O ultimato Burrow: é hora dos Bengals acordarem

Quarterback não expressou claramente desejo de deixar a franquia, mas pra bom entendedor meia palavra basta: é hora de competir de novo ou chega.

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A imagem de Joe Burrow fumando charuto, exalando a confiança de quem tem o mundo aos seus pés, parece cada vez mais uma memória distante, quase de outra vida. As recentes declarações do quarterback do Cincinnati Bengals, afirmando que “não está se divertindo jogando futebol americano”, caíram como uma bomba na NFL. Embora Burrow mantenha aquele ar enigmático de sempre, deixando margem para interpretações sobre problemas extra campo, a leitura das entrelinhas aponta para uma única e dolorosa verdade: o casamento com os Bengals parece complicado para sua carreira.

Não se trata de falta de amor pelo esporte. Trata-se de falta de paciência com a negligência. Ao olharmos para a situação de Burrow sob a ótica da gestão esportiva e da preservação de talento, sua infelicidade é a reação mais lógica possível.

O preço físico da incompetência

A estatística mais alarmante da carreira de Joe Burrow não são seus touchdowns ou jardas, mas sim sua disponibilidade. Ao fim desta temporada, ele terá acumulado três anos em que disputou 10 jogos ou menos. Para um quarterback de elite, no auge físico e técnico, isso é inaceitável. Lesões acontecem, é verdade, mas no caso de Burrow, elas são sintomas de uma doença crônica da franquia: a incapacidade de protegê-lo.

Desde a ida ao Super Bowl — uma campanha mágica que, em retrospecto, parece ter mascarado profundas falhas estruturais —, o time voltou a apenas uma final de conferência. É muito pouco. Nos últimos três anos, Burrow foi obrigado a operar com defesas que figuraram no “bottom-10” da liga. Ele entra em campo sabendo que precisa ser perfeito, marcar mais de 30 pontos, porque sua defesa não consegue parar ninguém.

Pior ainda é a situação da linha ofensiva. Em sua carreira profissional, Burrow nunca teve uma OL classificada acima da metade em pass protection. Ele é, ano após ano, um dos quarterbacks mais atingidos da liga. Ninguém se diverte sendo saco de pancadas semanalmente, independentemente dos milhões na conta bancária.

Uma gestão que parou no tempo

Nós conhecemos a confusão que é a gestão dos Bengals. A família Brown opera a franquia com uma mentalidade arcaica, muitas vezes avessa ao risco e financeiramente conservadora em momentos que exigem agressividade. Joe Burrow fez a sua parte nos bastidores: fez campanha pela chegada de seus ex-companheiros de LSU, Ja’Marr Chase e cia. Ele queria armas, e o time as trouxe.

Contudo, a montagem de elenco na NFL é um jogo de soma zero. Ao focar excessivamente nos skill players e atender aos pedidos de luxo, a diretoria falhou no trabalho sujo: as trincheiras e a defesa. Olhem para os drafts recentes dos Bengals e tentem encontrar uma classe que tenha mudado o patamar do time. A sucessão de erros na avaliação de talentos, especialmente na defesa, criou um elenco desequilibrado. Casos como a gestão de jogadores de linha defensiva e secundária (como as situações envolvendo Trey Hendrickson pedindo troca ou a aposta em prospectos crus como Myles Murphy que demoram a impactar) mostram uma gestão reativa.

Burrow está preso em um time que tem um ataque de Ferrari e um motor de um carro popular usado.

A solução drástica: O mercado de trocas

Se a diversão acabou em Cincinnati, a solução não é parar de jogar, mas sim mudar de ares. O contrato de Burrow é massivo, mas na NFL moderna, tudo é móvel. A insatisfação pública dele abre uma janela de oportunidade real para uma troca, mas o relógio é inimigo: uma negociação precisaria ser concretizada, idealmente, até 15 de março, antes que seu salário de 2027 seja garantido e trave o teto salarial, por conta do dinheiro preso

O preço para tirar Joe Burrow de Cincinnati seria histórico. O ponto de partida em qualquer conversa séria são três escolhas de primeira rodada, além de compensações adicionais. Mas Burrow tem o trunfo final: a No Trade Clause (cláusula de não-troca). Ele controla seu destino. Ele não será enviado para outro “cemitério de talentos”; só sairá para um lugar onde possa vencer imediatamente.

Quem tem as fichas na mesa?

Olhando para o cenário atual, três times despontam como candidatos que possuem o capital de draft e a motivação necessária:

  1. New York Jets: Uma franquia desesperada. Com a era Aaron Rodgers se mostrando turbulenta e chegando ao fim, os Jets precisam de um salvador para justificar o elenco talentoso que montaram. Burrow em Nova York seria o casamento midiático perfeito. Porém, historicamente é tão disfuncional quanto os Bengals ou até pior.

  2. Los Angeles Rams: Les Snead e Sean McVay nunca tiveram medo de hipotecar o futuro pelo presente. Eles já provaram que trocam escolhas de primeira rodada como se fossem balas. Com Matthew Stafford quem sabe se despedindo, Burrow seria a transição perfeita para manter a janela de título aberta em Los Angeles.

  3. Dallas Cowboys: Jerry Jones adora estrelas. A engenharia financeira para absorver o contrato de Burrow e se livrar do dead cap de Dak Prescott seria colossal, quase uma obra de arte contábil. Mas se existe um time que faria essa loucura pelo impacto, é o Dallas Cowboys.

 O direito de exigir excelência

Joe Burrow não está sendo “mimado” ou ingrato. Ele está sendo profissional. A janela de um quarterback na NFL é curta e brutal. Ele já entregou mais a Cincinnati do que a franquia lhe devolveu em estrutura e proteção.

As declarações recentes são um aviso claro: a paciência acabou. Se os Bengals não conseguem montar um time competente ao seu redor — algo que provaram ser incapazes de fazer consistentemente nos últimos três anos —, Burrow deve usar sua alavancagem contratual para forçar a porta de saída. Ele merece jogar em uma organização onde a única preocupação seja ler a defesa adversária, e não se preocupar se sua carreira vai acabar na próxima jogada por falta de bloqueio.

A diversão no futebol americano volta quando se tem chance de vencer e segurança para jogar. E, infelizmente, parece que Burrow percebeu que não terá nenhuma das duas coisas enquanto vestir preto e laranja.

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