A capa deste texto tem data e local: Gillette Stadium, 17 de novembro de 2024. Semana 11 da temporada regular, o New England Patriots recebe o Los Angeles Rams e perde por 28×22. As duas equipes viviam momentos distintos naquela época. De um lado, os Rams caminhavam para ganhar sua divisão e ir aos playoffs: eles cairiam depois para os Eagles no Divisional Round. Do outro, os Patriots viviam (memórias de guerra) um cenário de plena bagunça na curta e tenebrosa era Jerod Mayo. Apesar disso, a sementinha da esperança começava a nascer na forma do então calouro Drake Maye.
Um ano depois, a história é outra em ambos os lados. Os Rams vêm de uma derrota feia para os Falcons, fato. Contudo, ela não apaga tudo o que a equipe faz em 2025, especialmente no lado ofensivo da bola. O ataque dos Rams é eficiente e explosivo por conta de seu mentor, Sean McVay, e a trinca dos sonhos: Puka Nacua, Davante Adams e Matthew Stafford.
O outro lado da moeda tem uma reviravolta ainda maior. Os Patriots foram atrás de Mike Vrabel e tiveram um resultado mil vezes melhor do que o esperado. A defesa tem os seus (vários) problemas no pass rush e na contenção terrestre, mas a força motriz da equipe é o ataque. Em outras palavras: o quarterback. Ninguém nega que Drake Maye é o tudo do New England Patriots em 2025. Não à toa que ele está na disputa pelo prêmio de MVP, ao lado de Stafford.
De um lado, um jovem quarterback voando alto e com futuro promissor. Do outro, um veterano cujo talento foi subestimado por muitos anos, mas que na reta final da sua carreira conseguiu o tão sonhado anel de campeão. Duas gerações distintas da posição – e que estão entregando magia em 2025.
Panela velha é que faz comida boa
Algumas semanas atrás, Kirk Cousins deu uma ótima explicação acerca da forma como os quarterbacks hoje leem o campo. Basicamente, as diferenças entre as chamadas pure progressions e coverage reads. Hoje em dia, os quarterbacks saem do college lidando com defesas mais simples de se ler. Em outras palavras, eles reagem ao que lhes é mostrado – é o que chamamos de coverage reads. Por exemplo: se for uma single high, você fará X. Se tiver dois safeties no fundo, você fará Y e assim vai.
Já as pure progressions são, em resumo, as leituras do campo na ordem em que se apresenta: defensor 1, 2, 3, 4, 5 e assim vai. Com as defesas utilizando cada vez mais disfarces, às vezes fica mais fácil para o quarterback ler vários confrontos individuais ao mesmo tempo do que ler um lado do campo e fazer o checkdown, por exemplo.
Não que as pure progressions tenham sumido da NFL. O próprio Cousins citou Kevin O’Connell como exemplo – e todos os nerds da família Shanahan/McVay adoram usá-las. Também não significa que os quarterbacks mais novos só saibam trabalhar de um jeito. Justin Herbert falou sobre isso recentemente, inclusive. Contudo, existe algo na geração mais velha que consegue olhar o campo como um todo: checar proteção, as rotas, os confrontos individuais, etc. Vimos um pouco isso na curta distopia Philip Rivers nos Colts. Outro bom exemplo é Aaron Rodgers nos Steelers. No entanto, nenhum deles consegue unir hoje experiência e inovação com tanta maestria como Matthew Stafford.
Nós falamos muito sobre a genialidade de Sean McVay, a sincronia com Puka Nacua e Davante Adams, etc. Porém, ter um passador do calibre de Stafford faz toda a diferença. Os números não mentem: 4448 jardas passadas, 42 touchdowns – a maior marca da sua carreira – e 8 interceptações. Se você descontar as três interceptações feias do último Monday Night Football, ele tinha 40 TDs e cinco interceptações até essa semana. Para título de comparação: na temporada regular de 2021, o ano do título, ele teve 4886 jardas passadas, 41 TDs e 17 INT – praticamente o dobro de 2025.
É verdade que os Rams andam com a curva para baixo nas últimas semanas. Os problemas no special teams seguem como o calcanhar de Aquiles do time, tanto que demitiram o coordenador da unidade recentemente. Sem contar com a oscilação da defesa e a ausência de Davante Adams por lesão. Esperar atuações surreais de Puka Nacua toda semana não é sustentável, por mais incrível ele seja dentro de campo. O ataque dos Rams perde e muito sem Davante como alvo na redzone.
Ainda assim, não dá para descartar os Rams de uma corrida ao Super Bowl. Tal como não dá para tirar Stafford da corrida de MVP. Mesmo com o elenco estrelado, o jogador mais valioso da franquia ainda é o quarterback. E ele vem fazendo jus a esse título em 2025.
Temos um novo Sith na Estrela da Morte
Comentamos já há algum tempo sobre como Drake Maye é a razão, o motivo e a esperança do New England Patriots neste ano. É claro que a chegada de Mike Vrabel serviu para botar ordem na casa. Além disso, a volta de Josh McDaniels como coordenador ofensivo foi essencial para lapidar o então diamante bruto.
E que belo diamante eles têm nas mãos.
Maye lidera a NFL na porcentagem de passes completos (71,7%) e em rating (112.9). Além disso, ele tem 4203 jardas passadas, 30 touchdowns e oito interceptações. O jogo do último domingo foi digno de almanaque: 19 de 21 passes completos para 256 jardas e 5 TDs. Embora tenha sido contra o possante New York Jets, você espera que o seu quarterback faça churrasquinho de times fracos. E se teve uma coisa que Drake Maye fez em 2025, foi amassar adversários fracos – voltaremos a falar desse ponto mais na frente, aliás.
Não é exagero nenhum dizer que ele é 99,9% do ataque dos Patriots, porque ele de fato é. A linha ofensiva tem seus buracos, ainda mais com a ausência de Will Campbell – ou Will “Get Better Soon” Campbell, como diria o próprio Drake Maye. O backfield não é lá aqueeeelas coisas, embora TreVeyon Henderson seja uma grata surpresa. E Rhamondre Stevenson lembrou que não tem as mãos do Rex do Toy Story, mas enfim.
Por fim, tem o grupo de recebedores. O alvo mais consistente de Maye é literalmente Hunter Henry, com 7 TDs. Entre os wide receivers, o mais regular é Stefon Diggs – que hoje anda mais no noticiário policial do que outra coisa. Se fosse outro quarterback menos talentoso no lugar de Maye, seria quase impossível imaginar New England brigando por pós-temporada. Como eu disse no começo do texto, Drake Maye é o tudo do seu time em 2025. Ou melhor, o jogador mais valioso dele.
Saia do muro, Anna!
Antes que vocês me acusem de construir um altar do Drake Maye na sede (virtual) desta instituição, eu já vou adiantar que o meu voto para o prêmio de MVP é… Matthew Stafford. Isso também não é nenhum tipo de mandinga Mick Jaggeriana para fazer Drake Maye ganhar o prêmio (embora eu seja pé frio mesmo). Por mais que Maye seja o favorito nas odds de Vegas, não podemos descartar o nosso véio Stafford da briga ainda. Mesmo com a atuação bem abaixo na derrota contra os Falcons.
Um dos argumentos mais fortes pró-Stafford é o calendário. De fato, o calendário dos Patriots foi bem mais fácil do que o dos Rams. Vale lembrar também que eles enfrentaram os terríveis Jets e Dolphins duas vezes. Mas como o Cristian lembrou bem no último vídeo do ProFootball: MVP não é Heisman Trophy para medir força de calendário. Até porque nos seis jogos em que eles tiveram em comum, Drake Maye tem campanha 6-0. Já Stafford teve campanha 4-2, por exemplo.
Outro ponto, mas desta vez, a favor de Maye é o fato do seu elenco de apoio ser pior. Embora o grupo de recebedores dos Rams não seja grandes coisas para além de Puka Nacua e Davante Adams, ainda assim ele é melhor do que os Patriots possuem no momento. A linha ofensiva e os running backs dos Patriots também são piores do que os dos Rams.
Dito isso: por que cargas d’água você apostou em Stafford, Anna? Basicamente, é uma aposta baseada no fator “isso não vai acontecer de novo”. Parece bobo, mas os votantes do prêmio (cof cof Henrique Bulio) podem levar em consideração isso. Stafford ainda joga em altíssimo nível, porém nós sabemos que ele já está no crepúsculo da sua carreira. Do outro lado, temos uma estrela nova, jovem e que tem tudo para jogar em alto nível por muitos anos. E vamos combinar: eles até se parecem um pouco entre si. Embora Maye seja mais móvel do que Stafford era na idade dele, ambos possuem o braço forte, adoram lançar TDs em janelas impossíveis – e lançar tiros de meta em forma de interceptação também…
Seja lá quem for o vencedor, uma coisa é certa: o privilégio de poder assistir a esses dois é todo nosso.
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