Não existe entre as torcidas dos times que ficaram fora dos playoffs na temporada passada alguma mais otimista que a do San Francisco 49ers. Desde a estreia de Jimmy Garoppolo na semana 13 contra os Bears foram cinco vitórias consecutivas, e time saiu da parte rabeira da tabela para uma posição em que pode ser considerado um time com capacidade para brigar por algo maior em 2018.
Claro que Garoppolo foi um dos responsáveis diretos pela boa fase e um evidente upgrade em relação a CJ Beathard, Brian Hoyer e Blaine Gabbert, quarterbacks que tiveram performances sofríveis a frente dos 49ers nos últimos anos. Mas, como já dizia minha vó, “cautela e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém”. O primeiro ponto a notarmos é que a amostragem de Garoppolo é pequena: foram apenas cinco jogos e nenhum coordenador defensivo tinha muita noção do que ele poderia apresentar e, consequentemente, de como defender isso. Com os vídeos dos jogos da temporada passada em mãos, as defesas deverão estar mais prontas para suas tendências de jogo, elucidando seus pontos fortes e fracos e obrigando-o a ajustes inesperados. Esses ajustes que vão mostrar sua real capacidade de ser um quarterback de bom nível ou apenas mais um mediano.
Analisando friamente e deixando a empolgação de lado, podemos afirmar que as performances de Garoppolo não foram especiais. A animação pelas vitórias dá uma falsa sensação de que tudo foi fabuloso, quando não é verdade. Seu papel principal foi ser um game manager, ou seja, gerenciar o jogo em geral. Mover as correntes antes de mais nada, mesmo que de forma gradativa. Nada de riscos excessivos e devolver a bola aos adversários. Nos jogos pré-Garoppolo, o time teve média aproximada de 29 minutos de posse de bola; já com ele em campo, foram praticamente 33 minutos, um acréscimo de quase 15%.
Garoppolo lançou apenas 16 bolas para mais de 20 jardas. Seu índice de acerto foi menor que a média da NFL (31% contra uma média de 39%) e ele não teve nenhum touchdown em lançamentos como estes. Seu passer rating foi de 62 enquanto a média da NFL foi de 86. Em bolas entre 10 e 19 jardas o índice de passes esteve na média, porém, foi onde aconteceram todas suas cinco interceptações: 8,8% das suas bolas foram interceptadas nesse range, o dobro da média da liga.
Fica claro que Garoppolo teve muito sucesso em passes curtos, completando 85% dos passes e tendo um rating de 115 (enquanto a média da liga é de 86). O time usou dois running backs em 31% das formações, 20% a mais que a média da NFL. Além disso, foi o nono que mais usou o play action e 40% dos passes foram para direcionados a running backs e tight ends. O fullback Kyle Juszczyk foi o terceiro do time em jardas recebidas e o segundo em jardas pós-recepções nos jogos com Garoppolo e isso demonstra bem a filosofia aérea do time.
Isso evitou que o time ficasse “no buraco” muitas vezes em conversões de terceiras descidas. Com isso, Garoppolo conseguiu converter 51% das situações em first downs, 13% acima da média dos demais quarterbacks.
Fica claro que Garoppolo deu uma boa amostra e soube executar o que o head coach Kyle Shanahan pediu com maestria. Fazer isso demonstra QI de jogo e disciplina tática. Tom Brady no início da carreira fez exatamente isso pelos Patriots e inclusive venceu Super Bowls assim, até se tornar o jogador que todos conhecemos.
Todo hype em redor de suas atuações se devem essencialmente a dois fatores: antecessores ruins que faziam a torcida sofrer demais e vitórias: o time venceu todos os jogos, contudo, se tivesse terminado 3-2 nesta sequência, ouviríamos muito “Garoppolo foi regular em sua primeira temporada e deu flashes de que pode ser um bom quarterback”.
Na estreia na atual temporada, contra a forte defesa dos Vikings, Garoppolo já teve problemas. Foram apenas 15 acertos em 33 passes tentados para 261 jardas. Com apenas um touchdown lançado, ele acabou sofrendo três interceptações, sendo uma delas retornada para touchdown pelo calouro Mike Hughes. Seu índice em terceiras descidas já foi de apenas 30%. Se em profundidade houve avanço, com sete acertos em 10 tentativas entre 20 e 30 jardas, os problemas em passes intermediários continuaram: foram apenas três acertos em 10 tentados, com um rating miserável de apenas 20,4.
Os running backs e fullbacks antes tão usados ficaram limitados a 4 passes em sua direção, e só 2 foram completos. Kyle Juszczyk teve uma jogada para 56 jardas, mas descontando esta big play, foram 5 jardas combinadas pelo ar dele e Matt Breida. Alfred Morris sequer foi alvo. O jogo corrido produziu pouco e com isso o play action perdeu efetividade, deixando Garoppolo várias vezes em situações óbvias de passe.
Todos esses fatores do jogo da semana 1 deixam uma coisa clara: Jimmy Garoppolo já esta mapeado e os coordenadores defensivos farão os ajustes ao seu jogo. Vamos ver se ele evolui e se também se reajusta, tirando coelhos da cartola ou se seus truques são limitados ao que já vimos.


Os problemas existem também do lado defensivo
A defesa num geral não foi bem em 2017 e precisa de melhorias. Sendo a 11ª que mais cedeu jardas em 2017, viu 38% das campanhas adversárias terminarem em pontuações, sexta pior marca entre todos os times. Shanahan demonstrou suas tendências defensivas só mandando cinco ou mais jogadores atrás do quarterback em pouco mais de 22% dos snaps defensivos. Isso obriga a linha defensiva e os edges a criarem pressão por conta própria e nisso os 49ers falharam: foram só 30 sacks, a colocando como a sétima pior defesa no quesito. O veterano Elvis Dumervil (que nem está mais na equipe) teve 6,5 sacks e mais nenhum jogador conseguiu produzir mais que três. DeForest Buckner fez um bom trabalho pelo miolo da linha, mas Solomon Thomas terá que produzir mais na sua segunda temporada para fazer valer sua seleção na terceira escolha. Arik Armstead perdeu dez jogos no ano passado e espera-se que seu retorno ajude na questão. No entanto, ainda se trata de um grupo raso em termos de talento para pressionar o quarterback e ninguém que possa sequer substituir Dumervil chegou. No primeiro jogo o time conseguiu 3 sacks. Sinal de melhora? 2,5 deles foram de Buckner, ou seja: o time segue dependente de sua produção. Além disso, a linha ofensiva dos Vikings é uma unidade fraca e não pode ser tomada como parâmetro. Estando entre às dez piores contra o passe na maioria das categorias, essa pressão poderá complicar a secundária. Akhello Whiterspoon cedeu jogadas de sucesso em quase 60% das vezes que foi alvo em 2017. Richard Sherman chega para jogar no seu esquema predileto com base na cover 3, no entanto, com 30 anos e vindo de uma cirurgia no tendão de Aquiles uma queda de produção seria normal. Contra os Vikings, ele sofreu na cobertura de Stefon Diggs, especialmente em profundidade. O time tem problemas na marcação ao slot receiver e K’Waun Williams não parece ser a resposta na posição de nickel. O time também não foi bem contra o jogo corrido, sendo a 11ª defesa que mais cedeu jardas pelo chão e não houve nenhum investimento que pudesse justificar qualquer perspectiva de melhora. Os reservas de linha defensiva e dos linebackers não inspiram confiança na rotação e Reuben Foster terá dois jogos de suspensão a cumprir. Isso será um complicador ainda maior nas duas primeiras semanas. Fred Warner foi selecionado no último draft e começou bem a temporada, mas uma lesão e o grupo pode desmoronar.A linha de ataque também precisa ser melhorada
No ataque, os maiores problemas estão na linha ofensiva. O time foi só o 21° correndo com a bola e o décimo que mais cedeu sacks na temporada. Joe Staley é um dos melhores left tackles da liga (apesar dos 34 anos) e o novato selecionado na primeira rodada Mike McGlinchey é promessa de melhora no lado direito. Weston Richburg é um bom center, mas a posição de guard é que não inspira confiança: Laken Tomlinson demonstrou problemas protegendo o quarterback, cedendo cinco sacks em 2017; já Joshua Garnett volta de uma cirurgia no joelho e disputará posição com Mike Person. Sem dúvida é uma posição em que o sinal amarelo está ligado. Contra o Vikings, foram 3 sacks e 9 hits em Garoppolo. É muita coisa e o risco de uma lesão fica gigantesco se isso continuar acontecendo. Imaginem ver CJ Beathard novamente under center? Fazer os ajustes na linha e melhorar sua produção se tornam emergenciais. Jimmy Garoppolo é um bom quarterback? Sim. Suas qualidades justificam essa empolgação toda ao redor do time? Não. Como vimos domingo, é cedo demais para tamanha euforia em volta um jogador de uma função tão dura e achar que ele carregará o time por todo ano é não seguir a lógica. Como vimos, o time tem alguns buracos importantes a preencher e que vem sendo ignorados pela grande mídia e pelos torcedores. Sem corrigir os problemas citados, numa divisão que tem os Rams como francos favoritos e numa conferência com tantos times em condições de beliscar ao menos uma vaga no wild card, dificilmente veremos os 49ers cruzando a linha para os playoffs e mantendo a aura de “time sensação” deixada no final de 2017.






