem a Free Agency; são quarterbacks ruins? Não, podem facilmente ser titulares em alguns times – como Washington Redskins e Jacksonville Jaguars. Porém, o mercado inflacionado tem um alto custo de oportunidade: o dinheiro que você investe a mais nesse jogador, pode impedir a renovação de dois ou três titulares e jogadores de rotação, o que faz muita falta no futuro se o investimento não for rentável.
Draft: o que vai acontecer com a primeira escolha?
Por fim, chegamos no momento mais esperado e, possivelmente, o mais caótico: o Draft. A seleção dos jogadores que vêm do futebol americano universitário pode se tornar uma grande reviravolta nos rumos de uma franquia da NFL. Quer exemplo melhor e mais recente do que o Indianapolis Colts? Suas duas primeiras escolhas (Quenton Nelson e Darius Leonard) chegaram na liga quebrando a banca, sendo ambos All-Pro (a seleção da liga, eleita por jornalistas) e Leonard nomeado o calouro defensivo do ano; além disso, outras das escolhas tornaram-se jogadores importantes para a classificação de Indianapolis aos playoffs (como Braden Smith e Kemoko Turay). Escolher corretamente no Draft é essencial para um projeto vitorioso de uma franquia; cada pick correta é um passo mais perto do título – e não é exagero dizer isso, olhe o impacto de Derwin James na defesa do Los Angeles Chargers.
Ademais, a possibilidade de troca de escolhas no Draft torna as coisas muito mais interessantes para as franquias, já que agora sua decisão não é mais somente sobre qual jogador escolher, mas em que posição ele poderá estar disponível para um eventual troca – o que torna o custo de oportunidade de trocar as escolhas, para cima ou para baixo, muito maior. Uma breve análise desse exemplo no Draft desse ano: o Arizona Cardinals – que possui a 1ª pick – possui várias necessidades a serem preenchidas no elenco; uma troca para baixo com algum time que deseje a 1ª escolha (para escolher Kyler Murray, provavelmente) pode fazer sentido, já que a franquia acumularia mais escolhas e poderia tentar suprir mais necessidades carentes no elenco.
***
Dessa forma, espero que o processo da offseason tenha se tornado mais claro. Como a maior parte da temporada está localizada nesse período, a sua melhor compreensão é um incentivo a mais para se manter sempre conectado com o esporte.
Com o maior movimento nas próximas semanas (utilização da tag, combine, início da Free Agency) esses processos tornam-se mais observáveis; mas, é bom se surpreender. Afinal, como dito no início, é sempre bom ter um pé no caos, mesmo que estar na ordem pareça mais atrativo.
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