O Buffalo Bills talvez tenha sido o time que mais surpreendeu a todos em 2015, tanto de maneira positiva quanto negativa. A maioria absoluta das tradicionais previsões de pré-temporada a respeito da equipe – ida aos Playoffs, forte pass rush – se mostraram equivocadas depois de pouco tempo, pois aconteceu exatamente o contrário do que era esperado pelos especialistas. Vamos relembrar.
Antes do início da temporada regular passada, a ideia geral sobre Buffalo era mais ou menos a seguinte: com os pedestres Matt Cassel, E.J. Manuel e Tyrod Taylor disputando a titularidade na posição de quarterback, a franquia sofreria muita instabilidade e consequentemente teria graves problemas no jogo aéreo. O ataque, então, focaria em correr com a bola e seria protagonizado por LeSean McCoy. Já a defesa, que havia sido ótima em 2014, ficaria ainda melhor com a chegada de Rex Ryan, visto como um guru defensivo. Contudo, a realidade se mostrou bastante diferente – com exceção da parte do ataque corrido, embora McCoy não tenha sido tão eficiente assim. Taylor ganhou a titularidade e jogou bem atuando dentro das suas características, tanto que já se discute se ele é a solução em longo prazo para os Bills. A defesa, por sua vez, regrediu e apresentou uma queda brusca de desempenho, deixando várias pessoas perplexas.
Erros de previsão à parte, o principal ponto aqui é entender o porquê de Rex Ryan ter fracassado em 2015. Como uma defesa que manteve praticamente os mesmos jogadores de um ano para o outro caiu tanto de performance? Existe perspectiva de melhora para 2016? Vamos tentar responder estas perguntas.
Mudança de esquema e dificuldades de adaptação
Graças sobretudo ao excepcional rendimento da sua linha defensiva, Buffalo foi a quarta melhor equipe em média de jardas (312,2) e pontos (18,1) cedidos por partida em 2014. Além disso, somou 54 sacks, maior marca da liga, e 30 turnovers forçados. No entanto, na última temporada as coisas degringolaram: média de 356,4 jardas e 22,4 pontos cedidos por jogo (respectivamente a 19ª e 15ª marca), 25 turnovers forçados e apenas 21 sacks, segundo pior número da NFL. Individualmente falando, jogadores importantes como Marcell Dareus e Mario Williams tiveram os piores anos das suas carreiras. Eles estarem um ano mais velhos não é o que explica esse processo.
Como já dissemos antes, o grupo de atletas foi praticamente o mesmo de 2014 para 2015. Fora de campo, porém, as mudanças foram bem mais drásticas: saíram o head coach Doug Marrone e o coordenador defensivo Jim Schwartz. Em compensação, chegaram Ryan e Dennis Thurman. Rex trouxe na bagagem profissionais de sua confiança e ideias de jogo novas. Foi aí que começaram os problemas.
Em primeiro lugar, a formação base da defesa dos Bills deixou de ser o 4-3 de Schwartz e se tornou o 3-4 híbrido de Ryan. Um esclarecimento rápido: é importante enxergar esses esquemas não como uma coisa fixa, mas sim uma generalização, já que os times se alinham de diversos jeitos distintos durante a partida. Deste modo, as obrigações de defensive ends como Mario Williams e Jerry Hughes ficaram um pouco diferentes. Ademais, Ryan costuma ser bastante criativo na maneira de utilizar seus jogadores – até por isso é uma mente defensiva tão respeitada. Ele pode alinhar vários atletas na linha de scrimmage com o objetivo de confundir o ataque adversário, chamar blitzes ousadas ou pedir para pass rushers natos como Dareus e Williams fazer a cobertura de passes – neste último caso, ocasionando reclamações de ambos.
O ponto é que o sistema defensivo de Rex é bastante diferente do que os atletas de Buffalo estavam acostumados, possivelmente até mesmo mais complexo. “A linguagem é bem fácil, mas você tem que entender formações, e algumas vezes isso vem com estudo extracampo, vem com preparação”, disse o treinador. Não por acaso, segundo informações surgidas ao longo da temporada, os jogadores estavam achando o esquema complicado e difícil de entender.
A dificuldade de adaptação dos atletas e a insistência de Ryan em pedir para eles fazerem coisas diferentes das suas características condenou a defesa dos Bills em 2015. Essa, aliás, é uma boa explicação para o pass rush ter despencado de rendimento. Limitar as vezes em que Dareus, Williams e Hughes iam atrás do quarterback pode não ter sido a melhor ideia. E com o pass rush debilitado, a defesa inteira naturalmente ficou mais vulnerável. Porém, outro fator não deve ser descartado, embora ele fique um pouco no campo da especulação.
O vestiário estava com problemas?
Não vamos ser sensacionalistas e dizer que o vestiário da equipe estava “rachado”, afinal não existiram relatos concretos falando isso, mas, se analisarmos algumas notícias, podemos imaginar que o clima não devia ser dos melhores no ano passado.
Confira a sequência de acontecimentos. Mario Williams era um dos mais insatisfeitos, tanto que já cogitavam a sua saída da equipe antes mesmo da temporada acabar – ele de fato foi cortado no último dia 1º de março. De forma anônima, alguns companheiros de time detonaram o defensive end, o acusando de fazer corpo mole, não se esforçar e apenas reclamar. Meses depois, Ryan concede uma entrevista afirmando não desejar o bem de Williams em Miami e ainda dá uma alfinetada, dizendo que já pediu para outros pass rushers famosos fazerem cobertura e nenhum deles deu chilique.
Enfim, há indícios fortes de que o vestiário dos Bills não estava em paz. O quanto isso pode ter atrapalhado ou não é mera especulação, entretanto é evidente que jogadores reclamando do técnico ou acusando os companheiros de corpo mole não é a receita do sucesso.
Existe perspectiva de melhora para 2016?
Os Bills têm talento de sobra na defesa, algo que aumenta muito as chances de um eventual crescimento. Se voltar bem de lesão, Kyle Williams pode fazer com Marcell Dareus a melhor dupla de defensive tackles da NFL. Jerry Hughes já provou ser um pass rusher eficiente. Ronald Darby teve um ótimo ano de calouro (duas interceptações e 21 passes defendidos) e Stephon Gilmore também é um cornerback sólido. Além disso, a franquia se reforçou no último Draft com o defensive end Shaq Lawson e o linebacker Reggie Ragland – o primeiro, contudo, perderá algum tempo por conta de uma cirurgia no ombro.
Visando melhorar, Rex também reformulou a comissão técnica, trazendo Ed Reed para ocupar o cargo de treinador assistente dos defensive backs e Rob Ryan, seu irmão gêmeo, para o posto de assistente de defesa/head coach. A chegada de Rob foi especialmente polêmica devido ao seu recente fracasso faraônico como coordenador defensivo dos Saints.
No final, tudo depende dos jogadores comprarem as ideias de Ryan, se sentirem confortáveis e completarem a adaptação ao esquema. A tendência é as reclamações diminuírem a partir da segunda temporada de trabalho do treinador. Ele pelo menos está otimista, afirmando que a equipe está zilhões de milhas a frente em relação ao ano passado. Buffalo precisa muito que isso seja verdade, pois caso contrário não conseguirá nem brigar para encerrar a seca de 16 anos sem ir aos Playoffs.
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