Como será a vida do Detroit Lions pós-Calvin Johnson?

Por nove temporadas, quando falávamos “Detroit Lions” e “ataque” na mesma frase, a mesma imagem vinha à cabeça: Calvin Johnson. Seja jogando com os quarterbacks Jon Kitna, Dan Orlovsky, Daunte Culpepper ou Matthew Stafford, o camisa 81 se destacava. Já no seu segundo ano como profissional, Calvin Johnson se tornou o alvo predileto no ataque aéreo do Detroit Lions – para ilustrar, das 509 bolas lançadas pela equipe em 2008, 150 foram na direção do wide receiver. Neste mesmo ano, Johnson demonstrou a dominância na posição que exerceria pelos anos seguintes, ultrapassando pela primeira vez a marca de 1.000 jardas (o que faria seis vezes nas próximas sete temporadas), e anotando mais de 10 touchdowns.

Com Matthew Stafford e seu braço descomunal, Calvin Johnson teve temporadas memoráveis; em especial a de 2012, na qual o camisa 81 ficou a 36 jardas de atingir 2.000, recebendo 122 bolas em 204 lançadas na sua direção. Só para colocar em perspectiva, são 122.8 jardas por jogo, marca que seria a número um da NFL em todas as temporadas desde 2002 – a quarta maior de todos os tempos. As 1.964 jardas de Calvin Johnson também são o recorde da liga de jardas recebidas numa só temporada.

Infelizmente para os torcedores do Detroit Lions e fãs do esporte em geral, Calvin Johnson tomou a decisão de se aposentar após a temporada de 2015, depois de mais uma temporada lidando com lesões. Com isso, fica uma incerteza no ar: como um ataque se porta após uma presença tão impactante e magnética? Para onde vai toda a produção de Calvin Johnson em 2016?

Espalhar a bola: volume diluído entre os recebedores

Muitos alegam que o status de Matthews Stafford como um quarterback acima da média vem da sua conexão com Calvin Johnson. Não importava se o passe era atrás, na frente ou em cima do camisa 81: ele dava um jeito de fazer a recepção. Embora isso seja assunto para outra oportunidade, Stafford passará por uma temporada de provação após a saída do seu wide receiver número um em todas as temporadas que esteve na liga.

A dúvida é: qual será a tendência deste ataque? Será que Matthew Stafford elegerá um alvo favorito e simplesmente passará a lançar um altíssimo volume naquela direção? No primeiro momento, ao que tudo indica, o volume que era de Calvin Johnson será distribuído entre os recebedores.

Em 2015, Calvin Johnson teve “apenas” 149 bolas lançadas na sua direção. Logo atrás nesse quesito ficou Golden Tate com 128, que mostrou serviço na ausência do camisa 81. Theo Riddick, running back, ficou com 99 targets e o tight end Eric Ebron teve 70. Esse demonstrativo permite uma leitura das tendências do ataque do Detroit Lions: distribuir a bola de acordo com o match-up favorável dentro de campo. É difícil imaginar que Golden Tate, agora que assumiu o papel de número um deste ataque, simplesmente assuma o mesmíssimo papel de Johnson. Afinal, o porte físico dos dois é diferente: Johnson conseguia isolar defensores com seu tamanho e se tornar um alvo gigante na redzone, enquanto Tate, por ser mais baixo, compensa com aceleração e jardas conquistadas após a recepção.

A lógica sugere que os alvos na redzone sejam espalhados para os tight ends Eric Ebron e Brandon Pettigrew, jogadores mais altos e com físico mais avantajados. Formações com dois tight ends podem ser interessantes em situações dentro das vinte jardas adversárias, visando criar situações desfavoráveis para os defensive backs linebackers. Complementando o ataque aéreo da equipe, temos Golden Tate, que foi um ótimo número dois para Calvin Johnson – mesmo recebendo menos bolas por isso – e um eficiente wide receiver número um nas ausências do camisa 81. O Detroit Lions conta com uma novidade: Marvin Jones, que chega do Cincinnati Bengals, onde também era o receiver número dois do ataque, atrás de A.J. Green.


É uma situação de provação para Golden Tate e Marvin Jones. Independente de quem assuma o posto “oficial” de wide receiver número um, ambos tem a oportunidade de produzir sem estar à sombra de um outro jogador. Sem Green e sem Johnson, Tate e Jones podem ascender ao seu pleno potencial, e isso é extremamente benéfico para o ataque. Não há um jogador de elite para o qual o volume irá invariavelmente; Matthew Stafford pode surpreender a defesa utilizando os wide receivers de maneiras variadas sem demonstrar claramente qual será seu “alvo preferido”. Para deixar mais claro: quando Calvin Johnson em campo, você coloca marcação dupla nele. É (quase) simples dessa forma. Sem uma presença tão magnética, a defesa pode ter dúvidas em campo, e muitas vezes pensar durante a jogada é o tempo necessário para uma jogada explosiva acontecer.

Se tivesse que postular quais as funções dentro do ataque aéreo, acredito que Marvin Jones assumiria uma parcela dos alvos na redzone de Calvin Johnson. O jogador é quase 10 centímetros mais alto que Golden Tate, e pode criar uma situação favorável para receber os passes no alto isolando os defensive backs mais baixo. Tate, por sua vez, seria um recebedor mais utilizado em rotas curtas de seguranças ou em jogadas explosivas. É difícil estipular: as possibilidades são enormes. Tate, Jones e Ebron formam um trio versátil de recebedores, isso sem contar a ameaça de Theo Riddick – da qual falaremos agora.

O monstro de duas cabeças do backfield

Ameer Abdullah e Theo Riddick formam uma dupla de running backs com potencial de tornar a vida das defesas um inferno. Teoricamente, Abdullah seria o jogador de carga deste ataque, que conquista as jardas duras nas trincheiras, enquanto Riddick seria a opção em jogadas de passe. Entretanto, Abdullah teve 38 targets e 25 recepções em 2015, demonstrando que pode ser uma arma também no jogo aéreo. O motivo da capacidade de Abdullah em receber passes é relevante: causa dúvida nas defesas adversárias sobre a jogada que ocorrerá. A dúvida será a mesma caso Theo Riddick demonstre uma melhora em correr pelas trincheiras. O motivo dessa fungibilidade nos running backs ser importante é não ter um “tell” para as defesas adversárias.

tell é aquele tique, aquela característica de alguém que, quando feita, indica que algo específico vai acontecer. Por exemplo, no pôquer, se toda vez que eu tiver uma boa mão eu coçar meu nariz, aquele é meu tell. Ou se eu mexer nas fichas de forma nervosa toda vez que estiver blefando, é questão de tempo até meus oponentes perceberem que há uma relação entre meus movimentos e as mãos que jogo. Isso se aplica ao futebol americano: se Riddick não consegue correr com a bola, eu posso facilmente diagnosticar que será uma situação de passe quando ele estiver no backfield, e vice-versa. Ter características distintas entre si mas ser capaz de realizar a função do outro running back de forma eficiente é um atributo e tanto para um duo  de running backs.


A situação para Abdullah e Riddick triunfarem também é mais favorável que em 2015. O Detroit Lions selecionou o offensive tackle Taylor Decker e o center Graham Glasgow na primeira e terceira rodada do Draft 2016, respectivamente. São adições talentosas que podem aumentar o impacto do jogo terrestre desde a primeira semana da NFL.

Um ataque versátil e imprevisível

Posto isso, o ataque do Detroit Lions tem uma oportunidade muito particular. Apesar de terem perdido um dos maiores nomes da sua história, o coordenador ofensivo Jim Bob Cooter pode usar isso ao seu favor. Importante mencionar que, antes que acreditem que perder Calvin Johnson é uma vantagem, perder um talento desta magnitude nunca é bom. O que os Lions podem fazer é minimizar o impacto dessa perda, utilizando a imprevisibilidade de um ataque que se acostumou por nove anos a dar a bola pro camisa 81 e tirar proveito pelo sistema. Os segundos que a imprevisibilidade concede, o wide receiver de elite compensaria em qualquer sistema pelo talento e impacto.

Feita essa ressalva, sem um nome magnético para as defesas, Stafford pode espraiar as bolas para o seu jovem grupo de recebedores e running backs. Com Jones, Ebron, Fuller e Tate, os Lions podem confeccionar seu plano de jogo explorando as vantagens de cada um destes jogadores contra os adversários específicos, criando match-ups desfavoráveis. Esse potencial aliado aos running backs com características complementares e nomes com enorme potencial na linha ofensiva, o torcedor do Detroit Lions pode esperar um ataque focado na distribuição de volume entre todos os integrantes.

“odds