Os Packers têm o que precisam para vencer o segundo Super Bowl com Aaron Rodgers?

Se eu fosse apontar o quarterback mais completo em atividade na NFL, diria sem medo algum que ele é Aaron Rodgers. O camisa 12 do Green Bay Packers tem todas as qualidades ditas intangíveis; isto é, que não podem ser mensuradas, como a capacidade de tomar boas decisões sob pressão, modificar jogadas na linha de scrimmage, realizar a leitura das defesas e a progressão nas jogadas aéreas, além da liderança dentro de campo. Fora isso, Rodgers tem um dos braços mais fortes da NFL (Arizona Cardinals e Detroit Lions viram isso bem de perto no ano passado), fica confortável dentro do pocket, tendo ainda a mobilidade para fugir da pressão quando sua linha ofensiva não segura os pass rushers.

O sucesso do camisa 12 é inquestionável. Das oito temporadas que disputou como titular do Green Bay Packers, Aaron Rodgers levou a equipe à sete pós-temporadas, conquistando o Super Bowl XLV após a temporada de 2010, em cima do Pittsburgh Steelers, no qual foi eleito MVP. Rodgers conquista as vitórias, mas também demonstra precisão e qualidade no exercício da função de quarterback. O camisa 12 detém o recorde de passer rating em uma temporada regular da NFL (122.5, sendo o máximo 158.3), além de liderar também neste quesito como melhor índice em qualquer carreira (104.1).

// Outra estatística, esta do ano passado, que exemplifica o cuidado com a bola e excelência como quarterback: o jogador lançou apenas 8 interceptações, marcando sua quinta temporada com 500 ou mais tentativas de passe com 8 ou menos picks pelos adversários. Rodgers fez isso pela quinta vez, sendo que essa estatística se repetiu em temporadas de apenas oito outros quarterbacks.

Acredito que não precise mergulhar em números para demonstrar o status de elite do signal caller do Green Bay Packers. Agora, apesar das múltiplas pós-temporadas, Aaron Rodgers só chegou a um Super Bowl, tendo um restrospecto de 7 vitórias e 6 derrotas nos playoffs (quatro delas no ano da conquista do Super Bowl XLV). Alguns torcedores temem que o jogador não consiga conquistar um segundo anel com a franquia, tal como aconteceu com Brett Favre, que entre 1992 e 2007, venceu apenas o Super Bowl XXI. Com dois do maiores quarterbacks a jogar na NFL, Favre e Rodgers, os torcedores e jogadores do Green Bay Packers desejam seu quinto troféu Vince Lombardi. Posto isso, vamos analisar se a equipe da NFC North tem o que precisa para ganhar o Super Bowl LI.

O camisa 12 tem os alvos para mover o ataque?

A temporada de 2015 viu Aaron Rodgers manter um ataque produtivo, embora ficasse a sensação de que faltava algo no jogo aéreo: e de fato faltava. Jordy Nelson, wide receiver número um do Green Bay Packers, rompeu o cruzado anterior na pré-temporada e não jogou uma partida sequer. Esperava-se que Randall Cobb e Davante Adams assumissem os papéis principais neste ataque; Cobb como ameaça nas rotas longas e Adams assumindo o papel de número dois neste ataque, com jovens nomes como Jeff Janis e Jared Abbrederis disputando espaço pela terceira vaga de wide receiver com o veteraníssimo James Jones.

A especulação era razoável: Aaron Rodgers passando a bola para Cobb e Adams daria vazão para o jogo aéreo, com o tight end Richard Rodgers correndo rotas típicas de tight end, formando um ataque variado e competente (muito por quem passava a bola). Entretanto, Randall Cobb não se encontrou como ameaça longa, não criando a mesma separação que Nelson conseguia. Para ilustrar, Cobb como wide receiver número um da equipe em 2015 teve 129 targets, 75 recepções, 829 jardas e 6 touchdowns. Jordy Nelson teve em 2014, por sua vez, 151 targets, 98 recepções, 1,519 jardas e 13 touchdowns.Vale ressaltar que Cobb teve que lidar com um problema no ombro durante a temporada regular, o que também contribuiu para um rendimento aquém do esperado do camisa 18. Ainda assim, nas rotas longas, Nelson fez falta – e muita. A estabilidade que o duo Nelson e Cobb trouxe para Rodgers ficou estremecida pela ausência do camisa 87.

Dito isso, Davante Adams também não produziu, recebendo um percentual de 53.2% dos passes lançados na sua direção (50 de 94), para menos de 500 jardas e apenas um touchdown. Mais do que isso, Adams acabou não passando no eye test, aquele jeito informal de analisar jogadores: ele parecia desconectado do ataque, deixando alguns passes caírem e sem conseguir criar espaço entre ele e os defensores.

Já em 2016, o Green Bay Packers conta com a volta de Jordy Nelson – um retorno pra lá de bem vindo. Entretanto, há um leve receio por se tratar da recuperação de um rompimento de cruzado anterior, uma lesão complicada, em especial se contarmos com a idade de 31 anos do wide receiver. De qualquer maneira, a mera presença de Nelson já recondiciona as defesas adversárias, que deverão dedicar marcação ao camisa 87, abrindo mais espaços para Cobb e Adams em outras partes do campo.
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Ainda falando sobre alvos, Rodgers ganhou um reforço na posição de tight end: Jared Cook, ex-Tennessee Titans e St. Louis Rams (ainda era St.Louis). Espera-se que Cook demonstre uma boa produção, pois terá pela primeira vez a bola sendo lançada por um quarterback de elite. Apesar da importância de Richard Rodgers na redzone no ano passado – foram sete touchdowns em dez recepções nesta faixa do campo ano passado – é esperado que Cook herde esse volume e ofereça uma opção em rotas médias e curtas para o camisa 12. Richard Rodgers entrará no seu terceiro ano como uma válida opção para formações com dois tight ends, e Mike McCarthy e Aaron Rodgers podem explorar o porte de ambos os jogadores em diversas situações de passe.

Eddie Lacy vai se redimir da temporada ruim?

As piadas sobre o peso de Eddie Lacy no ano passado renderiam um texto à parte. Claramente acima do peso, o camisa 27 entrou na temporada de 2015 com um dos carros chefe do ataque do Green Bay Packers, depois de duas temporadas com pelo menos 1.100 jardas e 9 touchdowns. Apesar de repetir a média de jardas por tentativa da sua temporada de calouro, a produção do jogador ficou muito abaixo do projetado. Sem conseguir as corridas explosivas que conquistava nas temporadas de 2013 e 2014, Lacy acabou tendo um ano sem brilho, esbarrando nas trincheiras e também falhando no teste de vista. Apenas para ilustrar, das 187 tentativas terrestres do jogador, apenas quatro foram para mais de 20 jardas e 15 ficaram entre 10 e 19 jardas.

Parte do problema de Lacy passa pela inconsistência da linha ofensiva. Durante a temporada, os Bryan Bulaga, T.J. Lang e David Bakthiari perderam jogos no ano passado, causando uma inconsistência na unidade e prejudicando a proteção a Aaron Rodgers e não abrindo os buracos para Eddie Lacy. Buracos esses, diga-se de passagem, que tinham que ser enormes, pois o jogador não demonstrava a explosão de anos anteriores, pelo seu peso e problemas com lesões no pé durante o ano inteiro.

Para 2016, a esperança é que as perdas de peso anunciadas por todos que cobrem o Green Bay Packers de fato sejam significantes de forma a impulsionar o jogo de Eddie Lacy. Da mesma maneira, o jogo corrido já melhoraria drasticamente com a mera manutenção dos cinco titulares da linha ofensiva, sem lesões. A seleção do offensive tackle Jason Spriggs também traz potencial para melhorar a unidade. Em Indiana, Spriggs se destacou segurando a pressão dos melhores pass rushers da Big Ten, Joey Bosa e Shilique Calhoun. Para ilustrar, o left tackle permitiu apenas dois sacks em 431 jogadas de passes, além de mostrar talento para ajudar no jogo corrido – em 2014, Spriggs contribuiu para que o running back Tevin Coleman passasse das 2.000 jardas.

E do outro lado da bola?

O principal problema da defesa do Green Bay Packers foi contra o jogo corrido. A equipe cedeu 1.905 jardas terrestres, 12ª pior marca da NFL, com uma média de 119.1 por jogo. Três fatores podem ser apontados como a causa para este problema: a falta de inside linebackerssafeties que não são brilhantes contra a corrida e a dificuldade da linha defensiva em fechar buraco.

O problema de inside linebacker era tão evidente que Clay Matthews foi deslocado para esta função na temporada passada. O talento bruto do jogador fez com que ele tivesse uma boa temporada, embora sua explosão e agressividade típicas por vezes deixavam espaços na cobertura. Para 2016, relatos já apontam na volta do camisa 52 para o pass rush na função de outside linebacker. A esperança cai no ombros de Blake Martinez, de Stanford, selecionado na quarta rodada do Draft 2016 para assumir a posição de inside linebacker e contribuir para para o jogo corrido. O jogador é forte, produtivo e versátil, atributos desejáveis para o reestabelecimento do front seven. Apesar disso, Martinez pode apresentar a dificuldade em elevar toda sua versatilidade ao nível profissional logo de início, mas pode ser facilmente resolvido no longo prazo. Muitos analistas consideraram a escolha de Martinez uma com enorme potencial, pelo valor do jogador na rodada na qual foi escolhida.

Sobre a secundária, temos uma unidade em evolução. A dupla de safeties, em especial HaHa Clinton-Dix, que demonstrou uma notável evolução no seu segundo ano, é competente na cobertura mas não tão firme contra o jogo corrido. Além disso, Morgan Burnett tem o mesmo estilo de jogo de Clinton-Dix, o que torna a dupla um pouco menos complementar e mais uma repetição das mesmas virtudes – e defeitos. Ainda assim, há expectativa de evolução para os dois jogadores, que precisam demonstrar mais agressividade para impedir o jogo corrido sem precisar entupir a box com oito ou nove jogadores e expor a defesa aos passes médios e longos.  Também jovens,  os cornerbacks Damarious Randle e Quinten Rollins buscam ascender e oferecer mais opções para a secundária, dando quatro opções para Mike McCarthy com Sam Shield e Demetri Goodson.

Por fim, a linha defensiva. Apesar de contar com o veterano Mike Daniels, a equipe precisa de qualidade na função de nose tackle para fechar os buracos contra o jogo corrido. Isso ficará por conta do calouro Kenny Clark, defensive tackle de UCLA. O jogador é de uma força bruta invejável, capaz de gerar dominância dos offensive linemen logo após o snap. O problema fica por conta do comprimento dos seus braços, que às vezes pode ser curto para realizar o contato. Clark é considerado ainda cru para muitos analistas, e o primeiro ano dele pode não ter o impacto que a defesa precisa na linha defensiva.

Enfim, o que esperar para 2016?

A produção ofensiva do Green Bay Packers será sempre boa enquanto Aaron Rodgers vestir o capacete amarelo da franquia. O talento do camisa 12 é fora da curva, seja no aspecto físico ou mental. A volta de Jordy Nelson é um grande reforço para o ataque da equipe. Na hipótese do 87 não demonstrar o mesmo vigor físico de outrora, a mera preocupação das defesas em impedi-lo já deixa a situação mais favorável para todos os outros 10 jogadores de ataque. Ao tentar anular as rotas longas de Nelson, espaços no meio do campo se abrirão para rotas mais curtas e para o jogo corrido.

Ainda sobre o jogo aéreo, Jared Cook tem a chance de produzir como um tight end de ponta. Alguns fãs tem desconfiança quanto ao jogador, por nunca ter explodido em Tennessee ou St. Louis, mas agora ele conta com um quarterback de elite. Ele deve herdar os alvos na redzone de Richard Rodgers, podendo ainda entrar em campo com sets de dois tight ends e criar situações desfavoráveis em termos físicos para os adversários.
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A questão principal do Green Bay Packers está nas trincheiras – dos dois lados. A manutenção de uma linha ofensiva saudável e o estabelecimento de Jason Spriggs já dariam um salto de qualidade e confiança para o ataque. Especialmente para Eddie Lacy, que ganharia muito trabalhando com uma unidade fechada e em sincronia. Claro, a melhora não é exclusivamente dependente da linha – Lacy precisa perder peso e se mostrar explosivo como seus primeiros dois anos. Isso por si só também aumentaria o potencial do jogo aéreo: a constante ameaça do jogo terrestre mantém as defesas “honestas”, isso é, sem colocar oito, nove jogadores no box. Contra o Aaron Rodgers, então, as defesas ficariam honestíssimas.

Por fim, o front seven da equipe. A chegada de Blake Martinez e Kenny Clark representam a reconstrução da unidade, com potencial para arrumar a casa já no primeiro ano. Todavia, não dá para depender de dois calouros na reconstrução defensiva, embora já seja um grande passo para a evolução da unidade. Pela secundária, espera-se a evolução dos defensive backs jovens, em especial na atuação mais firme dos safeties contra o jogo corrido. Isso já desoneraria os calouros no front, dando mais tranquilidade e espaço para os erros naturais da adaptação à NFL. Especula-se que a defesa utilizará mais single-high coverages, que podem representar uma tendência em alocar mais jogadores junto dos linebackers para evitar o jogo corrido.

Dessa maneira, o Green Bay Packers tem o que precisa para ir muito longe na temporada. A volta de Jordy Nelson, os calouros no front seven e a manutenção de uma linha ofensiva saudável (e reforçada por Spriggs) já representa um salto enorme no potencial da equipe. Os Packers tem time e talento para disputar forte os playoffs, na dura NFC de Cardinals, Panthers, Vikings e Seahawks.

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