Ao final da temporada 2012 da NFL, o San Francisco 49era parecia uma equipe destinada a longos anos de sucesso. Apesar da derrota no Super Bowl XLVII para o Baltimore Ravens, a equipe californiana contava com um dos melhores técnicos da liga (Jim Harbaugh), ainda chegando a seu auge, e um quarterback que se mostrava até aquele momento como uma estrela em ascensão (Colin Kaepernick). Desde então, a equipe só cai de produção a cada temporada, sendo que muito dessa queda se relaciona à aparente involução de Kaepernick como quarterback. Hoje discutiremos algumas razões para a derrocada da equipe, com foco principal na escolha de quem será o quarterback a liderar a equipe na busca por melhores resultados em 2016.
Histórico Recente
Após a chegada ao Super Bowl, no início de 2013, as coisas começaram a degringolar para os 49ers. Na temporada 2013, a equipe ainda chegou aos playoffs, sendo derrotada pelo Seattle Seahawks na decisão da Conferência Nacional. Já em 2014, a queda de produção ofensiva levou a equipe a terminar com oito vitórias e oito derrotas, não conseguindo a classificação aos playoffs. Este resultado acabou determinando a saída de Jim Harbaugh do comando da equipe. Finalmente, em 2015, sob o comando de Jim Tomsula, San Francisco teve uma péssima temporada, com apenas cinco vitórias, além de onze derrotas. A instabilidade na posição de quarterback foi mais uma vez determinante no fracasso da equipe. Colin Kaepernick foi barrado no meio da temporada, e seu substituto Blaine Gabbert, embora tenha jogado um pouco melhor, não foi o suficiente para melhorar o desempenho do time.
Tomsula foi demitido após a temporada e, para seu lugar, foi trazido o ex-técnico do Philadelphia Eagles, Chip Kelly, sabidamente um expert em sistemas ofensivos. Resta saber o que Kelly conseguirá fazer com o ataque da equipe, principalmente com relação à posição de quarterback. Além disso, Kelly terá que lidar com outra situação complicada, que certamente interferiu muito no trabalho de seus dois antecessores: as decisões do general manager Trent Baalke.
É fácil perceber que, desde 2012, um dos maiores problemas dos 49ers tem sido o fracasso em encontrar peças de reposição adequadas para jogadores que deixaram a equipe. As seleções de Baalke no draft têm, de maneira geral, contribuído pouco para o time. Entre 2012 e 2014, vários jogadores selecionados nas duas primeiras rodadas do draft podem ser considerados busts (farsas). Entre eles, podemos destacar o wide receiver A.J. Jenkins (1a rodada 2012), o running back La Michael James (2a rodada 2012), o tight end Vance McDonald (2a rodada 2013) e os safeties Eric Reid e Jimmy Ward (1a rodada 2013 e 2014 respectivamente). Veremos o que as classes de 2015 e 2016 dirão sobre a capacidade de Baalke em reconhecer talentos e selecionar jogadores. Cabe lembrar também que questionamentos às decisões do general manager contribuíram para a saída de Jim Harbaugh do comando dos 49ers.
Conhecendo os fatos que contribuem para a situação atual do San Francisco 49ers, veremos quem são os quarterbacks no elenco da equipe, tentando imaginar quem será o nome ideal para liderar a equipe na temporada de 2016. Ao início do training camp, a disputa pela posição ainda parece bem aberta.
Os quarterbacks
Colin Kaepernick:
Colin Kaepernick segue sendo um mistério. O quarterback que, quando assumiu a titularidade da posição nos 49ers, no meio da temporada 2011, tomou de assalto a NFL com sua habilidade atlética e seu canhão no braço direito, parece ter encontrado uma barreira intransponível em seu jogo. Hoje é possível perceber o quanto as condições adjacentes a Kaepernick contribuíram para seu grande sucesso. Entre 2011 e 2013, o San Francisco 49ers contava com uma poderosa defesa, liderada pelo linebacker Patrick Willis, o que diminuía a pressão sobre a performance do quarterback. Além disso, um jogo corrido potente, com o running back Frank Gore e uma eficiente linha ofensiva, certamente facilitou o trabalho de Kaepernick.
Mas talvez o grande fator responsável pelos grandes números alcançados pelo quarterback tenha sido o técnico Jim Harbaugh. Harbaugh modelou seu sistema ofensivo para otimizar as melhores qualidades de Colin Kaepernick, enquanto escondia seus defeitos – que, depois de um tempo, foram cada vez mais explorados pelos coordenadores defensivos adversários. Dentro deste sistema, o ataque dos 49ers alternava o foco no jogo corrido com passes rápidos (e muitas vezes longos) a partir do play action, em geral com apenas uma leitura para o quarterback. Juntava-se a isso jogadas corridas com o próprio Kaepernick, utilizando-se tanto do zone read quanto de corridas improvisadas a partir de jogadas de passe (os chamados scrambles). Desta forma, a velocidade e o braço do quarterback se sobressaíam, enquanto sua dificuldade de manejar o pocket e fazer a progressão das leituras era minimizada.
Com a queda de qualidade do elenco do San Francisco 49ers nos anos subsequentes, foi exigido de Colin Kaepernick (como de qualquer quarterback) uma elevação no seu nível de jogo, para compensar deficiências do time. Aí então suas limitações vieram à tona. A imprecisão nos passes intermediários, a falta de presença no pocket, a dificuldade de ler a defesa, passaram a ser as características predominantes do quarterback. Isto levou, juntamente com problemas físicos, à perda da titularidade durante a temporada 2015.
Nas primeiras semanas da temporada 2015, enquanto ainda era titular, Colin Kaepernick foi um dos piores quarterbacks da liga. De acordo com o site Pro Football Focus, que analisa e dá notas a todos os jogadores da liga, Kaepernick foi o 37o melhor quarterback da temporada entre 38 avaliados. Outro fator importante, citado aqui mesmo no Pro Football, é o péssimo desempenho do quarterback em jogos contra equipes da Divisão Oeste da Conferência Nacional. Contra adversários que o conheciam bem, Kaepernick alcançou o baixíssimo rating de 41,4. Só isso já indica o quanto Kaepernick precisa melhorar para voltar a ser um quarterback eficiente para, quem sabe, retomar sua posição de titular do San Francisco 49ers. Além disso, resta saber o quanto ele conseguirá se recuperar dos problemas físicos, que demandaram inclusive a necessidade de intervenções cirúrgicas durante a intertemporada.
Blaine Gabbert:
Durante o processo que antecedeu o draft de 2011, especialistas discutiam sobre quem seria o melhor quarterback da classe: Cam Newton, Jake Locker ou Blaine Gabbert. Essa pergunta certamente já foi respondida, mas fato é que o Jacksonville Jaguars selecionou Gabbert na primeira rodada. Gabbert teve uma trajetória de pouco destaque em Jacksonville, sofrendo com a baixa precisão nos passes e o alto número de sacks sofridos. Além disso, muitas contusões prejudicaram o início da carreira do quarterback, que viu duas temporadas acabarem por problemas físicos (2012 e 2013). Em 2014, Gabbert chegou, por uma troca, ao San Francisco 49ers. Na temporada seguinte, com as dificuldades de Colin Kaepernick, teve a oportunidade de assumir a posição de titular, que manteve até o final do ano.
Nas primeiras oportunidades de Blaine Gabbert na NFL, ainda nos Jaguars, o que se viu foi um quarterback com grande dificuldade de lidar com a pressão e manejar o pocket, tendendo a antecipar seus passes. Assim, apresentou sempre baixas porcentagens de passes completos e elevado número de interceptações. Imaginava-se que, ao chegar aos 49ers, com mais experiência no jogo profissional, Gabbert poderia melhorar seu domínio do pocket e suas respostas ao pass rush. De fato, foi possível observar algumas melhoras nesse aspecto de seu jogo. Gabbert alcançou melhores porcentagens de passes completos e menos interceptações. Entretanto, sua dificuldade em completar passes longos se manteve como uma limitação importante, dificultando a abertura das defesas adversárias. Além disso, sua presença de pocket segue sendo seu maior ponto fraco, o que dificulta ao lidar com pressão e completar jogadas que requerem leituras mais prolongadas.
De acordo com o Pro Football Focus, Blaine Gabbert foi o 27o melhor quarterback da liga em 2015. Ou seja, ainda que melhor do que Colin Kaepernick, não foi grande coisa. É certo que Gabbert, por ter terminado a última temporada como titular, entra com alguma vantagem na disputa pela posição, mas é necessária grande evolução para que ele possa levar os 49ers a um resultado melhor em 2016.
Jeff Driskel:
Selecionado na sexta rodada do draft 2016, Jeff Driskel é, na pior das hipóteses, um prospecto interessante para o San Francisco 49ers. Driskel finalizou sua carreira universitária em Louisiana Tech, após transferência da universidade da Florida. É um quarterback alto (1,95m) e rápido (4,56seg na corrida de 40 jardas). Toda sua experiência universitária foi em sistemas spread, baseados na formação shotgun, utilizando sua habilidade atlética em corridas a partir do zone read. Tem boa precisão nos passes curtos, sendo capaz de passar a bola na corrida. Passes longos são uma dificuldade para Jeff Driskel, que frequentemente faz a bola flutuar excessivamente, principalmente em passes para a lateral.
Durante seu período em Florida, a equipe técnica tentou fazer de Driskel um novo Tim Tebow, priorizando zone reads, além de passes curtos e rápidos. Só em seu último ano na universidade, já em Louisiana Tech, o quarterback se mostrou capaz de adaptar seu jogo às características exigidas dos profissionais. Ainda assim, certamente necessitará de tempo para se desenvolver como um quarterback viável para os 49ers. Apesar disso, relatos iniciais do training camp dos 49ers sugerem que Driskel pode ter um papel mais importante na disputa pela posição de quarterback titular do que se poderia inicialmente prever.
E aí? Quem será o titular?
Agora que já conhecemos os quarterbacks competindo pela posição, podemos tentar imaginar quem será o vencedor da disputa pela posição de titular. Pelo que vem acontecendo nos primeiros treinos do San Francisco 49ers, aparentemente teremos de fato uma competição aberta pela posição de quarterback titular. Colin Kaepernick e Blaine Gabbert têm dividido igualmente os snaps com o ataque titular, obtendo elogios do coordenador ofensivo Curtis Modkins. Modkins afirmou em entrevista ao repórter Matt Maiocco, do site CSNBayArea, que, apesar de não ter treinado durante toda a intertemporada, devido à recuperação pós-cirurgia, Colin Kaepernick esteve todo o tempo junto à equipe, demonstrando interesse e disposição em brigar pela posição. Ainda assim, Blaine Gabbert parece levar alguma vantagem, até pelo fato de aparentemente contar com a confiança da direção da equipe e de boa parte do elenco, algo que as atitudes de Kaepernick o fizeram perder, pelo menos em parte. Finalmente, Jeff Driskel segue surpreendendo, recebendo elogios diários da imprensa que cobre os treinos dos 49ers. Dependendo da evolução nas próximas semanas, Driskel pode surpreender e entrar de vez nesta disputa.
Para retomar a discussão entre os dois favoritos a ganhar a posição, temos um ponto muito importante. Além dos problemas já citados dos dois jogadores, temos o fato que nenhum dos dois é exatamente ideal para o sistema ofensivo do técnico Chip Kelly. Ao contrário do que frequentemente se diz, Kelly não busca necessariamente um quarterback capaz de correr com a bola. O que seu sistema ofensivo demanda é o raciocínio rápido, o timing e a precisão nos passes curtos e intermediários e, principalmente a capacidade de ler a defesa e achar os espaços que tendem a aparecer com a velocidade imposta pelo ataque. A baixa precisão de Kaepernick e a pouca presença no pocket de Gabbert fazem que ambos estejam um pouco distantes do que seria um quarterback ideal no ataque de Chip Kelly (Marcus Mariota, não por acaso vindo da universidade de Oregon, talvez seja o melhor exemplo).
O San Francisco 49ers tentou abertamente trocar Colin Kaepernick com outras equipes, chegando perto inclusive de um acerto com o Denver Broncos. Ainda que Chip Kelly e sua equipe de coordenadores mantenham o tom conciliatório em entrevistas, sugerindo uma boa disposição em trabalhar com Kaepernick, a postura da equipe sugere um desejo de abrir mão do quarterback, mantendo-se “presa” ao jogador apenas pelo alto salário garantido do quarterback para esta temporada (US$ 12 milhões). Além disso, o término de temporada sólido (embora nada brilhante) de Blaine Gabbert o credencia como favorito a ganhar a posição de titular dos 49ers.
A aposta aqui é que Blaine Gabbert começará a temporada 2016 como quarterback titular dos 49ers. Entretanto, o histórico recente, tanto do jogador quanto da equipe, sugere grande chance de troca de titular ao longo da temporada. Mais do que isso, fica clara a manutenção da posição de quarterback como um dos pontos fracos da equipe. Resta saber o que Chip Kelly conseguirá fazer com o ataque dos 49ers. E você, torcedor do time, quem prefere como quarterback em 2016?
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