Rio de Janeiro, final dos anos 90 – Lá estava eu, um fã de futebol americano brasileiro que, como quase todos os outros, lutava para conseguir mais informações sobre a NFL. A ESPN já transmitia os dois jogos noturnos a cada semana, além de parte (não todos) dos jogos de playoff. Às vezes era difícil saber os resultados todos rapidamente, sendo quase impossível se aprofundar nos detalhes da liga.
Com a chegada da conexão à internet em muitos domicílios brasileiros, o acesso à informação começava a se tornar mais fácil. Na minha casa, como na maioria das residências, tínhamos uma conexão discada, com a incrível velocidade de 28800 bits por segundo (equivalente a algo como 3kB por segundo…). Ao me aventurar na busca por informações sobre o esporte que tanto me encantava, cheguei ao site da revista Sports Illustrated (naquela época ligado à CNN, cnnsi.com). E ali me deparei com os artigos escritos por um certo Paul Zimmermann, que recebia a alcunha de Dr. Z.
A cada leitura, crescia o interesse sobre a NFL e o futebol americano como um todo. O estilo de Zimmermann, mordaz, eloquente, dando ênfase especial à história do jogo e aos conceitos estratégicos que permeiam o esporte, me conquistou rapidamente. Seus Power Rankings, resumos da rodada, avaliação das transmissões de televisão, todos imperdíveis. Com o tempo, fui entendendo um pouco mais sobre o futebol americano, sabendo então admirar ainda mais o trabalho de Dr. Z (assim como de outros jornalistas).
Como veremos ao falar sobre a história de Paul Zimmerman, o “doutor” praticamente definiu a maneira de se escrever sobre a NFL. Além disso, soube se reinventar na transição do papel para a tela do computador. Dr. Z foi e é influência para todos que fazem a cobertura da NFL. Inclusive para nós aqui no Pro Football Br. Fico muito feliz em poder falar sobre esse verdadeiro personagem da NFL, que me traz lembranças tão boas dos meu próprios primórdios, na liga e na vida.”
O Início: de Paul Zimmerman a Dr. Z
O futebol americano sempre fez parte da vida de Paul Zimmerman. O futuro jornalista jogou como guard na universidade em Stanford, experiência que viria a moldar seu estilo único ao escrever sobre o esporte. Após concluir sua formação em jornalismo na Universidade de Columbia, Zimmerman seguiu, como todo recém-formado, em busca de emprego. E este primeiro emprego apareceu na Califórnia, no outro lado do país (Columbia fica em Nova York). Paul Zimmerman trabalhou em Sacramento cobrindo esporte escolar. Após voltar a Nova York, Zimmerman passou a cobrir esporte universitários e profissionais, sempre trabalhando em jornais, fazendo da palavra escrita sua via de comunicação.
O primeiro jogo da NFL em que Paul Zimmerman participou da cobertura foi a decisão da NFL em 1960, entre Eagles e Packers. Sua função era entrevistar atletas no vestiário do time derrotado (Packers) mas, em vez de obter declarações das estrelas do time, como o quarterback Bart Starr e o running back Paul Hornung, Zimmerman preferiu discutir com membros da linha ofensiva os esquemas de bloqueio do técnico Vince Lombardi. Isso já denotava uma característica que permearia o trabalho do jornalista: o conhecimento sobre estratégia e a capacidade de falar com jogadores e técnicos de igual para igual.
Depois de ganhar notoriedade na mídia nova-iorquina com suas colunas e com a cobertura direta no New York Jets, Paul Zimmerman, por seu amplo conhecimento sobre o esporte, ganharia o apelido que o imortalizaria: Dr. Z.
Seu estilo sempre mordaz, muitas vezes incluindo críticas severas a jogadores e técnicos, garantiu a Dr. Z alguns desafetos. Talvez o mais famoso seja Joe Namath, histórico quarterback dos Jets. Insatisfeito com uma reportagem do jornalista, Namath liderou um boicote dos jogadores, que ficaram um bom tempo sem dar entrevistas a Zimmerman. Segundo Dr. Z, a culpa foi do editor do texto, que teria alterado o título e a ordem de alguns parágrafos, mudando o sentido do artigo. Fato é que, só muitos anos depois, Joe Namath voltaria a falar com Dr. Z.
Aliás, o conflito com editores esteve sempre presente dentro da história de Paul Zimmerman. O jornalista sempre odiou ter seus textos alterados e, bem a seu estilo, costumava deixar isso claro, o que levou a diversas quedas de braço com seus empregadores.
A Sports Illustrated
Em 1979, Paul Zimmerman, já conhecido no meio da mídia esportiva como Dr. Z, assumiu a posição de principal repórter na cobertura da NFL da revista Sports Illustrated. Na revista, Dr. Z firmou seu lugar como uma lenda do jornalismo esportivo. Juntando seu texto ao mesmo tempo fácil e profundo, mordaz e intenso, Dr. Z transformou a maneira de se falar sobre a NFL. Ao analisar profundamente as partidas, o jornalista trouxe o linguajar dos técnicos e jogadores para o alcance de todos. Sua paixão pelo trabalho das linhas ofensiva e defensiva permitiu que o público em geral pudesse olhar para o jogo de maneira diferente.
Viajando por todo o país, cobrindo jogos in loco, Dr. Z era famoso por seu comportamento tanto na área da imprensa no estádio quanto nas entrevistas após o jogo. Dr. Z passava todo o jogo anotando cada jogada, construindo o que viria a ser seu olhar sobre o jogo. Durante esse processo, reagia com irritação no caso de qualquer interrupção. Já nas coletivas dos jogadores, Zimmerman frequentemente fazia perguntas surpreendentes, sobre temas relacionados a técnica e estratégia, conseguindo respostas detalhadas e abertas da parte dos jogadores. Ele falava a mesma língua dos profissionais da NFL. Outra marca registrada de Dr. Z durante e após as partidas era o fato de estar quase sempre com um charuto na boca. Realmente, eram outros tempos…
Nesta época, Dr. Z escreveu seu livro The New Thinking Man’s Guide to Pro Football (O novo guia do homem pensante sobre futebol profissional). O livro é um microcosmo do trabalho de Zimmerman, juntando reportagem e discussão de estratégia do esporte.
Quando não estava viajando, Dr. Z estava na redação da revista arrumando confusão com seus editores. Zimmerman odiava ter seus artigos reduzidos e editados, queixando-se intensamente de qualquer alteração feita. Durante muito tempo, o status do jornalista dentro da profissão fazia com que ele ganhasse estas brigas. Com o passar dos anos, entretanto, a direção da revista decidiu mudar a cobertura da NFL (e dos outros esportes), buscando outro teor de informação. O estilo analítico de Dr. Z aparentemente não cabia nesta mudança, o que fez com que ele perdesse espaço. Assim, Zimmerman acabava perdendo força e tendo seus textos reduzidos e alterados.
Para um jornalista já veterano, sempre ligado às velhas máquinas de escrever, parecia que seu tempo estava ficando para trás. Mas Dr. Z ganharia nova força em um lugar surpreendente.

A Internet
Ao perder espaço na revista, Dr. Z passou a ocupar um grande espaço no site da Sports Illustrated na internet. Escrevendo várias colunas semanais, como o resumo da rodada e Power Rankings cheios do seu estilo crítico, Dr. Z mostrou seu olhar único sobre o esporte a toda uma nova geração de leitores (incluindo este que vos escreve).
Online, sem a pressão dos editores por limites de palavras e temas, Dr. Z pôde explorar todos os seus interesses além do futebol americano, entrelaçando-os com seu imenso conhecimento do esporte. Desta forma, além das informações sobre o estado da liga e das equipes naquele momento, era possível ler sobre vinhos, viagens, história (da NFL e do mundo) além, é claro, de tudo que se referia à mulher de Paul Zimmerman, Linda. Ou melhor, para usar o nome com o qual Dr. Z se referia a ela em suas colunas, a Ruiva Flamejante.
Seus contatos íntimos com muitos jogadores e técnicos da liga mantinham Dr. Z como uma das principais fontes de informação e análise sobre todos os fatos da NFL. Já com mais de 70 anos, Dr. Z seguia como leitura obrigatória para quem quisesse se aprofundar no esporte.
Em 2008, entretanto, aconteceria o evento que mudaria para sempre a história de Dr. Z, encerrando abruptamente sua carreira e prejudicando intensamente sua vida.
Vida e Legado
Paul Zimmerman sofreu um AVC (acidente vascular cerebral), que não tirou sua vida, mas tirou diversas de suas funções vitais mais importantes. Desde 2008, Dr. Z não é capaz de ler ou falar de maneira adequada. Está em uma cadeira de rodas e se comunica com muita dificuldade. No início deste ano, aos 83 anos, Dr. Z precisou sair de sua residência para ir morar em uma instituição para pessoas com necessidades especiais.
Quando sofreu o AVC, Paul Zimmerman estava escrevendo um livro de memórias. Ele ainda tenta, a duras penas, finalizar o livro. Sempre acompanhado de sua mulher Linda, Paul Zimmerman segue lutando, agora também com dificuldades financeiras, principalmente após um furto em sua casa.

Quando pensamos em tudo o que as palavras escritas por Dr. Z deram ao esporte e, consequentemente, a todos nós apaixonados pela NFL, só é possível reverenciá-lo e desejar que ele consiga cumprir seu objetivo de terminar seu livro.
Nesta semana, o site norte-americano themmqb.com está fazendo uma campanha de arrecadação de fundos para o tratamento de Paul Zimmerman, assim como para a publicação de seu livro. Para quem lê em inglês, recomendamos os diversos artigos de Dr. Z publicados na página esta semana, além de diversas histórias sobre o jornalista, como as que contamos hoje aqui.
Aqui no Pro Football Br, quaisquer que sejam nossas profissões de origem (eu mesmo não sou jornalista, embora venha de uma família de jornalistas), todos buscamos fazer uma cobertura completa, profunda e abordando os diversos aspectos desse esporte sensacional que é o futebol americano. Por isso, Dr. Z segue sendo uma grande inspiração para o nosso trabalho.







