A notícia de que Colin Kaepernick foi para o banco do San Francisco 49ers pode ter surpreendido alguns – especialmente o fã mais casual. Afinal de contas, como pode um “quarterback de Super Bowl” ir para o banco três anos depois de “conduzir” o time até a grande final? Bom, isso é o que a gente acha que aconteceu.
Naturalmente, pelo fato do quarterback ser a posição mais importante do jogo, a gente acaba muitas vezes pensando que um time ganha ou perde por conta dele. Acontece que o futebol americano é o esporte mais coletivo que há. A defesa do San Francisco 49ers ajudou – e muito – que Kaepernick chegasse onde chegou. Ademais, a principal virtude do quarterback era a read option – em 2012, funcionava. Hoje, não. As coisas mudam no esporte. Tal qual a wildcat funcionava em 2008 – fazendo com que o Miami Dolphins fosse campeão de divisão em cima do New England Patriots – a read option era efetiva há alguns anos atrás. De toda sorte, é uma jogada que ficou manjada com o tempo – os coordenadores defensivos tiveram (especialmente os da NFC West, o que ajuda a explicar o fato dos piores desempenhos de Kaepernick em 2014 e 2015 terem sido contra eles) várias intertemporadas para aprender a anular o esquema. Conseguiram. Com ele anulado, Kaepernick ficou desarmado e com as mãos no bolso – já que o passe de dentro do pocket esteve longe de ser sua qualidade.
As primaveras passaram e Chip Kelly chegou com seu ataque baseado em passes precisos
Sob o comando de Chip Kelly, o San Francisco 49ers deve abraçar a filosofia do treinador: um ataque dinâmico, sem parar entre as jogadas para cansar as defesas e as atacar desprevenidas. Para isso, Kelly precisa que seu signal caller seja capaz de acertar passes rápidos, curtos e precisos, observando as diferentes opções de acordo com o matchup dentro de campo – e é aí que o encaixe de Kaepernick vai pelo ralo. O jogador tem enorme dificuldade em colocar finesse nos seus passes; se somarmos a isso sua tendência em resolver apenas com as pernas e dificuldade em fazer a progressão das leituras, a presença do camisa 7 pode prejudicar o ataque up-tempo do ex-treinador do Philadelphia Eagles.
Portanto, a notícia de que Colin Kaepernick é o reserva para a primeira semana da temporada não é nenhuma novidade. Blaine Gabbert demonstrou evolução em relação aos seus anos de Jacksonville Jaguars – nos quais nunca contou com elencos de enorme qualidade em nenhum dos lados da bola – e pode ser trabalhado dentro do que pretende Chip Kelly. É um gênio? Não. Mas para a filosofia de Kelly é uma peça que faz mais sentido.
Apesar do alto número de interceptações, o perfil de passador propriamente dito se encaixa perfeitamente no que pretende o ex-treinador de Oregon. Além disso, Gabbert demonstrou capacidade de resolver com as pernas quando bate a necessidade – e frise-se, quando bate a necessidade, não como primeiro recurso quando o principal recebedor está bem marcado. Chip Kelly precisa de um quarterback preciso, não móvel.
A justificativa de que Colin Kaepernick deve ser titular baseado apenas no “quarterback de Super Bowl” é uma justificativa manca, falha, sem levar em consideração todos os fatores que cercavam o camisa 7 – levando em conta apenas que ele era o titular. Tampouco faz sentido dizer que ele foi para o banco por conta do protesto contra policiais por conta da conduta destes contra a população negra. Kaepernick começou esse protesto na Semana 3 da pré-temporada, quando já estava bem atrás na briga de titularidade – conforme vários beat writers que cobrem os 49ers reportaram ao longo da intertemporada. Não bastasse não ser um encaixe melhor do que Gabbert para os sistema de Chip Kelly, o camisa 7 perdeu precioso tempo de treinamento (algo que Kelly ama de paixão, por conta de valorizar repetições) por estar com o “braço fadigado”. A repetição do protesto na Semana 4 tampouco foi a “gota d’água”: ele já estava escalado como o quarterback que começaria o jogo na Semana 4 da pré-temporada. E quem é titular nesta semana, é banco na temporada regular. Pode chegar os outros times.
A lógica de justificar uma escalação pelo que um jogador apresentou há quatro anos atrás é um depoimento contra a compreensão de que o esporte evolui, se modifica e que os jogadores devem se adaptar. Por esse pensamento, por que Wes Welker e Brandon Browner não são titulares em lugar algum?
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