A demissão de um treinador que venceu o prêmio de Coach of the Year duas vezes nos últimos cinco anos deveria soar como um absurdo completo. No entanto, no ecossistema volátil da NFL — e especificamente na máquina de moer gente que se tornou o Cleveland Browns —, a saída de Kevin Stefanski parece menos um fracasso pessoal e mais um livramento necessário.
Se há uma certeza neste início de 2026, é que o mercado não deixará Stefanski desempregado por muito tempo. Na verdade, ele deve ser um dos primeiros nome na lista de qualquer franquia que busque competência e inteligência ofensiva.
O fardo de uma estrutura disfuncional
É inegável que as duas últimas temporadas em Cleveland foram ruins. O recorde acumulado de 8 vitórias e 26 derrotas entre 2024 e 2025 é difícil de defender à primeira vista. Contudo, contextualizar esses números é essencial para entender por que a culpa não recai principalmente sobre os ombros do treinador.
Desde a fatídica troca por Deshaun Watson, os Browns entraram em uma espiral de caos que fugiu ao controle de Stefanski. A decisão de comprometer o futuro da franquia com um contrato totalmente garantido e a perda de múltiplas escolhas de primeira rodada foi um movimento da diretoria e dos donos, Jimmy e Dee Haslam.
Stefanski foi forçado a trabalhar com um “quarterback de elite” que nunca rendeu o esperado, seja por lesões, questões extracampo ou simples declínio técnico. Quando Watson não estava disponível (o que foi frequente), o treinador precisou fazer milagres com reservas e peças de reposição, operando um ataque com as mãos atadas pela falta de capital de Draft para reforçar o elenco.
Um currículo de elite
O que define Stefanski não são os dois últimos anos de “bagunça” administrativa, mas o que ele provou ser capaz de fazer quando teve o mínimo de estabilidade. Ele não ganhou dois prêmios de Treinador do Ano por acaso.
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2020: Em seu primeiro ano, quebrou um jejum de 18 anos sem playoffs para os Browns e venceu o primeiro jogo de pós-temporada da franquia desde 1994.
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2023: Levou o time aos playoffs novamente, mesmo utilizando cinco quarterbacks diferentes ao longo da temporada — um feito de adaptação tática que poucos na história da liga conseguiram realizar.
Sua essência é a de um desenvolvedor de talentos. Antes de chegar a Cleveland, Stefanski passou 13 anos no Minnesota Vikings, subindo degrau por degrau até se tornar coordenador ofensivo. Ele é, por formação e vocação, um especialista em quarterbacks. Ele entende a mecânica, a leitura de jogo e, acima de tudo, sabe montar planos de jogo que potencializam as virtudes de seus jogadores e escondem suas fraquezas.
O ataque como diferencial
Em uma liga que privilegia o ataque, o sistema de Stefanski é altamente valorizado. Ele utiliza conceitos modernos de West Coast Offense com uma ênfase inteligente no jogo terrestre e no play-action, algo que facilita a vida de qualquer sinalizador de jogadas. O fato de ele ter conseguido manter os Browns competitivos em diversos momentos, apesar do desastre na posição de QB titular, é um atestado de sua capacidade de arquitetar esquemas produtivos.
Muitas vezes, Cleveland pareceu um time bem treinado que perdia por falta de execução individual ou por decisões equivocadas da gerência que limitavam o talento disponível. Para uma equipe como o New York Giants ou qualquer outra franquia com um quarterback jovem precisando de mentoria, Stefanski é o cenário ideal.
Por que a demissão pode ser a melhor notícia para ele
No final das contas, ser demitido dos Browns pode ser a melhor coisa que aconteceu à carreira de Kevin Stefanski. Ele sai com a reputação de alguém que sobreviveu ao caos e entregou resultados históricos em um lugar onde quase ninguém teve sucesso nas últimas três décadas.
Ele não é o problema; ele foi, por muito tempo, a única solução funcional em Cleveland. Agora, livre das amarras do contrato de Watson e da pressão de uma diretoria que pareceu priorizar o marketing em detrimento da construção lógica de um elenco, ele pode escolher seu próximo destino.
A NFL é uma liga de resultados, mas também é uma liga de competência técnica. Stefanski tem os dois em seu currículo, além de uma postura profissional que agrada a qualquer dono de franquia que queira fugir de polêmicas. Não se surpreenda se, em 2026, Kevin Stefanski estiver liderando uma nova equipe de volta aos playoffs, enquanto os Browns ainda tentam entender como consertar os erros que ele, sozinho, não conseguiu mascarar.
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