Não é muito comum o nome do New England Patriots estar atrelado a agentes livres cujo preço está no topo do mercado em março. O modo de construção de elenco de Bill Belichick é bem simples: escolhas de Draft numa mão, trocas de escolhas de baixo valor por jogadores veteranos na outra. Evidentemente, essa fórmula tem dado resultado para a franquia, sabendo dos 6 títulos de Super Bowl conquistados ao longo das duas últimas décadas.
Você pode contar nos dedos as aquisições de grande valor realizadas pela organização nos últimos anos – e isso se aplica também a manter os jogadores free agents que assinam contratos imensos saindo de New England. Os Patriots nunca pagariam o mesmo valor que os Giants pagaram a Nate Solder; Trey Flowers? Trent Brown? Todos assinaram contratos com imensas garantias longe de Foxborough. A filosofia de Bill Belichick é de que sempre é possível encontrar substitutos por valores muito menores dos que o mercado determina.
Existem algumas exceções à essa regra, é claro: agora em 2019, Antonio Brown assinou um contrato de 15 milhões de dólares com a organização logo após o início da temporada – ele foi dispensado logo depois por conta de suas ações extracampo, mas enfim -, e Darrelle Revis foi contratado por 12 milhões de dólares logo após ser dispensado pelo Tampa Bay Buccaneers em 2014. Ambos são jogadores de imensa qualidade – Revis ainda estava em excelente forma em 2014 – e o preço não era exatamente de topo do mercado, ademais, esses acordos duraram apenas 1 ano.
Com tudo que foi dito acima, existe uma exceção ainda maior: Stephon Gilmore.
E pode ter certeza que Belichick não está arrependido.
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O conceito por trás de pagar ou não pagar um agente livre para Bill Belichick é um bastante simples na verdade: valor. Sabe porque as pessoas colocam tanta ênfase nos contratos de calouro? Porque o valor é muito baixo dadas as condições do último CBA; e se ele se torna um grande jogador nos seus primeiros anos na liga, então o valor de produção dele certamente é maior que o valor de custo.
É por isso que times como Eagles em 2017, Rams em 2018 reforçam tanto seu elenco com jogadores veteranos: porque eles já possuem um franchise quarterback cujo custo ainda não é o de um franchise quarterback. Philadelphia venceu o Super Bowl em 2017 e Los Angeles foi derrotado no ano seguinte, ambos para o time no qual esse texto está focado e cujo conceito de valor melhor está aplicado: New England.
Como dissemos acima, Stephon Gilmore é uma exceção a pagar os contratos de topo de mercado. Mas isso não faz com que ele seja uma exceção no conceito de valor descrito acima: atualmente, ele é apenas o 9º cornerback com a maior média salarial da posição na liga, de acordo com o site Spotrac:

Trumaine Johnson assinou um contrato multimilionário com o New York Jets em 2018 e, dessa lista, ele é disparadamente o pior em termos de custo-benefício: não é só que ele não está justificando o valor pago, e sim que suas performances têm sido tão ruins que ele até mesmo foi colocado no banco em alguns momentos dessa temporada. Pagar por um jogador é sempre um movimento arriscado.
Os Patriots arriscaram em Gilmore e deu certo – e como deu certo.
Agora que já explicamos o conceito de valor e a estratégia dos Patriots quando a free agency começa, vamos falar especificamente do melhor jogador da equipe em 2019. O ataque de New England não é nada impressionante nesse ano, vivendo de alguns poucos flashes – Tom Brady definitivamente não é mais o mesmo quarterback por uma variedade de motivos. O que realmente carrega o time na campanha fantástica é a defesa, e essa tem um jogador atuando em um nível digno de Jogador Defensivo do Ano.
A imagem acima mostra que Gilmore assinou com os Patriots em 2017, logo após vencerem o Super Bowl LI sobre o Atlanta Falcons. Em sua primeira temporada com a franquia, o time não conseguiu repetir o título, sendo derrotado no jogo final pelo Philadelphia Eagles. Sua influência na partida, ainda assim, foi notável: assim que Bill Belichick alterou o esquema defensivo para colocar Gilmore na marcação de Alshon Jeffery – que vinha sendo o principal alvo de Nick Foles ao longo daquela partida – individualmente, Jeffery não registrou mais nenhuma recepção. Para chegar na final da NFL, ele teve uma defesa de passe crucial contra o Jacksonville Jaguars que praticamente garantiu a passagem dos Patriots ao Super Bowl.
Mesmo assim, não foi até 2018 que o impacto do cornerback foi causado em sua totalidade – e, novamente, o conceito de valor é aplicável: no ano passado, Gilmore foi o oitavo cornerback mais bem pago, porém, foi quase uma unanimidade o fato dele ter sido o melhor jogador da posição, sendo eleito ao First Team All-Pro. Ele cedeu recepções em apenas 46 das 95 vezes em que a bola foi lançada em sua direção (48,4%) e, quase sempre, ele esteve marcando em cobertura homem-a-homem sem qualquer ajuda dos safeties, já que sua força e sua qualidade em press coverage façam com que os coordenadores defensivos não precisem desenhar qualquer tipo de ajuda ao defensor. No último Super Bowl, vencido pelos Patriots por 13 a 3, Gilmore registrou uma interceptação no último quarto.
Vindo do melhor ano de sua carreira, 2019 não tem o jogador apenas como o melhor da posição mais uma vez: ele é candidato ao prêmio de Jogador Defensivo do Ano – e, na opinião pessoal desse escritor, o favorito ao prêmio. Ele cedeu o primeiro touchdown em toda sua temporada justamente ontem, no jogo contra o Buffalo Bills, na semana 16. A parte interessante dessa estatística é que ele marcou mais touchdowns (2) do que cedeu, já que 2 das suas 6 interceptações esse ano foram pick-six.
Outra vez, ele tem cedido menos de 50% dos passes que são lançados em sua direção, e o rating desses passes está em 34.7. Se você lançar 20 passes numa partida e todos forem incompletos, seu rating será de 39.4. E o desempenho em campo combina com as estatísticas: claro, é impossível que todo e qualquer passe seja incompleto, porém, ele sempre está em boa posição nas coberturas que são de sua responsabilidade. Gilmore é simplesmente fantástico não importa como você queira avaliá-lo.
Ele precisará manter esse nível de consistência para que New England vença o quarto Super Bowl em 6 anos, afinal, a defesa é a força motriz desse time. O ataque tem começado a demonstrar algum nível de consistência e produção que não vimos ao longo da maioria de 2019, mas contar com isso nesse momento é bastante arriscado. Gilmore é um cornerback fantástico, o melhor da liga e que deveria ser eleito o melhor jogador defensivo de 2019.






