Nunca escondi de ninguém que torço para o Chicago Bears. Afinal de contas, o esporte está banhado em emoção, esta é uma de suas características mais marcantes. Isto nunca quis dizer que cheguei ao ponto de ser uma figura caricata, que reclama do time de forma aleatória e quando estou falando de outros. Aí vira um desserviço.
De toda forma, agora não é de forma aleatória. Os Bears são o pior time da NFL. Uma série de 6.10²³ fatores fez com que a franquia fosse a epítome da bagunça na NFL em 2016.
Para começar, a franquia está 0-3. A chance de chegar à pós-temporada, que já era diminuta na Conferência Nacional e numa divisão com Packers e Vikings, agora foi para o espaço. Mesmo tendo um dos calendários mais fáceis da NFL em 2016 (considerando vitórias e derrotas dos adversários tendo como base a temporada passada), Chicago caminha a passos largos para não ter mais de quatro vitórias neste ano.
De início: o quarterback é inepto. Quando o cover do Paulo Gustavo (estou falando de Brian Hoyer, caso você não tenha percebido) tem melhores estatísticas que o titular algo está errado. Jay Cutler é uma sanguessuga de energias positivas na unidade ofensiva. Para começo de conversa, quarterback não é uma máquina que passa a bola. Ele é o líder do time. Feliz a tradução da posição em espanhol (mariscal – marechal), porque o papel do quarterback é, nitidamente, de comandar o ataque. Cutler faz besteira, Cutler dá chilique tacando a bola no chão quando a linha ofensiva faz falta, Cutler comete turnovers e fica com cara de depressivo.
Isso é absolutamente tudo o que você não quer de um líder. Seja num trabalho em grupo na 4ª série, numa empresa ou num time da NFL. A Era Cutler acabou em Chicago, para o desespero das páginas de meme. Não tem mais volta, até porque o salário garantido sai de 19 milhões (2016) para 2 milhões (2017). E se precisar fazer uma vaquinha para pagar esses 2 milhões, eu mesmo comando a arrecadação.
Para completar, o time fez jus ao fato da série Plantão Médico (ER) ser filmada em Chicago. Tá todo mundo machucado. Não que saudável esse time fosse brilhante, mas alguns jogadores em posições críticas estão fora de partidas. Cutler fora é reforço, nem que seja emocional. Faço menção à defesa, em específico.
Eddie Goldman se machucou na segunda passada contra os Eagles e ele é a âncora do time. Não que ele seja gênio, mas é o nose tackle do 3-4. Se ele não estiver ali e um qualquer estiver em seu lugar, o primeiríssimo setor da defesa fica, sem eufemismos, mole. Não é um mero achismo subjetivo, as estatísticas comprovam. 6,5 jardas por carregada quando as corridas correm pelo meio da defesa dos Bears. Aí a terceira descida fica ridiculamente fácil para os adversários e as campanhas não acabam nunca.
Dá para piorar? Ah dá. O nome do jogo é pass rush e Pernell McPhee ainda não estreou nesta temporada. Sendo justo, ele fez um 2015 acima da média. Mas sem ele não tem como pressionar o quarterback adversário, por melhor que seja o play calling de Vic Fangio. O coordenador defensivo dos Bears tem capacidade (como vimos em sua passagem pelos 49ers) para fazer os melhores pratos de cozinha francesa. Com os ingredientes atuais, não consegue nem fazer um miojo.
É tudo um desastre? Não, há vários pontos positivos. Jerrell Freeman discutivelmente é o melhor linebacker desta defesa (aliás, melhor jogador desta defesa) e provavelmente não vai para o Pro Bowl porque o time é horrível e ninguém vai prestar atenção nisso. Kyle Long, agora right guard de maneira fixa, também agrada. Idem para o running back Jordan Howard.
Mas, no geral, o time é uma bagunça. Não estranha que a franquia tenha um quarterback sem capacidade de liderar quando a própria franquia não o tem. Da fundação da franquia até a morte de George Halas (dono, fundador, general manager, por boa parte do tempo, técnico, cacique e provável membro da brigada de incêndio) foram 9 títulos. Desde que sua filha, Virginia Halas McCaskey assumiu o comando, um. E a comissão técnica de 1985 foi montada por Halas, morto em 1983.
Virginia já passou da casa dos 90 anos, não manda absolutamente nada e é uma figura mais decorativa do que a rainha da Inglaterra – ela e Bebel devem ter a mesma idade, aliás. Os filhos da Dona Virginia são ineptos. Chicago é o terceiro maior mercado consumidor dos Estados Unidos e, de algum modo que não consigo entender, os Bears não são um dos cinco times mais valiosos da liga. Na realidade, como ela ainda é a “dona” do time, ninguém sabe quem manda. Sabe aquelas empresas familiares que vão à falência porque todos os membros da família são incompetentes? Isso só não aconteceu com os Bears ainda porque é impossível uma franquia dar prejuízo na NFL.
Em suma, está tudo errado e tudo disfuncional. A reconstrução deve ter mais um capítulo na temporada que vem – até porque só um milagre de proporções bíblicas, que estaria na próxima novela da Record, evita um 3-13 neste ano. John Fox será o primeiro a ir para o espaço. Josh McDaniels, coordenador ofensivo dos Patriots, já surge como potencial alvo. E quem quer ser o quarterback? Nesta altura do campeonato, ainda mais com Wentz e Prescott brilhando, qualquer opção é melhor do que Cutler. Ao menos eles não afundariam o emocional do time.
DeShone Kizer, de Notre Dame? DeShaun Watson de Clemson? Qualquer um é melhor do que o que há em Illinois.
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