Curti: COMO ACONTECEU O COLAPSO DO LOS ANGELES RAMS

De favorito na divisão e atual campeão da NFC, os Rams passaram a um time de mãos atadas que sequer aos playoffs pode ir

Com 1:30 para o final do primeiro quarto, o Baltimore Ravens tinha 14 a 0 no placar e qualquer chance de vitória do Los Angeles Rams no Monday Night Football parecia improvável. As chances de playoff do time após a eventual derrota também assim ficaram. Improváveis.  Foi até simbólico que a sensação ofensiva de 2019 – os Ravens – tenham massacrado a outrora sensação ofensiva de 2018 – os Rams.

De certa forma, com a vitória dos Rams contra o Chicago Bears no Sunday Night Football da semana 11, um fio de esperança se acendeu. Quem viu apenas o placar pode pensar: bom, não fizeram nem 20 pontos. Mas mesmo os mais críticos do time, como venho sendo há algum tempo, sabiam que havíamos visto evolução. Apesar de estar desfalcada, a linha ofensiva não foi uma peneira ante Khalil Mack e companhia, Todd Gurley teve 28 toques na bola. O play action entrou em profundidade. Tudo isso sem Brandin Cooks e Robert Woods no corpo de recebedores.

O fio de esperança que conduzia o sonho do torcedor dos Rams ruiu na segunda-feira. O Baltimore Ravens não tomou conhecimento do time, correu como se não houvesse amanhã, Lamar Jackson teve cinco passes para touchdown… Você viu o jogo. Este texto não é para isso. É para responder: como chegamos até aqui? Como o atual campeão da Conferência Nacional pode ser o primeiro time desde 2015 a não chegar nos playoffs depois de ter jogado o Super Bowl?

O problema na injeção eletrônica: Gurley

A falta de toques de Todd Gurley voltou a acontecer ontem – até de maneira circunstancial, pelo fato do jogo aéreo ser mais empregado para tentar diminuir a vantagem imposta pelos Ravens logo no início da partida. Isso aconteceu em outras derrotas neste ano, como a da Semana 4 contra o Tampa Bay Buccaneers – o primeiro “grande golpe” sofrido por Los Angeles nesta temporada.

Não é coincidência que Gurley tenha média de 12.7 toques na bola (recepções/corridas) em derrotas dos Rams e 17.5 toques na bola em vitórias do time. Ele é a ignição desse motor – se prepare, porque a analogia automotiva vai longe aqui.

Não temos como saber o porquê dessa diminuição nos toques fora o pensamento lógico em derrotas quando o adversário pula na frente. Em outros jogos mais parelhos, porém, o número também foi baixo. Então, de duas uma:

a) Ou o joelho de Todd Gurley não está saudável e os Rams estão fazendo um rodízio para lhe poupar rumo à pós-temporada – tal como a NBA vê com Kawhi Leonard e LeBron James

b) Ou Sean McVay, o head coach do time, é um tremendo teimoso e tal como por vezes acontece com Andy Reid, apaixona-se pelo jogo aéreo e esquece da importância de Gurley para esse time.

Seja um seja o outro, não estamos vendo mudanças constantes. A única vitória de Los Angeles na qual Gurley teve menos de 15 toques foi contra o Cincinnati Bengals, o grande café com leite da NFL em 2019. Como disse: não é coincidência.

Gurley tocar muito na bola faz com que ela esteja em suas mãos em vez de estar nas mãos de Jared Goff – que a essa altura do campeonato é um acidente esperando para acontecer. Ainda, a presença do running back faz com que a defesa adversária tema o play action e, por tabela, esse ajuda a vida de Goff – sobretudo em passes longos e/ou no meio do campo para Cooper Kupp em crossing routes. Se a injeção pifou, isso significa que o câmbio automático também vai ter problemas.

Jared Goff: o robô de Sean McVay + perdas na linha ofensiva

O técnico dos Rams sabe das limitações de seu quarterback e desde que chegou fez tudo para facilitar sua vida e, por tabela, melhorar sua produção. Mais passes em screen, mais play action, mais Gurley. A diretoria também se empenhou em contratações. O destaque ficou para o left tackle Andrew Whitworth, sólido bloqueador que ajudou demais a vida de Goff.

A questão é que quando um time se destaca, alguns jogadores coadjuvantes veem sua cotação aumentar na free agency e embolsam contratos em outros lugares. Na prévia antes da temporada, o Henrique Bulio escreveu:

Depois, a linha ofensiva. Dos cinco titulares em 2018, dois deles não voltam: o excelente Rodger Saffold e o bom John Sullivan deixaram o time em março – ambos jogam pelo interior da linha, e seus substitutos são uma incógnita em termos de produção. Whitworth retornou para mais uma temporada e Havenstein é um right tackle sólido, mas a linha ofensiva dos Rams preocupa.

Ainda preocupa. Jared Goff constantemente está sofrendo pressões pelo meio da linha, o jogo terrestre/play action perdeu eficiência e, para piorar, Goff está com 10 fumbles em 12 jogos. Sem contar as interceptações, portanto, a média está quase em uma perda de bola/jogo. Contando as interceptações, a crise se agrava: 22 turnovers em 12 jogos – quase dois por partida, portanto. Não dá para ser competitivo assim.

No ano passado, os Bears e os Patriots mostraram o caminho das pedras para destruir a força esquemática de Los Angeles: colocar 6 homens na linha, neutralizar Gurley (a injeção eletrônica) e forçar Goff a entrar em pânico. Com fita desses jogos para se inspirar, as defesas adversárias estão achando ainda mais problemas no sistema ofensivo de LA. Ontem os Ravens mostraram isso: blitz com defensive back. Jared Goff entrou no jogo com 38% de comp. nessas jogadas. Ontem foram 20 assim. Nelas, Goff teve 4.6 yds/tentativa, 2 INT e 2 sacks. Tela azul total.

O futuro também é problemático

Como resultado, os Rams têm 14% de chance de playoff e o time caiu 8 pontos por jogo em relação a 2018 (é o 14º da NFL sendo que foi 2º no ano passado e 1º em 2017). Ao mesmo tempo, as boas campanhas de 2017 e 2018 fizeram com que:

i) O time renovasse com Todd Gurley a peso de ouro. Ele é o segundo running back mais bem pago da NFL e ano que vem tem 25 milhões de impacto na folha salarial (sendo cortado ou não, já que esse dinheiro é garantido). Os Rams só podem mandar um “o problema não é você, sou eu” a partir de 2021 e mesmo assim seria um impacto relevante na folha de pagamento (salary cap): 8,4 M

ii) O time cometesse a insanidade de renovar com Jared Goff na média de 33 milhões de dólares ano. O que importa aqui é o dinheiro garantido: 61 M neste ano, 51 M no ano que vem e 15 M em 2021. Ou seja, os Rams estão presos a Goff até no mínimo março de 2022. O time só pode cortá-lo/trocá-lo sem impacto negativo após a temporada 2022. Ugh.

Ante esse cenário e sabendo que a janela de título do time era pequena, o time acelerou e fez um grande all-in trocando escolha de primeira rodada por Jalen Ramsey para reforçar uma defesa que, inesperadamente, virou o melhor setor do time. Chamo de All-In porque essas escolhas de primeira rodada poderiam ser empregadas para uma eventual reconstrução do time.

Para o dono da franquia, Stan Kroenke, o que importa é que o time está bem agora – no momento em que as “cadeiras cativas” e camarotes do gigantesco novo estádio estão à venda. Os cofres do time, para o médio prazo, estarão saudáveis. O elenco que estará em campo? Um pós-Chernobyl, muito provavelmente.

O cenário é pessimista e mesmo que eu imaginasse que iria dar ruim, não achava que chegaria a esse ponto – e menos ainda tão cedo na temporada. O futuro idem. Não tendo muito como mudar as peças do tabuleiro, Sean McVay terá que se reinventar para as próximas temporadas. Se vai conseguir? Só o tempo dirá.

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