SANTA CLARA, CA — Em certa medida, várias coisas que esperávamos de fato aconteceram. Na segunda coletiva de imprensa de Kyle Shanahan, perguntei a ele se havia alguma ideia em mente para anular bootlegs e rollouts de Aaron Rodgers. Afinal, Jared Goff havia feito exatamente isso na Semana 16 e o resultado foi, ao menos em termos estatísticos, excelentes.
Shanahan me respondeu que ele fazia isso, LaFleur fazia isso e McVay, head coach dos Rams, idem. Ainda, mencionou a necessidade de parar o jogo terrestre como forma de evitar que os rollouts entrem e façam sentido. Afinal, sem as corridas funcionando, não faz sentido nenhum correr com a bola.
Ao final do primeiro tempo, Aaron Jones tinham nove tentativas para 49 jardas – acima das 5,0 jardas por tentativa. O que aconteceu para o jogo estar 27 a 0 no intervalo, então? A resposta reside em aspectos intrínsecos à essëncia do futebol americano. No final das contas, estatísticas podem ser importantes, mas ainda é um esporte cujo objetivo maior é a conquista do território.
Green Bay até conquistara e levara campanhas para o campo de ataque. O problema, quando tinham a bola, é que a perderam logo em sequência. O 27 a 0 do intervalo era explicado, em certa medida, pelos dois turnovers dos Packers. Um fumble no snap para Rodgers e, depois, uma interceptação que virou bola quase na red zone de San Francisco e consequente touchdown que deixou o jogo em 27 pontos de diferença.
Mas não é apenas isso que explica. Do outro lado, uma obra prima de Kyle Shanahan.
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Desde o início da partida, ficara claro que a linha ofensiva dos 49ers teria um grande dia. O sistema de bloqueios em zona no esquema tático de Kyle Shanahan fora herdado de seu pai tanto quanto seu sobrenome.
Para Mike Shanahan e o Denver Broncos dos anos 1990, uma linha ofensiva forte significava que no backfield seria necessário um corredor com boa visão de jogo para navegar nos bloqueios. Não era, necessariamente, preciso que o time investisse pesado num running back no topo do Draft, por exemplo.
Naquele time, Terrell Davis veio “do nada” como escolha de sexta rodada e sua visão de jogo era a virtude mais importante para explodir nas perimetrais abertas pela excelente linha de Denver. O mesmo fora válido hoje para Kyle, os 49ers e Raheem Mostert.
Durante o período de vestiários abertos nesta semana, fora justamente a comparação que fiz pra o próprio Mostert. Ele sorriu com, guardadas as proporções, as histórias parecidas entre ele e Davis. Ambos explodiram na pós-temporada.
Ja no meio do jogo, Mostert mostrou a que veio. Ele passara das 100 jardas terrestres com facilidade. O jogo terrestre dos 49ers, como um todo, deu novamente seu cartão de visitas: no início do último quarto, Jimmy Garoppolo tinha tentado apenas 6 passes com o time vencendo por 34 a 13 – os quatro touchdowns de San Francisco, até então, todos de Mostert no jogo terrestre.
Kyle Shanahan deu sua grande aula no gramado do Levi’s Stadium nesta semana. Por cima, poderia parecer um grande capricho do destino que Shanahan chegasse novamente ao Super Bowl correndo à rodo com a bola justamente depois de ter implodido uma liderança de 28 a 3 por não ter corrido com a bola.
Mas, como tudo na vida, não é sobre errar. É sobre recompor-se e seguir em frente, ignorando o barulho e focando na missão. De certa maneira, foi até o que Aaron Rodgers fez depois de péssima interceptação que sofreu no final do primeiro tempo.
Rodgers até se esforçou no segundo tempo mas a verdade é que o resultado já estava sacramentado no primeiro tempo. Houve pinturas de passes, como de costume. Tarde demais, porém. A noite foi de Kyle Shanahan, do jogo terrestre e de um futebol americano limpo e praticamente sem erros do lado de San Francisco.
Na temporada 100, o campeão do Super Bowl na temporada 50 da NFL, Kansas City Chiefs, enfrentará o campeão do Super Bowl na temporada 75, o San Francisco 49ers. Parece destino. Mas, no fundo, foi competência das duas melhores equipes dos playoffs da AFC e da NFC.







