Não é pelo braço. É pelo cérebro

A maior parte das pessoas lançou pedras em Peyton Manning ao longo desta temporada. Seus números são, para não dizer outra coisa, pífios. São 17 interceptações – só Blake Bortles teve mais, e ainda sim ele teve seis jogos a mais também. São apenas nove touchdowns. Apenas um em Denver.

Dane-se. Às vezes quando a gente analisa certas coisas, se apega demais a números, a estatísticas. Quantas e quantas vezes não fomos enganados com estatísticas no College? Não é porque uma coisa aconteceu no passado que necessariamente isso indica que acontecerá no futuro. Poucos acabam entendendo essa veneração a Peyton na reta final do campeonato. Eu entendo. Mais do que alguns torcedores de Denver, ainda com o coração dividido entre Osweiler e Manning quanto à “melhor chance de vencer”, talvez meu coração esteja como aqueles torcedores dos Colts. Que ao olharem o placar, olharem o tempo, não vem quanto tempo falta para o final do jogo – mas quanto tempo falta para a carreira de Peyton eventualmente acabar.

Honestamente; É muito difícil que ele volte na próxima temporada. Honestamente; Isso dói. O atleta morre duas vezes na vida – quando a carreira acaba e quando a morte natural de fato vem. Cada jogo dos playoffs é um velório de uma carreira que, a parte de todos os títulos, traduz-se no futebol americano mais puro que existe. O jogo não se trata de pancadaria, de passes para mais de 80 jardas. Não. O jogo começa a evoluir no início do século passado, em analogia ao ambiente de combate nas guerras. Trincheiras. Avanços curtos. Domínio do território e análise do oponente. Leitura, pensamento, execução. Se o que o general mandou fazer vai dar errado, muda-se a abordagem. Faz-se audibles.

Leia Também: Mock Draft: Previsões da Semana de Finais de Conferência

Muito do crédito dado aos quarterbacks vem dos passes longos. Eles podem ser medidos em estatísticas, são dados objetivos. Mas talvez tenhamos que tratar com mais carinho as intangíveis; os dados subjetivos. Um quarterback comandando o ataque por uma longa marcha de quase 80 jardas no campo do oponente. Lendo a defesa, mudando a direção da corrida. Mudando o tipo da corrida. O futebol americano é, em essência, um jogo de conquista de território. Peyton Manning sabe disso. Mais do que um braço potente, nesta altura da carreira ele tem um cérebro potente. É um treinador de capacete em campo. É alguém que trabalha dia e noite vendo filmes das jogadas dos adversários. É alguém que teria todos os motivos do mundo para desistir, para largar o esporte. Já ganhou MVP, já tem o record de mais jardas totais, record de mais touchdowns… E ao contrário de Dan Marino (que em um dado momento da história também deteve esses records), Manning já venceu o Super Bowl. Mas ele decidiu continuar.

Talvez esta seja a virtude mais admirável. Continuar. Seguir em frente até que todo o suor do corpo esteja no campo de batalha. Não temos ideia de como será a final de Conferência no domingo. Se por um lado os Patriots têm apenas uma vitória nos últimos seis jogos fora de casa em Denver, por outro seu quarterback se chama Tom Brady. Seja o resultado que for, admirarei a partida e olharei para a tela com respeito profundo. Respeito por aquele que mudou, de certa forma, o jogo. Que gastava todo o playclock na preparação. Que pensou antes de executar. Que teve classe e ética acima de tudo.

Eu não lancei pedras. Lanço aplausos. Seja o final que for, a história se encarregará de listá-lo como o quarterback mais cerebral de todos. Peyton Williams Manning.

Outras crônicas de Antony Curti como esta você confere exclusivas no ebook “Crônicas do Futebol Americano”, com as 20 melhores publicadas entre 2012 e 2015. Link aqui.

“odds