Se você acompanhou de perto o Green Bay Packers ao longo de 2019, sabe que o time vinha jogando num nível bem inferior ao que sua campanha indicaria. E sim, os Packers chegaram até a final da Conferência Nacional, mas é difícil pensar num time que obteve 13 vitórias na temporada regular e mesmo assim parecia tão inconstante ao longo do ano – Green Bay nunca pareceu um time que pudesse, de fato, dominar e vencer a NFC.
O resultado final dessa campanha foi outra derrota acachapante para o melhor time da conferência, o San Francisco 49ers. Assim como na temporada regular, os Packers não foram páreo algum para os 49ers, que expuseram clamorosamente as maiores necessidades da equipe – a bem da verdade, elas nunca estiveram escondidas, mas as vitórias durante o ano mascararam as principais deficiências de Green Bay. Pois bem, uma hora elas iriam pagar o preço. Demorou, mas aconteceu.
Quais eram as expectativas do torcedor para 2019: Com um Aaron Rodgers saudável e livre das garras de slants e flats de Mike McCarthy, 2019 era o ano em que o torcedor dos Packers mais estava esperançoso em muito tempo. A contratação de Matt LaFleur se encaixava no molde que dominou a liga nos últimos dois anos (treinador jovem e mente ofensiva, inspirado no sucesso de Sean McVay nos Rams), o time tinha recém-descoberto uma estrela em Aaron Jones e parecia que o grupo de recebedores estava numa boa curva de desenvolvimento.
Outra mudança bem importante que deixou o torcedor esperançoso foi no investimento na free agency, reflexo da chegada de Brian Gutekunst ao cargo de general manager em 2018. O time se livrou de Clay Matthews e desembolsou bastante dinheiro em março para assinar com Za’Darius Smith e Preston Smith para impulsionar o grupo de EDGEs, enquanto que reforçou a secundária com o safety Adrian Amos. 2019 era o ano perfeito para Aaron Rodgers voltar ao Super Bowl.
Quais eram as nossas expectativas para 2019: Entendíamos que os reforços adquiridos para a defesa impulsionariam bastante a qualidade da unidade, até mesmo com a chegada de Rashan Gary via Draft. No final das contas, esse sempre foi o maior limitante dos Packers ao longo da década: um quarterback de elite que era minado por uma defesa abaixo da média nos jogos importantes.
Ainda sobre o quarterback, Rodgers não esteve 100% saudável nas últimas duas temporadas, então havia expectativa sobre o que ele poderia fazer num ano de renovações: novo treinador, saúde reparada, novo esquema ofensivo… estávamos crentes que Aaron voltaria ao altíssimo nível do início da década – ou que, ao menos, elevaria sua performance relativa aos anos anteriores.
O que aconteceu: Até que as expectativas em termos de campanha foram cumpridas: vencer a divisão, folgar na primeira rodada dos playoffs, brigar pelo Super Bowl. Acontece que a forma pela qual o time de Wisconsin atingiu essas expectativas foram muito menos agradáveis do que se esperava – e o tombo também foi bem maior quando tudo foi por água abaixo.
O time começou o ano vencendo seus 3 primeiros jogos e, mais importante ainda, 2 dessas vitórias foram contra os dois maiores rivais dentro da divisão, o que causou uma excelente primeira impressão no trabalho de LaFleur. Depois, esse início de campanha se converteu em 7 triunfos nos primeiros 8 duelos, bom o suficiente para brigar pela primeira colocação geral na NFC.
A questão é que um olhar mais atento a essas vitórias causava algumas dúvidas. Pós-semana 5, alertávamos sobre a inconsistência do ataque ao longo das partidas; duas semanas depois, apesar de um desempenho impressionante contra o Oakland Raiders, ainda havia um asterisco sobre a produção de Aaron Rodgers no novo ataque. A medida em que o ano avançava, esses questionamentos não eram sanados e sim reforçados: Green Bay estava vencendo, mas não convencendo. A vitória sobre Washington na semana 14 foi a epítome da temporada regular: uma vitória muito mais difícil que o necessário sobre um adversário fraco.
Naquele ponto, estava claro o que vinha limitando o desempenho do time. Nas 3 semanas seguintes, 3 vitórias dentro da divisão, que não só significaram o título da NFC North como resultaram na segunda colocação geral na conferência, suficiente para dar uma semana de folga na pós-temporada. Green Bay soube se aproveitar dessa condição e venceu Seattle – mais uma vez de forma apertada – na Semifinal de Conferência, mas frente à San Francisco, time que derrotou os Packers com facilidade na temporada regular, a corda finalmente foi cortada: os 49ers repetiram a vitória na final da NFC, de novo dominando totalmente o time de Matt LaFleur e expondo várias das fraquezas do time: linebackers de pouca qualidade, péssima defesa contra o jogo terrestre, ataque aéreo inefetivo etc.
Há esperança para 2020? Existe se o time souber investir na offseason com a mentalidade certa, que é “temos muitas necessidades, precisamos saná-las” ao invés de “ficamos a um jogo do Super Bowl, essa fórmula deu certo, vamos repetir”. Se Gutekunst tomar suas decisões baseadas no pensamento de que foi um um ano excelente para os Packers e não realizar um número alto de mudanças no time, então será improvável que Green Bay consiga repetir a mesma campanha em 2020 – lembremos: com 8 vitórias em 9 jogos definidos por uma posse, o time de Wisconsin é um forte candidato à regressão na próxima temporada, já que esse tipo de sucesso não é consistente numa base anual.
Outro ponto é que a franquia não pode agir como se ainda tivesse o melhor quarterback da NFL em seu elenco: Rodgers hoje é, no máximo, top 10 da posição. Ele não foi a razão pela qual os Packers perderam para os 49ers no domingo e, mais ainda, o jogo dele contra os Seahawks na semana anterior foi muito bom; entretanto, já passou bastante tempo desde a época em que ele tinha qualidade o suficiente para mascarar os problemas de Green Bay e elevar o time à condição de contender.
O que precisa mudar urgentemente no time: No que já vem sendo um dos problemas do time há bastante tempo, o investimento na posição de linebacker precisa ser maciço a partir de março. O jogo corrido de San Francisco abusou como quis da fragilidade de Green Bay na posição, de modo que Jimmy Garoppolo nem precisou ser utilizado para que os 49ers dominassem no ataque. Blake Martinez não é bom o suficiente e, pior ainda, o valor de mercado do jogador apontado pelo Spotrac é de 16 milhões de dólares por ano. Ele não merece esse valor; mais ainda, existem opções melhores e mais baratas.
O nível de conforto de Rodgers no ataque de LaFleur será maior no segundo ano da relação jogador-técnico, e o desempenho ofensivo pode melhorar ainda mais caso o time reforce a posição de wide receiver – não dá pra depender só de Davante Adams, não importa quão bom ele seja. Um upgrade na posição de tight end também seria bom: nem tanto por Jace Sternberger, bom jogador que teve um ano de calouro prejudicado por lesões, mas sim por Jimmy Graham, que já está bem longe de seu auge.







